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Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional
24 agosto

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Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

A prata de Camila Rebelo foi o ponto mais alto da participação portuguesa, mas as inúmeras finais, recordes e excelentes classificações demonstraram que a natação nacional atravessa um dos momentos mais promissores da sua história Estes Europeus de Natação foram a confirmação de uma geração que começa a afirmar-se de forma consistente entre a elite europeia. A comitiva nacional regressou a casa com apenas uma medalha, mas dificilmente poderia pedir muito mais à maioria dos seus atletas. Entre recordes nacionais, presenças em finais e excelentes classificações, ficou a sensação de que a natação portuguesa continua claramente em crescimento. O grande destaque português pertenceu naturalmente a Camila Rebelo. A nadadora conquistou uma brilhante medalha de prata nos 200 metros costas, oferecendo a Portugal o único pódio da competição, e voltou ainda a confirmar a sua enorme consistência ao alcançar outra final europeia, desta vez nos 100 metros costas. Mais do que a medalha, Camila confirmou definitivamente o estatuto de uma das melhores especialistas europeias da disciplina. Camila Rebelo foto:FPN Se Camila foi a medalha, Francisca Martins foi talvez o maior símbolo da profundidade da equipa portuguesa. A jovem nadadora esteve presente em quatro finais europeias (!) - 200 metros livres, 400 metros livres, 800 metros livres e estafeta de 4200 metros livres — terminando num extraordinário quarto lugar nos 400 metros livres e com recorde nacional (4.06.93), resultado que confirma a sua afirmação entre a elite continental. Também Diogo Ribeiro voltou a demonstrar porque continua a ser um dos maiores talentos da natação portuguesa. O olímpico terminou em quinto lugar nos 50 metros mariposa e estabeleceu um novo recorde nacional dos 50 metros livres, com 21,72 segundos, ficando a apenas uma centésima de segundo do quinto classificado. Uma margem mínima que ilustra bem o equilíbrio do mais alto nível europeu. Diogo Ribeiro foto:FPN Entre os restantes portugueses, merece igualmente destaque Vasco Morgado, que alcançou as meias-finais dos 200 metros mariposa, continuando a afirmar-se entre os jovens nadadores nacionais com maior potencial. Portugal também voltou a mostrar evolução na natação artística. A seleção nacional alcançou um meritório sétimo lugar no Esquema Acrobático, graças à prestação de Daniel Ascenso, Elisabete Fortunato, Joana Rosa, Lara Botelho, Lara Rolo, Maria Fonseca, Marta Abreu e Rodrigo Carvalho, que apresentaram uma rotina consistente e tecnicamente muito exigente, confirmando o crescimento da modalidade. A participação portuguesa ficou ainda enriquecida pelos excelentes resultados da seleção paralímpica. Marco Meneses conquistou duas medalhas de bronze, nos 50 e 100 metros livres da classe S11, enquanto Susana Veiga e Diogo Cancela voltaram igualmente a marcar presença nas finais das respetivas categorias (S9 e S8), demonstrando a elevada competitividade da natação adaptada portuguesa. Se Portugal apresentou argumentos muito positivos, o panorama internacional ofereceu algumas das melhores histórias do campeonato. A italiana Simona Quadarella voltou a demonstrar porque continua a ser uma das grandes referências da natação mundial ao conquistar um extraordinário triplete nos 400, 800 e 1500 metros livres, dominando por completo as provas de fundo. Simona Quadarella Photo Courtesy:Giorgio Scala/DeepBlueMedia Também David Popovici voltou a fazer história. O fenómeno romeno conquistou pela terceira vez consecutiva a dobradinha dos 100 e 200 metros livres, confirmando-se como um dos maiores especialistas da atualidade nas distâncias de velocidade prolongada, com apenas 21 anos. A Hungria foi outra das grandes protagonistas. Kristóf Milák voltou ao mais alto nível ao vencer os 100 metros mariposa, terminando a apenas três centésimos do recorde do mundo, além de contribuir para o ouro da estafeta húngara 4100 metros livres. O compatriota Hubert Kós brilhou igualmente ao conquistar os títulos dos 200 metros costas, 200 metros estilos e da mesma estafeta. Um dos momentos mais emocionantes aconteceu nos 50 metros bruços. A experiente lituana Rūta Meilutytė, recordista mundial da especialidade, derrotou a grande favorita Benedetta Pilato por apenas um centésimo de segundo, demonstrando que continua perfeitamente capaz de competir ao mais alto nível. Mesmo limitado por uma lesão no adutor, Léon Marchand voltou a impressionar e a colocar Paris em efervescência. O francês foi obrigado a abdicar de várias provas, mas ainda conquistou os títulos dos 200 metros mariposa e dos 400 metros livres, ajudando igualmente a França a alcançar o bronze na estafeta 4100 metros estilos. Léon Marchand foto: Salomon Micko Benrimoh Os Europeus ficaram também marcados por novos talentos. O húngaro Oliver Papai, com apenas 16 anos, deslumbrou nos 400 metros livres conquistando a medalha de prata, enquanto a britânica Amalie Smith, nascida igualmente em 2009, garantiu uma estupenda medalha de prata nos 400 metros estilos. Na mesma disciplina, a irlandesa Ellen Walshe confirmou o favoritismo ao vencer tanto os 200 como os 400 metros estilos. Outro dos momentos altos da competição surgiu nos 100 metros costas, onde o grego Apostolos Christou surpreendeu tudo e todos ao derrotar o recordista mundial Thomas Ceccon por apenas um centésimo de segundo, numa das finais mais emocionantes destes campeonatos. Os recordes também fizeram parte do espetáculo. A italiana Sara Curtis estabeleceu um novo recorde do mundo dos 50 metros costas, com 26,56 segundos, enquanto o alemão de apenas 19 anos Johannes Liebmann assinou uma das maiores exibições da competição ao vencer os 1500 metros livres em 14.26,79 minutos, melhorando em 13 segundos o seu recorde pessoal e retirando quase quatro segundos ao anterior recorde mundial pertencente a Bobby Finke desde os Jogos Olímpicos de Paris. No medalheiro, foi o Reino Unido quem terminou na liderança, graças a mais uma medalha de ouro do que a Itália, apesar de os italianos terem conquistado mais 17 (!) medalhas no total. Portugal regressa destes Campeonatos da Europa com apenas uma medalha, mas com muito mais do que isso. Regressa com finais, recordes, jovens em clara ascensão e a certeza de que a natação nacional nunca teve tanta qualidade distribuída por tantas disciplinas diferentes. E, tal como aconteceu no atletismo, talvez esse seja o melhor indicador de que o futuro continua a sorrir ao desporto português.

Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu
24 agosto

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Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

Três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e algumas desilusões marcaram uma prestação muito positiva de Portugal nos Campeonatos da Europa de Atletismo. Num Europeu recheado de momentos memoráveis, a seleção nacional voltou a provar que pertence à elite continental Findos os Campeonatos da Europa de Atletismo, Portugal regressa a casa com três medalhas, mas também com a sensação de que poderia perfeitamente ter alcançado um resultado ainda mais expressivo. A medalha de prata de Pedro Pichardo voltou a confirmar a extraordinária consistência de um dos maiores atletas da história do atletismo português. O campeão olímpico voltou a responder presente num grande palco internacional, mantendo-se como uma das maiores referências do triplo salto mundial, a que só um salto inesperado e igualmente monstruoso (18,15m) do italiano Andy Díaz impediu de que Pichardo se sagrasse novamente campeão europeu. Pedro Pichardo Foto: FPA Também Fatoumata Diallo (com um fantástico recorde pessoal de 53.55) confirmou a sua enorme evolução ao conquistar a medalha de bronze nos 400 metros barreiras. Um resultado que recompensa anos de crescimento sustentado e que a coloca definitivamente entre as principais especialistas europeias da disciplina. Fatoumata Diallo Foto: Julian Finney/Getty images Já Patrícia Silva voltou a demonstrar toda a sua inteligência competitiva e capacidade de sofrimento ao conquistar a medalha de bronze nos 1500 metros na recta da meta. Num dos meios-fundos mais exigentes do programa, a portuguesa voltou a responder da melhor forma quando a competição mais o exigia. Patrícia Silva Foto: FPA Mas o Europeu de Birmingham deixou igualmente algumas desilusões. Poucos esperariam ver Isaac Nader, campeão do mundo dos 1500 metros em 2025, terminar a final na última posição. O português nunca conseguiu entrar verdadeiramente na luta pelas medalhas e pareceu perder intensidade na fase decisiva da corrida quando percebeu que o pódio lhe escapava. Também Salomé Afonso, depois de um percurso muito consistente até à final, acabou por quebrar nos derradeiros metros, terminando longe dos lugares cimeiros. Mais ingratos foram ainda os quartos lugares de Gerson Baldé e Agate de Sousa, ambos campeões mundiais de pista coberta em fevereiro. No caso da saltadora portuguesa, fica uma enorme sensação de injustiça. Um dos seus ensaios foi claramente mal medido e a marca oficial de 6,89 metros dificilmente correspondeu ao salto efetuado. Agate (6,96m) terminou a apenas dois centímetros da medalha de bronze e quatro centímetros do ouro (7,00) da italiana Larissa Iapichino, numa situação que inevitavelmente marcou o concurso. Entre os muitos motivos de orgulho esteve também Delvis Santos. O velocista português estabeleceu um novo recorde pessoal de 20,23 segundos, qualificou-se para a final dos 200 metros e alcançou um excelente sexto lugar europeu, confirmando o crescimento que tem vindo a evidenciar nas últimas temporadas. Delvis Santos Foto: FPA Outro dos destaques da participação portuguesa foi Joana Pontes, que alcançou um meritório 10.º lugar na maratona de marcha. A atleta concluiu a prova em 3h41m36s, estabelecendo um novo recorde pessoal e confirmando a evolução que tem vindo a demonstrar numa disciplina cada vez mais competitiva ao mais alto nível. Também as estafetas nacionais deixaram excelentes indicadores. Tanto a equipa feminina dos 4100 metros como a estafeta mista dos 4100 metros garantiram presença nas respetivas finais, confirmando a evolução coletiva da velocidade portuguesa e demonstrando que Portugal começa igualmente a afirmar-se nas provas por equipas. Se Portugal voltou a mostrar a sua força, o panorama europeu ofereceu igualmente momentos absolutamente inesquecíveis. Poucas atletas dominaram tanto uma competição como Nadia Battocletti. A italiana conquistou um extraordinária dobradinha nos 5000 e 10000 metros, assumindo-se como uma das grandes figuras destes Campeonatos da Europa. Foi precisamente a Itália quem acabaria por conquistar o medalheiro geral, graças ao triunfo alcançado na derradeira prova do programa, a estafeta masculina dos 4400 metros, por escassos milésimos de segundo. Também a Noruega regressou ao topo. Karsten Warholm voltou à sua melhor versão para conquistar mais um título europeu de forma muito autoritária nos 400 metros barreiras, enquanto Jakob Ingebrigtsen confirmou o regresso à melhor forma ao dominar os 5000 metros com a autoridade habitual, permanecendo invencível nesta distância a nível europeu. A quatrocentista muito jovem Henriette Jæger de apenas 23 anos, foi essencial para que a Noruega ganhasse a estafeta 4400 mista, e somou o ouro dos 400m individuais com uma recta final estupenda. Perante o seu público, Amy Hunt transformou-se numa das grandes estrelas da competição. A velocista britânica conquistou quatro medalhas de ouro — nos 100 metros, 200 metros, estafeta feminina 4100 metros e estafeta mista 4100 metros — assinando uma das campanhas individuais mais impressionantes de sempre em Campeonatos da Europa. Amy Hunt EPA Mas se houve um momento verdadeiramente cinematográfico, esse pertenceu a Gianmarco Tamberi. O italiano chegava a Birmingham vindo de um período de várias lesões, e tendo ultrapassado apenas 2,23 metros durante toda a temporada, mas voltou a provar porque continua a ser um dos atletas mais carismáticos do atletismo mundial. No último ensaio, superou 2,32 metros e conquistou dramaticamente mais um título europeu, perante o olhar incrédulo do ucraniano Oleh Doroshchuk, que cedeu à pressão e não conseguiu superar essa fasquia. Também Audrey Werro protagonizou uma das histórias mais bonitas da competição. Depois de ter sido justamente repescada para a final dos 800 metros, devido a uma queda provocada por outra atleta nas meias-finais, a suíça respondeu da melhor forma possível ao derrotar a grande favorita Keely Hodgkinson e conquistar um memorável título europeu. Na marcha, María Pérez voltou a confirmar a sua supremacia ao conquistar o ouro com um extraordinário recorde do mundo, enquanto Armand "Mondo" Duplantis fez aquilo que já parece rotina: conquistou mais um título europeu no salto com vara, vencendo com 6,15 metros, sem sequer necessitar de atacar um novo recorde mundial. Maria Pérez 2026 Getty Images No final, Portugal regressa de Birmingham com três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e a confirmação de uma geração extremamente competitiva. Houve desilusões, houve injustiças e houve oportunidades perdidas, mas houve sobretudo qualidade. E quando um país termina um Campeonato da Europa com a sensação de que podia ter conquistado ainda mais medalhas, talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer ao momento atual do atletismo português. Este Europeu confirmou que Portugal pertence, sem qualquer complexo, à primeira linha do atletismo europeu.

Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas
3 agosto

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Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

O FC Porto conquistou a Supertaça. Daqui a alguns anos, ficará apenas registado que venceu mais um troféu. As estatísticas não contam exibições, não registam a qualidade do futebol praticado nem refletem as dúvidas que uma equipa consegue deixar mesmo quando ergue uma taça. Mas quem viu os noventa minutos diante do Torreense dificilmente saiu descansado. Porque o resultado foi positivo. A exibição esteve muito longe de o ser. Antes de olhar para o FC Porto, importa fazer justiça ao Torreense. A equipa de Torres Vedras realizou uma exibição extraordinária. Em muitos momentos, foi difícil perceber que um dos emblemas pertence à Primeira Liga e o outro milita na Liga Portugal 2. Houve coragem, personalidade, organização e uma enorme capacidade para criar dificuldades a um adversário teoricamente muito superior. Aliás, continuo convencido de que, caso tivesse beneficiado de um calendário mais equilibrado antes da segunda mão do play-off frente ao Casa Pia , o Torreense (depois da brilhante conquista da Taça de Portugal) teria hoje lugar entre os principais clubes do futebol português. Não perdeu porque lhe faltou ambição. Não foi eficaz em momentos capitais do jogo. Dany Jean foi um quebra-cabeças durante todo o encontro para a equipa portista, é um jogador interessante, mas tem de melhorar imenso na tomada de decisão. Uma menção honrosa ao lateral-esquerdo Javi Vásquez, cujo talento não pode andar perdido pelas divisões secundárias do nosso futebol. A equipa do Oeste (muitíssimo bem trabalhada por Luís Tralhão) perdeu essencialmente porque teve pela frente um dos melhores guarda-redes do mundo. Diogo Costa voltou a ser decisivo. Mais uma vez. E talvez isso devesse preocupar os portistas. Porque quando o melhor jogador da equipa é, sistematicamente, o guarda-redes, normalmente existe um problema coletivo que continua por resolver. Foto: Victor Sousa/Movephoto Os primeiros 10 minutos do FC Porto foram absolutamente inadmissíveis para uma equipa com as suas ambições. Houve dificuldades na saída de bola, erros posicionais, enorme displicência de alguns dos seus jogadores, e uma intranquilidade defensiva que permitiu ao Torreense acreditar desde o primeiro minuto. O problema é que estes sinais não são novos. Já tinham aparecido no final da época passada. Na altura, muitos preferiram desvalorizá-los porque os resultados iam aparecendo. A história do futebol ensina-nos, contudo, que nem sempre vencer significa que tudo está bem. O melhor exemplo continua a ser a temporada 2012/13. O inesquecível golo de Kelvin, aos 92 minutos frente ao Benfica, deu ao FC Porto um campeonato absolutamente épico. Mas também escondeu problemas que a estrutura optou por ignorar. A ideia de que bastava continuar pelo mesmo caminho revelou-se ilusória e os anos seguintes acabaram por confirmar isso mesmo. Não pretendo estabelecer um paralelismo absoluto. Mas o futebol tem memória. E, por vezes, os resultados mascaram problemas que acabam inevitavelmente por regressar. Será Farioli o homem ideal para uma equipa destes pergaminhos? Um treinador receoso, que tem um modelo de jogo bastante previsível, pouco fiável a longo prazo, e com uma aversão ao jogo ofensivo? Eu considero que não pode ser essa a mentalidade de um treinador de um clube da dimensão do FC Porto, e já o considerava antes de ter sido campeão. É precisamente isso que me preocupa neste FC Porto. Continuo sem perceber qual é a verdadeira ideia ofensiva de Francesco Farioli. A pressão alta funciona em muitos momentos e continua a ser uma arma importante. Quando a frescura física (natural que não a haja neste início de época) não é a melhor, a equipa passa a suster o seu jogo na solidez defensiva, igualmente ausente num jogo contra uma equipa de valia inferior, mas com uma identidade muito vincada no seu jogo, e extremamente personalizada. A circulação é lenta. A criatividade é inexistente (com claro destaque negativo para a exibição muito fraca de Gabri Veiga). Há pouca mobilidade entre linhas. Os movimentos ofensivos repetem-se, apesar de um maior jogo associativo com a presença de André Silva, mas claramente mais talhado para jogar num modelo 4-4-2 dadas as suas características. As substituições parecem obedecer mais a um ficheiro de Excel do que ao próprio jogo. Substituir ao minuto 60 tornou-se quase um automatismo, independentemente daquilo que a partida pede. Mais difícil ainda de compreender foi ver o FC Porto baixar o bloco durante largos períodos frente a uma equipa da segunda divisão, jogando num inconcebível esquema de 5-3-2. Num clube cuja identidade sempre passou por assumir os jogos, pressionar alto e sufocar os adversários, essa postura parece contradizer a própria história portista. E depois há Rodrigo Mora. É impossível ignorar o que está a acontecer. Desde a chegada de Farioli, um dos maiores talentos recentes da formação portista desapareceu praticamente das opções. Um jogador com criatividade, imprevisibilidade e capacidade para desbloquear jogos continua sem espaço numa equipa que revela precisamente enormes dificuldades na construção ofensiva. Foto: Miguel Pereira Será apenas uma questão física? Será uma opção técnica? Ou simplesmente um jogador que não encaixa nas ideias do treinador? O que motiva este ostracismo de Farioli a um dos filhos da casa? Independentemente da resposta, torna-se difícil compreender que um futebolista com aquelas características permaneça praticamente ausente enquanto a equipa revela tanta dificuldade em criar ocasiões de golo. A entrada do sul-coreano Hwang In-beom (um dos reforços para esta temporada) mexeu com o jogo, e poderá ser uma excelente adição para esta equipa portista. Foto: FC Porto Mas é curto. O FC Porto foi campeão devido a uma fulgurante primeira volta, secundado por um fantástico golpe de asa do presidente André Villas-Boas, num cirúrgico mercado de Inverno onde foi recrutar o experientíssimo defesa-central Thiago Silva (com pouca utilização, mas cujo ADN vencedor ajudou muito uma equipa na qual escasseava esse aspecto). Contudo, foram os ingressos do costa-marfinense Seko Fofana e do prodígio polaco Oskar Pietusewski, o motivo principal para que os portistas voltassem a ser campeões nacionais ao fim de 4 anos. Também a arbitragem merece referência. A decisão de não recorrer ao VAR num dos lances mais polémicos da partida (possível infração dentro da área de Hwang In-beom sobre um jogador do Torreense já dentro do tempo de descontos), deixa legítimas dúvidas e dificilmente contribui para a credibilização do próprio sistema, tão discutido durante esta última semana, devido às declarações infames provindas de uns áudios de Pedro Proença (presidente da Federação Portuguesa de Futebol e ex-árbitro internacional) sobre o colectivo arbitral.O máximo dirigente do futebol nacional já estava sob um grande escrutínio devido à instabilidade no seio da nossa federação, mas afirmações estapafúrdias como: "Opiniões do cidadão Pedro Proença não se confundem com as do presidente", proferidas no fim do jogo da Supertaça, não ajudam minimamente a baixar este ruído ensurdecedor que está instalado no futebol português. Por fim, há outro tema que paira inevitavelmente sobre o Dragão: o futuro de Diogo Costa. A confirmar-se a sua saída, o FC Porto perderá muito mais do que um guarda-redes. Perderá o capitão, uma das vozes do balneário e, um dos melhores guarda-redes do futebol mundial. É legítimo que queira dar o salto para um campeonato mais competitivo, mas a SAD terá de encontrar rapidamente uma solução capaz de oferecer garantias, porque substituir um jogador desta dimensão está longe de ser uma tarefa simples. A mesma preocupação existe relativamente a Victor Froholdt. O médio dinamarquês tornou-se uma peça absolutamente nuclear para este modelo de jogo de Farioli, sobretudo pela intensidade na pressão e pela capacidade de ligar setores. Perder simultaneamente Diogo Costa e Froholdt seria um golpe enorme para uma equipa que já revela dificuldades em consolidar processos. A época ainda agora começou. Há tempo para crescer. Há tempo para melhorar. Mas também há sinais que não podem continuar a ser ignorados. Os tímidos assobios que já se ouviram na Supertaça são apenas um aviso. A paciência dos adeptos dificilmente será a mesma da época passada. Porque ganhar continua a ser importante. Mas, num clube da dimensão do FC Porto, ganhar também implica convencer. E, neste momento, o FC Porto está muito longe de o conseguir.

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