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O capitão abandonou o barco. Portugal continuou a navegar, e descobriu uma equipa
Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de todos os tempos. Isso não está em discussão. É o maior marcador da história da Seleção, o jogador com mais internacionalizações e a figura que durante duas décadas carregou consigo boa parte dos sonhos de um país. Precisamente por tudo isso, aquilo que aconteceu na Dinamarca é ainda mais difícil de compreender. O capitão abandonou o barco. Cristiano Ronaldo Não depois de Portugal ser eliminado. Não por lesão. Não no final de uma competição. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional na véspera de um jogo oficial frente à Dinamarca, depois de ter ficado no banco diante da Noruega e de Jorge Jesus ter deixado claro que Gonçalo Ramos seria o titular no encontro seguinte. A Federação confirmou a saída e o próprio jogador anunciou que, “a seu tempo”, explicaria aos portugueses as razões da decisão. Pode existir muito contexto ainda por conhecer. Pode haver conversas privadas que nunca chegaram ao domínio público. E Cristiano terá naturalmente direito à sua versão. Mas existe um facto indesmentível que nenhuma explicação futura poderá apagar: quando os seus companheiros se preparavam para representar Portugal, o capitão decidiu chamar o seu avião privado, e ir embora. E isso é inadmissível. O nosso melhor jogador de todos os tempos, mas que teve um comportamento de menino mimado, e que agora tem o beneplácito incompreensível de Jorge Jesus e de Pedro Proença para que possa regressar à Seleção quando assim o entender, sendo que estes protagonistas apenas disseram que foi um “mal-entendido” e que são problemas que se resolvem rápido. Parece uma piada de mau gosto ou algo que nos remete aos tempos da escola preparatória. Jorge Jesus abriu explicitamente a porta: se Cristiano quiser regressar, poderá fazê-lo. Pedro Proença também classificou a situação como um mal-entendido e defendeu serenidade na resolução do caso. Jorge Jesus É aqui que a gestão do episódio se torna difícil de compreender. Porque representar Portugal não pode funcionar como uma porta giratória cuja utilização depende da vontade de um jogador. Nem sequer quando esse jogador se chama Cristiano Ronaldo. Sobretudo quando falamos do capitão. A braçadeira não é apenas uma homenagem ao passado. Também representa responsabilidade no presente. E um capitão é precisamente aquele que não abandona o barco quando deixa de ocupar o lugar que gostaria de ocupar nele. Nas horas seguintes surgiu uma narrativa diferente através de pessoas próximas de Ronaldo. Edu Aguirre, jornalista espanhol e amigo do internacional português, afirmou que Cristiano se sentiu “traído” por Jorge Jesus. Segundo essa versão, teria existido uma reunião entre jogador, selecionador e presidente da FPF na qual Jesus reconhecera um erro na gestão do episódio da Noruega e teria prometido um pedido de desculpas público. Esse pedido nunca aconteceu. Mais tarde, o próprio Jorge Jesus negou que tivesse pedido desculpa ou prometido fazê-lo publicamente, contrariando diretamente a narrativa divulgada pelo círculo próximo do jogador. Importa estabelecer essa diferença: não sabemos o que foi dito naquela reunião privada. Sabemos aquilo que Edu Aguirre afirmou ter acontecido e sabemos que Jesus posteriormente o negou. Mas a ideia de que o selecionador deveria apresentar publicamente desculpas ao jogador por ter tomado uma decisão técnica, representaria, a confirmar-se, uma infame inversão de papéis. Jorge Jesus pode ter gerido mal Cristiano Ronaldo. Pode ter errado ao colocá-lo durante largos minutos a aquecer sem depois o utilizar, apesar de que a sua decisão foi completamente legitimada pelo facto de Portugal estar a ganhar por apenas um golo de diferença diante da Noruega, uma seleção muito forte e que tem jogadores de muita qualidade. Jesus pode ter comunicado melhor ou pior. Tudo isso é discutível. O princípio não é. O selecionador escolhe quem joga. O jogador aceita. Jorge Jesus Se deixarmos de conseguir estabelecer algo tão elementar numa Seleção Nacional, então o problema deixou de ser Ronaldo, Jesus ou qualquer outro nome. Passou a ser institucional. Depois veio outro episódio desnecessário. Cristiano Ronaldo colocou um “gosto” numa publicação que reproduzia declarações de Felipe Melo em sua defesa, numa intervenção que estabelecia uma comparação entre a forma como Portugal tratava Cristiano e a forma como a Argentina tratava Lionel Messi e que atingia também os próprios jogadores portugueses, defendendo que nenhum deles estava sequer próximo do nível do capitão. Um simples “gosto” numa rede social não deve ser transformado numa declaração oficial. Mas também não existe necessidade de fingir que não significa absolutamente nada. Sobretudo quando acontece no meio de uma crise desta dimensão e quando os homens indiretamente diminuídos naquela publicação são os mesmos companheiros que Ronaldo acabara de deixar para trás na Dinamarca. E foram precisamente esses jogadores que responderam da única forma que verdadeiramente interessava, fazendo o que melhor sabem: jogando.Enquanto se discutia Ronaldo, nasceu uma equipa. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2, e esse resultado deve ter azedado muitas das refeições dos profetas da desgraça e daqueles portugueses que são apoiantes do Cristiano Ronaldo FC, e não da seleção nacional, a equipa de todos nós. Portugal Depois venceu novamente a Noruega, desta vez no Dragão, por 2-1, garantindo antecipadamente o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Jorge Jesus termina os primeiros quatro encontros como selecionador com quatro vitórias em quatro jogos. E talvez esta seja a parte mais importante de toda esta história. Portugal não colapsou sem Cristiano Ronaldo. Portugal jogou como equipa. Vitinha assumiu o controlo dos ritmos. Bruno Fernandes encontrou liberdade para acelerar e procurar zonas de criação. João Félix reapareceu como uma peça capaz de ligar setores e encontrar espaços interiores. E Gonçalo Ramos recebeu finalmente aquilo que há demasiado tempo merecia na Seleção: minutos. Gonçalo Ramos Não foram minutos residuais. Não entrou quando faltavam apenas dez minutos. Não esperou eternamente atrás de uma hierarquia construída sobre aquilo que aconteceu no passado. Teve minutos para ser o ponta de lança de Portugal. E respondeu. Só alguém que perdeu toda e qualquer noção de futebol ou impregnado de um fanatismo doentio, poderá admitir que neste momento, Gonçalo Ramos não é o melhor avançado português. Gonçalo oferece à equipa algo que vai muito além do golo. Pressiona centrais, condiciona a primeira fase de construção adversária, ataca a profundidade, participa no jogo associativo da equipa, fixa defesas e cria espaço para as entradas dos médios e dos jogadores que partem dos corredores. Neste momento, é o melhor avançado português da atualidade e Jorge Jesus teve a coragem que Roberto Martínez demasiadas vezes não demonstrou: escolher em função daquilo que considera melhor para a equipa e não do peso de um nome, ou melhor dizendo, de uma marca global. Quatro jogos ainda são pouco para conclusões definitivas, mas já permitem encontrar uma identidade. Portugal joga mais depressa. Há menos circulação pela circulação. Vitinha continua a oferecer pausa e critério, mas existem mais soluções à frente da bola. Bruno Fernandes procura constantemente o passe vertical. Félix aproxima-se de Ramos e aparece entre linhas. Os laterais projetam-se e dão largura e profundidade, enquanto os jogadores da frente trocam frequentemente de posição. Quando perde a bola, Portugal procura recuperá-la imediatamente. É um futebol de risco. E esse risco também mostrou aquilo que precisa de ser corrigido. A Seleção continua demasiado vulnerável quando a primeira pressão é ultrapassada. A projeção simultânea de vários jogadores deixa os centrais expostos e aparecem espaços entre a linha média e a defensiva que adversários de maior qualidade poderão explorar com muito mais crueldade. Jorge Jesus não precisa de retirar a ambição à equipa. Precisa de lhe acrescentar controlo. Porque esta Seleção tem talento suficiente para assumir jogos sem precisar de viver permanentemente no limite. Nenhum nome pode ser maior do que Portugal, seja a personalidade mais seguida e idolatrada do mundo, ou não. Seria absurdo apagar Cristiano Ronaldo da história da Seleção por causa de uma semana. Não se apagam mais de duas décadas. Não se apagam os golos. Não se apaga o Europeu de 2016. Não se apaga tudo aquilo que fez pela camisola portuguesa. Mas também seria igualmente absurdo utilizar essa história para desculpar tudo aquilo que fizer daqui para a frente. Gratidão não significa submissão. Cristiano Ronaldo merece respeito pelo que deu a Portugal. Portugal não lhe deve, em troca, o direito vitalício de decidir quando joga, quando fica, quando parte ou quando regressa. E talvez a grande ironia destes últimos dias seja precisamente essa. No momento em que o capitão abandonou o barco, esperava-se uma tempestade. Em vez disso, Portugal continuou a navegar. Cristiano Ronaldo Ganhou na Dinamarca. Ganhou à Noruega. Apurou-se. Gonçalo Ramos marcou. João Félix brilhou. Vitinha ditou os tempos de jogo. Bruno Fernandes criou. E Jorge Jesus começou a construir uma equipa em que o coletivo parece finalmente voltar a estar acima das individualidades. Cristiano Ronaldo poderá regressar. Provavelmente regressará. E, se o fizer, continuará a ser uma lenda do futebol português. Mas deveria regressar com uma certeza muito simples: a braçadeira pode pertencer ao capitão. O barco pertence a Portugal.
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Lúcia Alves embalou e as águias voaram para a conquista da Supertaça
O primeiro troféu da época 2026/27 veste de vermelho. O Benfica venceu o FC Porto por 5-1, no Estádio Municipal do Fontelo, e conquistou assim a 4ª Supertaça Feminina da sua história numa tarde em que a resistência portista durou essencialmente até ao intervalo. Lúcia Alves foi a grande figura de uma equipa encarnada que acelerou definitivamente na segunda parte e transformou um clássico equilibrado numa goleada. Lúcia Alves - Foto: SL Benfica Sob um sol abrasador de mais de 30 graus em Viseu, Ivan Baptista apresentou o Benfica esperado, enquanto Daniel Chaves lançou Morgan Stone, Daniela Santos e Fatumata Sissé no onze portista. Sem as lesionadas Lara Perruca e Alex Kerr, o FC Porto procurava discutir o primeiro troféu da época antes da estreia na elite do futebol feminino português, mas encontrou desde cedo dificuldades perante a pressão alta das encarnadas. O Benfica assumiu a iniciativa, mas foi o FC Porto quem festejou primeiro. Aos sete minutos, Maria Negrão colocou um livre na área e Morgan Stone desviou para a baliza, num golo que acabaria anulado por fora de jogo milimétrico após uma longa análise do VAR. Pouco depois, a resposta encarnada foi cruel. Lúcia Alves encontrou Frøya Dorsin em profundidade e a norueguesa aproveitou uma abordagem infeliz de Daniela Santos (exibição para esquecer da antiga jogadora do Benfica) para inaugurar o marcador para as encarnadas aos 13 minutos. As águias continuaram por cima, com Caroline Møller particularmente influente no ataque, enquanto o FC Porto apresentava dificuldades em ligar o meio-campo às três jogadoras mais adiantadas. As bolas paradas, porém, davam outra vida às portistas. Foi precisamente daí que nasceu o empate: depois de uma mão de Møller na área, Fátima Pinto assumiu a grande penalidade e fez o 1-1 aos 33 minutos. Fátima Pinto - Foto: FC Porto O golo coincidiu com o melhor período azul e branco. O FC Porto subiu a pressão e conseguiu finalmente perturbar a construção encarnada, mas quando parecia ter equilibrado definitivamente a final, o Benfica voltou a castigar. Aos 42 minutos, Diana Gomes lançou Nycole Raysla nas costas da defesa e a brasileira percebeu o adiantamento de Cora Brendle, assinando com qualidade o 2-1. Ainda antes do intervalo, Maria Negrão esteve muito perto de empatar diretamente de canto, obrigando Lena Pauels a uma grande defesa. As portistas chegavam vivas ao descanso. Não sabiam ainda que o pior estava para vir. O Benfica regressou dos balneários disposto a terminar rapidamente com as dúvidas. A pressão voltou a sufocar a saída portista e, aos 55 minutos, uma carga de Daniela Santos sobre Catarina Amado valeu grande penalidade. Marit Lund não desperdiçou e colocou o resultado em 3-1. A partir daí, houve praticamente apenas Benfica. Carolina Tristão (jovem de apenas 17 anos, mas que joga como se fosse uma veterana) tomou conta do meio-campo, recuperando, aparecendo em diferentes zonas e dando continuidade ao domínio das águias. À sua frente, Møller continuava a oferecer qualidade entre linhas e Lúcia Alves fazia do corredor direito a sua autoestrada particular. A portuguesa acumulou metros, desequilíbrios e cruzamentos perante uma defesa portista incapaz de travar a sua profundidade. Dorsin ainda obrigou Cora Brendle a uma excelente defesa antes de, aos 66 minutos, surgir um dos melhores lances da tarde. Lúcia Alves voltou a romper pela direita e ofereceu a Caroline Møller o 4-1. Era o retrato perfeito da segunda parte: uma equipa a encontrar espaços por todo o lado e outra já sem capacidade para acompanhar o ritmo. As substituições não diminuíram a intensidade encarnada. Andreia Norton (regressando aos relvados depois de uma ausência de mais de 470 dias) obrigou Brendle a nova intervenção e, aos 82 minutos, duas jogadoras saídas do banco construíram o quinto: Chandra Davidson assistiu e Anna Csiki colocou a “manita” no marcador. Já nos descontos, Lúcia Alves procurou o golo que faltava à sua exibição, com um remate em arco que passou perto da baliza. Não marcou, mas também não precisava. A internacional portuguesa já tinha deixado a assinatura espalhada por praticamente todo o corredor direito do Fontelo. O FC Porto conseguiu competir durante parte do primeiro tempo e encontrou nas bolas paradas a melhor forma de ameaçar o adversário, mas a segunda parte revelou a distância que ainda existe para uma equipa que está a dar os primeiros passos entre a elite. O Benfica, mesmo depois das mudanças sofridas no verão, respondeu com uma demonstração de força. 5 golos, uma Supertaça e um primeiro aviso às suas rivais: o Benfica começou 2026/27 como tantas vezes terminou nos últimos anos: a levantar um troféu. Conquista Supertaça - Foto: SL Benfica
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No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino
Sai de cena com 207 jogos, 125 golos e todos os grandes títulos conquistados. Mas o maior triunfo de Lionel Messi talvez tenha sido outro: transformar um país que questionou a sua identidade num país que acabou rendido aos seus pés. Durante anos, Lionel Messi teve de responder a uma acusação particularmente cruel: não ser suficientemente argentino. Diziam que era espanhol. Que não cantava o hino. Que não sentia a camisola como Maradona. Que aquilo que fazia pelo Barcelona nunca conseguia fazer pela Argentina. Saiu de Rosario aos 13 anos e, para alguns, essa distância geográfica transformou-se numa espécie de pecado original que nenhuma estelar exibição parecia conseguir apagar. A ironia é extraordinária: Messi podia realmente ter representado a Espanha. Quando começava a destacar-se nas camadas jovens do Barcelona, a possibilidade foi-lhe colocada. O próprio confirmou recentemente que existiram aproximações espanholas e que, pelas circunstâncias da sua formação, poderia ter acontecido. Mas havia uma coisa que nunca esteve verdadeiramente em discussão para Leo e sempre o transmitiu ao seu recém-falecido pai: «Papá, quero jogar pela Argentina.» E escolheu a Argentina antes de ela o escolher verdadeiramente. Messi passou os últimos anos da sua juventude em Barcelona, mas há coisas que a distância nunca conseguiu levar. O miúdo argentino que chegou à Catalunha continuou a falar como um rosarino. O castelhano nunca perdeu aquela musicalidade tão peculiar da Argentina, nem os seus “vos”, os “tenés”, os “querés”. Continuou ligado a Rosario, ao mate, aos churrascos, à família e aos amigos de infância. Uma reportagem da TIME já sublinhava, em 2012, algo particularmente simbólico: depois de tantos anos em Espanha, o sotaque de Messi praticamente não tinha mudado. Foto: CHRISTOPHER MORRIS . VII FOR TIME Mesmo assim, teve de passar anos a provar de onde era. Talvez porque os argentinos nunca o tinham visto crescer diante deles. Maradona tinha sido Argentinos Juniors, Boca Juniors, rua, bairro, Buenos Aires. Messi cresceu futebolisticamente do outro lado do Atlântico. Quando a Argentina começou verdadeiramente a conhecê-lo, o Barcelona já começava a perceber que tinha encontrado algo extraordinário. E isso criou uma distância que Messi demoraria anos a vencer. Quanto melhor era em Barcelona, maior parecia tornar-se a dívida imaginária com a seleção. Se fazia três golos em Espanha, perguntava-se por que não fazia o mesmo pela Argentina. Se sorria no Camp Nou e aparecia sério com a Albiceleste, dizia-se que não sentia o mesmo. Se não cantava o hino, questionava-se o patriotismo. E havia sempre a comparação impossível com Diego Armando Maradona. Messi não tinha apenas de ser Messi. Para uma parte do país, tinha também de ser Diego. AMAR ABDALLAH DALSH / REUTERS A Argentina chegou à final do Mundial de 2014 e perdeu em detalhes para a Alemanha. Messi ficou a centímetros daquilo que lhe exigiam. Depois perdeu a Copa América de 2015. E voltou a perdê-la em 2016, contra o mesmo adversário, e ambas após desempate por grandes penalidades. Nessa noite, diante do Chile, falhou uma grande penalidade e desabou. As lágrimas de Messi talvez tenham sido a resposta mais evidente a todos aqueles que durante anos disseram que aquela camisola não lhe doía. Doía-lhe tanto que decidiu deixá-la. Aos 29 anos anunciou a saída da seleção. Estava esgotado de perder, mas talvez também de ser permanentemente julgado por um país ao qual nunca conseguira demonstrar suficientemente que pertencia. Regressou pouco depois. E essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes de toda a sua carreira. A segunda metade da história seria completamente diferente. A própria dimensão da carreira internacional de Messi depois dos 30 anos é extraordinária: 95 internacionalizações, 70 golos e uma Argentina que passou das derrotas sucessivas para uma era de domínio sob o comando de Lionel Scaloni (que havia sido companheiro de Messi na selecção enquanto jogador), conquistando duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial. A Copa América de 2021 mudou tudo. Em 2021, Messi conquistou finalmente um grande título pela seleção principal, num Maracanã despido (devido à pandemia), e diante do arquirrival Brasil. Uma das imagens mais impactantes da sua carreira foi a dele a afastar os seus colegas que estavam a querer "picar" Neymar devido à rivalidade histórica que há entre argentinos e brasileiros, e fundir-se num sentido abraço com um dos seus melhores amigos no futebol e seu ex-companheiro no Barcelona. Também por isso, foi severamente criticado na Argentina. Como se o futebol fosse uma guerra, uma ideia completamente estapafúrdia.Seguiu-se a Finalíssima contra a campeã europeia Itália. Mas faltava a imagem que parecia perseguir toda a sua carreira: o troféu dourado de campeão do mundo. No Qatar, em 2022, Messi fez aquilo que durante anos lhe disseram que precisava de fazer para poder sentar-se definitivamente à mesa dos imortais do futebol. Marcou sete golos, foi eleito o melhor jogador do torneio e levantou o Mundial depois de uma final irrepetível e icónica diante da França. Campeonato do mundo - Foto: Reuters/Paul Childs E Peter Drury encontrou as palavras certas para um momento que parecia impossível de traduzir: “Lionel Messi conquistou o seu último cume. Lionel Messi apertou a mão ao paraíso. O menino de Rosario, Santa Fe, acaba de chegar ao céu e chegar a um patamar só dele: o de melhor de todos os tempos.” Talvez o mais bonito seja que Messi já não precisava daquele Mundial para provar que era argentino. Mas a Argentina talvez precisasse daquele Mundial para perceber definitivamente que Messi sempre tinha sido seu. Depois do Qatar desapareceram muitas das acusações. Já ninguém queria saber se cantava o hino (curiosamente depois de conquistar a taça mais desejada, Messi soltou-se e começou a ser dos mais sonoros ao entoá-lo). Barcelona deixou de ser utilizada contra ele. A comparação com Maradona deixou de funcionar como arma. Messi não substituiu Diego. A Argentina simplesmente abriu espaço para os dois. Agora os números ficam para a história. 207 jogos. 125 golos. Nenhum argentino vestiu mais vezes aquela camisola. Nenhum marcou mais golos por ela. Javier Mascherano, segundo em internacionalizações, ficou pelos 147 jogos. Gabriel Batistuta, durante tanto tempo referência goleadora do país, terminou com 56 golos. Messi despede-se também como recordista sul-americano de jogos e golos por uma seleção. Conquistou um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Campeonato do Mundo. Disputou seis Mundiais e três finais da maior competição de seleções. Mas talvez haja um número ainda mais bonito. 21 anos. Duas décadas a representar um país que primeiro o questionou, depois o exigiu, por vezes o maltratou e, finalmente, o passou a idolatrar. Lionel Messi despede-se aos 39 anos. E há uma espécie de justiça poética na forma como tudo termina. O menino que podia ter escolhido Espanha, escolheu a Argentina. O homem acusado de não parecer argentino nunca perdeu a maneira argentina de falar. O homem acusado de não sentir a camisola, chorou compulsivamente por ela. Deu tudo de si em todos os momentos, tal como ele mencionou na sua carta emocionante de despedida à selecção na rede social Instagram: “«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção.Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».” O homem que disseram não conseguir ganhar pela Argentina, ganhou tudo. Caiu várias vezes, levantou-se outras tantas. Uma história digna do melhor dos documentários ou filmes autobiográficos de Hollywood. E aquele a quem durante tantos anos perguntaram se conseguiria ser como Maradona acabou por não precisar de ser ninguém além de Lionel Andrés Messi. No Qatar, Peter Drury disse que o menino de Rosario tinha chegado ao céu. Quatro anos depois, sabemos que não voltou de lá. A Argentina demorou a aceitá-lo como seu. Messi passou uma vida inteira a provar que nunca tinha sido de outro lugar. https://www.instagram.com/reel/DctYV2qt6S5/?igsi=ZjQxY3JwYW56YnN6
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