A Argentina arrasou (4-1) o Brasil em novo SuperClássico no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, e pôs a nu as fragilidades da seleção brasileira. Se por um lado, a Argentina confirmou uma nova era – sem a presença de Messi –, já o Brasil anseia por pulso de ferro no banco.
Com uma entrada muito forte, a formação de Scaloni já vencia por 2-0 aos 12 minutos e nem o golo de Matheus Cunha fez acordar o Brasil. Os canarinhos, de Dorival Júnior, foram goleados num estádio onde o Brasil não ganha… há quase 30 anos.
No primeiro SuperClássico que não contou com Messi nem Neymar, a seleção campeã do Mundo puxou dos galões e deu uma lição ao Brasil. Julián Alvarez, Enzo Fernández, MacAllister e Giuliano Simeone fizeram os golos albicelestes contra o golo solitário da canarinha.
O Craques.pt falou com Alejandro Panfil, jornalista do ‘La Nación’, que confirmou uma ideia unânime entre o povo argentino.
“Estamos a assistir a uma nova era no futebol argentino. Quando o Scaloni se tornou técnico interino, trabalhou vários meses com a equipa ainda sem o Messi. E vê-se agora que funciona muito bem”, atirou, acrescentando então: “Desde a Copa América 2019, em que fomos eliminados nas meias-finais, que ficou a sensação de que algo de grandioso estava a começar.”
Messi ainda vai ter de se decidir se participa no Mundial’2026 ou não mas a seleção argentina já mostra ser uma equipa sem o seu maior craque. “Provam que conseguem jogar sem Messi e há uma nova equipa capaz de chegar até 2030, mesmo que com algumas renovações pendentes, especialmente na defesa. Scaloni trouxe vários jovens para o grupo e crescem dentro da seleção”, explica Alejandro Panfil.
Garantido então o apuramento para o Mundial’2026 ainda com quatro desafios por disputar, Scaloni ganhou… tempo. “Vai começar agora o laboratório do selecionador para os próximos dois Mundiais”, avisa Panfil.
Na baliza, estão os experientes Dibu Martínez, Rulli e Benítez, todos com 32 anos e tanto o meio-campo como o ataque têm muita gente jovem a afirmar-se e a despontar. Só a defesa deverá merecer maior atenção. Mas só depois do Mundial’2026.
“O Otamendi (37 anos) acaba no Mundial e mesmo o Pezzella (33 anos) não sei se tem lugar garantido na competição. Ainda há o Tagliafico com 32 anos, por isso, o eixo e o lado esquerdo da defesa vão contar com novos craques”, disse. E apontou logo uma das entradas para o eixo da defesa: “Anselmino, que foi do Boca para o Chelsea, será com certeza uma das apostas”. Para se juntar a Romero, Foyth e Balerdi.
A ausência de Messi não foi discutida no Monumental. Principalmente porque a equipa anima o povo. “Todos desfrutaram por ter uma seleção que consegue dar uma resposta como esta, frente ao Brasil”, esclarece.
Ainda assim, Messi é Messi. “Claro! Ninguém mostrou saudades dele, mas todos o adoram e querem que ele jogue o próximo Mundial. Só o facto de ele decidir ir é muito importante para a equipa e até, mentalmente, para os adversários. Mas Messi já tem 37 anos, tem um Mundial de Clubes este verão em que será uma das principais figuras e precisa de se poupar para poder ir ao Mundial”, diz Panfil.
No final da partida, o argentino Rodrigo de Paul não se poupou nas palavras. “Somos a melhor seleção do Mundo dos últimos 5 anos e a melhor seleção que este país já teve”, afirmou o médio do Atlético de Madrid, referindo-se às duas Copa América e ao Mundial já conquistados.
Será que a albiceleste repete a conquista do Mundial?
“Não sei se o vão reconquistar, mas é uma equipa que vai defender bem o título. Repetir a proeza é muito difícil, há muitas equipas fortes num Mundial e inúmeros obstáculos, muitos deles inesperados. Mas a equipa joga muito bem, ganha e dá confiança aos adeptos. Por que não?”, questiona o jornalista do ‘La Nación’.
“O Brasil não vive uma situação tão dramática desde 1990”. A afirmação é de António Carlos, jornalista brasileiro com quase 40 anos de experiência e atualmente a trabalhar na Rádio BandNews, depois de uma exibição para esquecer da seleção orientada por Dorival Junior.
E os problemas da canarinha parecem bem identificados. “Desde logo a questão do Vinicius Junior. Ele é um grande jogador, mas não é protagonista em nada na seleção. E parece sempre mais focado na questão do racismo e não tanto em jogar futebol. Atenção que o tema do racismo é importantíssimo, mas o Vinicius devia tomar uma atitude diferente em relação a isso”, explica. E que atitude? “Fazer, por exemplo, como fez um dia o Daniel Alves. Atiraram-lhe uma banana e ele comeu-a. Ele próprio ridicularizou o ato. E a partir daí nunca mais o chatearam com isso.”
Outra das questões prende-se com a pouca coragem para apostar nos jovens talentos. Como Estêvão ou Endrick. “Falta apostar mais em jovens jogadores, até porque a equipa poderia sair a ganhar com isso. E eles ganhariam tarimba neste tipo de jogos”, reconhece.
Outro problema centra-se na ausência de um pensador de jogo no meio-campo da canarinha. Frente à Argentina, Dorival apostou num duplo pivô constituído por André e Joelinton, com Matheus Cunha nas costas de Vinicius.
“Falta um MacAllister no meio-campo do Brasil, alguém que pense o jogo. O Bruno Guimarães não tem estaleca para isso. A solução poderia, eventualmente, passar pelo recuo do Neymar para 10”, aponta António Carlos.
Mas com Raphinha, Rodrygo, Endrick, Estêvão, Vinicius Junior e Neymar, quem é que fica de fora.
“Pois, daí ser necessário um treinador com pulso de ferro. Que coloque a jogar quem tem de jogar e que coloque no banco quem não tem condições. Mas tem de ser um treinador incontestável, e infelizmente o Dorival é demasiado boa pessoa para isso. Tem de ser alguém duro”, diz.
E, a propósito do tema, lembrou a equipa do Brasil de 70: “No Mundial’1970, todos questionavam o que o Zagallo ia fazer e ele pôs Gerson Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivelino na mesma equipa. Eram todos camisas 10 nos respetivos clubes. E ainda ficava o Paulo César Lima, 10 do Botafogo, no banco. E todos jogaram e fizeram do Brasil campeão do Mundo.”
A picardia lançada por Raphinha antes do SuperClássico, numa conversa com Romário, antigo internacional brasileiro, também não terá sido a melhor forma de lançar o jogo. “Vamos dar porrada neles. No campo e, se for preciso, fora dele”, disse o extremo do Barcelona.
“Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Ele quis dar ‘uma de Romário’ e não foi a melhor ação, tendo em conta o momento em que vive a seleção brasileira. O Romário e o Edmundo tinham essa mania de espicaçar porque a seleção vivia outros tempos e eles depois chegavam ao jogo e davam sempre uma resposta à altura. Aqui acabou por funcionar contra o Brasil e os argentinos aproveitaram bem a situação”, atira.
Uma picardia que até mereceu resposta de Lionel Messi nas redes sociais.
Por fim, o reputado jornalista falou da contestação intensa que já existe à volta de Dorival Junior. “Já toda a gente pede a saída dele. E depois deste jogo, a pressão vai ser muito forte”, explica.
Quanto a possíveis sucessores, há, então, três nomes com reais possibilidades de serem convidados e dois são portugueses. “Entre Jorge Jesus, Abel Ferreira e Carlo Ancelotti, a federação tem de escolher de forma equilibrada”, refere, lembrando o estigma que os brasileiros ainda têm em relação a um treinador estrangeiro na seleção.
“Ainda há pouco tempo todos diziam que não era preciso um treinador estrangeiro na seleção, mas a verdade é que olhamos e não vemos nenhum técnico brasileiro com reais possibilidades de assumir se o Dorival sair”, explica.
“Tem de vir um técnico credenciado, com pulso de ferro, para operar uma revolução na seleção e, até, no futebol brasileiro. Só uma hecatombe afastaria o Brasil do próximo Mundial, mas acredito que queiram ter alguém renomado no Mundial. Vamos esperar para ver o que acontece nos próximos meses”, finaliza.