Uma história de resiliência com final feliz. A meia-final da Liga das Nações da Concacaf entre o Panamá e os Estados Unidos de Pochettino ficou marcada por um momento incrível e cujos protagonistas irão recordar para toda a vida. Cecilio Waterman, avançado panamiano de 33 anos, saiu do banco para colocar o Panamá na final e correu loucamente para o palanque dos comentadores televisivos onde estava Thierry Henry. “Você é o meu ídolo!”, gritou Waterman, abraçando a lenda do Arsenal e sendo abraçado por todos os companheiros de equipa.
O momento inusitado apanhou Henry e demais comentadores de surpresa. Mas Waterman, que já sabia que Henry seria um dos comentadores da partida, não hesitou em ir cumprimentar uma lenda do futebol e uma “inspiração” na sua vida com momentos bastante adversos.
A história de resiliência de Cecilio Waterman podia dar um livro e é, de facto, um grande exemplo de coragem e determinação para os mais novos. Na flash-interview, o avançado dos chilenos do Coquimbo Unido, emocionou-se bastante.
“A minha mãe abandonou-me a mim e aos meus irmãos quando eu era criança. Procurei-a por muitos anos e só a voltei a descobrir há 2, 3 anos. Mas já não nos falamos (começa a chorar). Enfim, a vida tem os seus altos e baixos mas, no meu caso, houve mais maus do que bons momentos. Estou habituado a lutar. Tenho dez irmãos e lembro-me de o meu pai enviar-me a mim e aos meus irmãos para a escola só com o dinheiro para o bilhete do autocarro. Quando o recreio começava, assistíamos aos nossos colegas a comer”, disse Cecilio Waterman.
E, perante este cenário, Waterman admitiu que chegou a roubar por necessidade. “Na escola vendiam uma massa de farinha com salsicha ao balcão e roubava para comer e dar aos meus irmãos. Éramos muito pobres, nem sequer tínhamos sapatos para poder ir brincar para a rua”, admitiu.
No final, Cecilio Waterman foi o convidado da emissão televisiva da CBS Sports e teve oportunidade de entregar ao seu ídolo a camisola do Panamá que utilizara durante o desafio. “Aconteceram muitas coisas bonitas na minha carreira mas esta é muito diferente. Muito Obrigado! Sim, assina a camisola para mim”, referiu Henry, prometendo oferecer a Cecilio Waterman uma camisola do Arsenal, o que veio a acontecer dias depois.
“Foi a melhor celebração [de um golo] da minha vida”, admitiu, ainda, Henry. “Não sei o que se passou aqui… Uau… e ainda para mais não tinhas preparado nada disto… Incrível”, acrescentou.
Por fim, Cecilio, já mais calmo, explicou a razão de tal festejo. “Na noite antes do jogo, perguntaram-me qual era o meu ídolo. E eu disse logo: Henry. Porque quando era menininho via os jogos do Arsenal e depois acompanhei a tua ida para o Barcelona. Sempre foste uma inspiração para mim. E ao ver-te aqui, isto aconteceu do nada porque nem sabia que estavas cá. Apercebi-me durante o jogo”, confessou.
A celebração histórica de Wtaerman – jogador com uma carreira construída em clubes do Uruguai, Venezuela, Chile e Peru – com Henry levou Mayer Mizrachi, presidente da Câmara Municipal da Cidade do Panamá a convidar Thierry Henry a visitar o país, através de uma carta enviada ao antigo internacional francês.
“O golo de Cecilio Waterman aos 94 minutos contra os Estados Unidos fez-nos vibrar, mas a sua reação sincera e humilde conquistou os nossos corações. Tornaste-te viral e agora és um de nós. Em nome dos cidadãos convido-te oficialmente a visitar o nosso país”, escreveu.
E acrescentou: “Está à tua espera uma festa cheia de carinho e admiração. O que dizes? Façamos isto realidade. A minha equipa vai combinar contigo”, pode ler-se na carta publicada nas redes sociais.
Waterman foi titular na final da Liga das Nações da Concafaf mas o Panamá viria a perder o jogo decisivo frente ao México, por 1-2, graças ao bis (8′ e 90’+2 g.p.) de Raúl Jiménez, antigo avançado do Benfica e atual futebolista do Fulham de Marco Silva.
O Panamá mostrou resiliência no jogo, com Carrasquilla a ter ainda empatado a partida de penálti aos 45’+2, mas acabou por cair nos momentos finais da partida.