Foto e edição: Rita Carvalho
Alexandre Manão|Craques: O que sentes ao ser campeão europeu de andebol em cadeira de rodas?
João Jerónimo:
“É um orgulho enorme. É sinal de que todo o esforço e todo o trabalho que tivemos durante 14 meses compensou no final. Ser campeão europeu, ainda por cima sendo português, num país tão pequenino, no meio de tantos tubarões da Europa, é algo muito especial.”
Craques: Antes da final disseste ao grupo que iam ganhar. De onde vem essa convicção?
João Jerónimo:
“Antes do jogo começar, depois de aquecermos, reunimos em roda e eu disse-lhes para desfrutarem do jogo porque nós íamos ganhar o campeonato da Europa. Havia uma convicção muito grande de que iríamos conseguir e uma vontade enorme de mostrar que também somos capazes.”
Craques: Já tinhas outras conquistas internacionais. Esta teve um peso diferente?
João Jerónimo:
“Todas as conquistas são especiais. A de Leiria foi muito marcante por ter sido na minha cidade, com o pavilhão completamente cheio. Mas este título agora tem uma importância maior porque é numa modalidade que está a ser cada vez mais aposta a pensar nos Jogos Paralímpicos.”
Craques: Para quem não conhece bem a modalidade, qual é a principal diferença entre o 6×6 e o 4×4?
João Jerónimo:
“No 6×6 o espaço é muito mais reduzido, estão muitas cadeiras no campo. No 4×4 o jogo é mais rápido, mais aberto. O tempo de jogo também é diferente e há os 360 que valem dois golos, como no andebol de praia. É mais espetáculo, mais velocidade e mais choque.”
Craques: Achas que Portugal já é uma referência no andebol em cadeira de rodas?
João Jerónimo:
“Sim, sem dúvida. Nota-se logo quando entramos em campo. Somos a única equipa que faz barulho no túnel e as outras equipas ficam claramente incomodadas. Queremos manter isso. Eles têm de olhar para nós e pensar que vão levar com uma equipa forte.”
Craques: Como defines o teu papel enquanto capitão?
João Jerónimo:
“Sou um atleta normal. Não me distingo por ser capitão. O meu maior objetivo é perceber se todos estão bem, emocionalmente e fisicamente. Quero que todos tenham à vontade para falar comigo e dizer se precisam de alguma coisa.”
Craques: O ambiente na Seleção é mesmo tão especial como parece?
João Jerónimo:
“É difícil de explicar. Parece ridículo dizer isto, mas é demasiado bom. Somos de clubes diferentes, de zonas diferentes do país, mas quando nos juntamos cria-se um laço muito forte. Durante a preparação do Europeu isso ficou ainda mais evidente.”
Craques: A tua ligação ao desporto vem desde muito cedo. Depois do acidente, pensaste alguma vez parar?
João Jerónimo:
“O desporto sempre fez parte de mim. Depois do acidente eu não quis que isso acabasse. Custava-me muito ir ao pavilhão, sentir o cheiro da resina, e saber que não ia jogar. Mas isso também me deu força para procurar outros caminhos e continuar ligado à competição.”
Craques: Hoje estás na APD Figueira da Foz / Os Coxos. O que representa este clube para ti?
João Jerónimo:
“Representa família. Aqui não é só desporto. É convívio, é dar objetivos a pessoas que às vezes estavam em casa sem perspetivas. Há atletas que mudaram completamente a vida desde que vieram para aqui. Isso vale muito mais do que qualquer título.”
Craques: Ainda pensas parar ou o objetivo é continuar enquanto der?
João Jerónimo:
“Não penso parar. Ainda tenho o sonho dos Paralímpicos. Sei que a idade vai aumentando e os mais novos vêm aí fortes, mas enquanto estiver em condições tenho de continuar a trabalhar. Aqui ninguém tem regalias. Somos atletas normais.”
Craques: Como gostavas que as pessoas se lembrassem de ti no futuro?
João Jerónimo:
“Como alguém resiliente. Tudo o que conquistei não foi só talento, foi trabalho e esforço. É essa a mensagem que quero passar. Independentemente de teres talento ou não, se não trabalhares, não adianta.”
Vê a conversa completa em vídeo no YouTube do Craques
A entrevista integral, com bastidores do treino e ambiente da equipa, está disponível aqui:

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