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Há derrotas que surpreendem. E há derrotas que apenas confirmam aquilo que há muito parecia inevitável. A eliminação de Portugal nos oitavos de final do Mundial de 2026 pertence claramente à segunda categoria. Não foi um acidente de percurso. Não foi uma noite infeliz diante de uma excelente seleção espanhola, mas que não está pletórica como esteve no Euro 2024. Foi apenas o culminar lógico de um ciclo que, apesar da enorme qualidade individual dos seus jogadores, nunca conseguiu transformar-se numa verdadeira equipa. O mais simbólico é que escrevo este artigo precisamente no ano em que se assinalam dez anos da conquista do Euro 2016. Aquela noite de Paris continua a ser o maior momento da história do futebol português. Uma seleção que talvez não fosse a mais talentosa da Europa encontrou na união, no espírito competitivo e numa identidade muito própria as armas para conquistar um título que parecia impossível. Foto: UEFA https://www.instagram.com/reel/DL70lMLozwE/?igsh=MWYxd2gyM2U3OTRiMQ== Dez anos depois, Portugal apresenta um dos plantéis mais talentosos da sua história, mas não sou daqueles que digo que esta é a geração de ouro da nossa selecção. Primeiro, porque não tenho memória curta e recordo-me muito bem daquela seleção fantástica do Euro 2000, que só sucumbiu nas meias-finais perto do fim contra a França campeã do mundo de Zidane e companhia, quando ainda havia a regra do Golo de Ouro.Depois, porque linha a linha, a nossa selecção do Euro 2004 não fica assim tão atrás desta selecção. Tínhamos um dos melhores defesas-centrais de todos os tempos em Ricardo Carvalho, tínhamos a espinha dorsal de um FC Porto campeão europeu, com aquele extraordinário e muito complementar trio de meio-campo Costinha, Maniche e Deco, e na frente tínhamos o ainda extremo Cristiano Ronaldo (naquela que para mim foi a sua melhor versão em fases finais de competições de selecções, e isso foi há 22 anos, o que não deixa de ser sintomático), um craque como Luís Figo e Pauleta, um dos melhores marcadores da história do nosso país. No banco, tínhamos ainda Rui Costa, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Hélder Postiga, entre outros... E essa geração pode não ter ganho nenhum título (tal como o nosso capitão egocêntrico fez questão de referir uma vez mais num timing bastante inoportuno), mas chegou a uma final de um Europeu e a umas meias-finais de um Mundial, instância da prova a que não chegamos há 20 (!) anos. E devemos reflectir sobre isto.Apesar do inegável talento, Portugal foi uma das seleções menos reconhecíveis e que menos transmitiu neste Mundial. Por exemplo, em contraste com a seleção das quinas, emocionou-me ver como Cabo Verde quase vergou a atual campeã mundial, Argentina, e para além da sua qualidade de jogo, o seu percurso jamais será esquecido pela solidariedade, atitude e amor pelas suas cores que todos os seus jogadores demonstraram nesta competição.À nossa selecção nacional, talento nunca faltou. Faltou sempre algo muito mais difícil de construir: uma identidade. Portugal chegou aos oitavos de final. Mas fê-lo sem convencer praticamente ninguém. Empatou frente à República Democrática do Congo numa exibição que já havia apresentado sinais bem alarmantes, mas que quase todos desvalorizaram (eu não me incluo nesse rol). Cumpriu a obrigação diante de um Uzbequistão (que teve o condão de fazer com que as pessoas embandeirassem em arco e já voltassem com o sonho utópico de ver Portugal campeão do mundo) que terminou entre as seleções mais frágeis da competição, sofrendo 11 golos em apenas três encontros. E voltou a deixar uma imagem profundamente preocupante diante da Colômbia. O empate acabou por saber a pouco para os cafeteros. Na verdade, soube até a injustiça para os colombianos. Foram infinitamente superiores durante largos períodos e mereciam claramente ter vencido, algo que só não aconteceu porque com a nova regra absurda do fora-de-jogo (que desvirtua o futebol), há lances que podem ser anulados pelo adiantamento da ponta de uma bota. Se Portugal chegou aos oitavos-de-final depois de derrotar a Croácia num encontro de contornos dramáticos, deve-o sobretudo a um momento de inspiração de Gonçalo Ramos (utilizado durante menos de sessenta minutos em todo o torneio, numa gestão difícil de compreender) e, acima de tudo, às extraordinárias exibições de Diogo Costa. E isso diz praticamente tudo. Quando o melhor jogador de uma seleção candidata ao título é o guarda-redes, dificilmente estaremos perante um Mundial conseguido. Diogo Costa foi gigantesco. Provavelmente o melhor guarda-redes da competição. Foto: FPF Mas nenhum guarda-redes consegue esconder indefinidamente uma equipa sem ideias. Roberto Martínez falhou. Falhou na leitura dos jogos. Falhou nas substituições. Falhou na gestão do plantel. Falhou, sobretudo, na construção de uma identidade coletiva. Não me recordo de um jogo em que Portugal tenha jogado de acordo com o potencial destes jogadores e de uma geração fantástica sob o comando do seleccionador espanhol. A história repetiu-se. Na Bélgica, conduziu uma geração absolutamente extraordinária (essa sim, a geração de ouro do futebol belga), e nunca conseguiu transformá-la numa campeã. Em Portugal, voltou a acontecer exatamente o mesmo. As fases de qualificação foram excelentes. Mas isso pouco significa quando chegam os Europeus e os Mundiais. Porque é aí que se avaliam os grandes selecionadores. É verdade que conquistou a Liga das Nações (que digam o que disserem, não tem e nunca terá o peso, prestígio e importância de um Europeu ou de um Mundial). Mas mesmo nessa caminhada já existiam sinais preocupantes. Na final frente à Espanha, por exemplo, voltou a cometer um erro difícil de explicar ao adaptar João Neves a lateral-direito, permitindo que Nico Williams criasse inúmeros problemas durante toda a primeira parte. Felizmente para Portugal, corrigiu a tempo porque a Espanha não conseguiu aumentar a vantagem no marcador, e Portugal conseguiu reentrar na discussão do resultado. E sobretudo, conseguiu esse título porque apareceu um Nuno Mendes absolutamente gigantesco. O lateral-esquerdo português anulou praticamente Lamine Yamal (então o jogador em melhor forma do futebol mundial), e mudou completamente a história desse encontro. Foto: Mosaiquefm Depois, como tantas vezes aconteceu durante este ciclo, Diogo Costa voltou a aparecer nas grandes penalidades. Mas um jogo nunca poderia esconder problemas estruturais que voltaram agora a surgir da forma mais evidente possível. Chega inevitavelmente o momento mais delicado. Falar de Cristiano Ronaldo exige respeito. Exige memória. Exige gratidão. Estamos a falar do maior futebolista português de todos os tempos. De um jogador que redefiniu aquilo que parecia possível alcançar. Seis Campeonatos do Mundo disputados. Cinco Bolas de Ouro. Centenas de golos. Uma longevidade absolutamente irrepetível e alguém que aumentou a nossa dimensão competitiva. Nada disto será alguma vez apagado. Mas também não pode impedir uma análise honesta e objectiva. Cristiano continua a ser uma das peças desta seleção. Já não é a engrenagem. Nem pode continuar a ser tratado como tal. A sua utilização foi claramente excessiva para um jogador de 41 anos, que perdeu muitas das faculdades que o tornaram num dos melhores jogadores de sempre. Neste Mundial, condicionou demasiados momentos do jogo português e retirou mobilidade ofensiva a uma equipa que precisava precisamente do contrário. Também na liderança continua a existir uma diferença importante entre estatuto e influência. Cristiano é o capitão da Seleção Nacional. Mas neste Mundial voltou a ficar a clara sensação de que a liderança emocional da equipa nunca foi verdadeiramente assumida dentro de campo nos momentos de maior adversidade. Gratidão eterna nunca deverá significar subserviência. Nenhum jogador (independentemente da dimensão da sua carreira e estatuto) pode colocar-se acima dos interesses da Seleção Nacional. Ainda assim, seria profundamente injusto transformá-lo no principal culpado. Não é. É apenas um dos responsáveis. Como todos os outros. Como Roberto Martínez. Como a Federação. Como vários jogadores que ficaram muito longe do rendimento esperado (Bruno Fernandes e um esgotado Vitinha à cabeça dessas desilusões). Também aqui Martínez deixa muitas perguntas sem resposta. Como explicar que Gonçalo Ramos tenha jogado menos de uma hora em todo o Mundial? Porque não existiu espaço para Gonçalo Guedes? Porque Francisco Trincão voltou a ser utilizado de forma residual? Porque Gonçalo Inácio desapareceu das opções? Ao mesmo tempo, houve notas positivas. Renato Veiga confirmou enorme personalidade. Nuno Mendes voltou a demonstrar porque é um dos melhores laterais do planeta, até o desgaste físico já não lhe permitir manter o mesmo nível. João Félix deixou bons apontamentos. Rafael Leão voltou a desequilibrar sempre que encontrou espaço. Francisco Conceição trouxe irreverência. Mas foi pouco. Muito pouco para uma geração desta qualidade. Também Vitinha e Bruno Fernandes realizaram um Mundial claramente abaixo das expectativas. Dois jogadores chamados a assumir o controlo da equipa desapareceram demasiadas vezes. Portugal precisava deles. Nunca os encontrou verdadeiramente. Houve, no entanto, algo que me incomodou particularmente. Durante semanas ouvimos praticamente todos os elementos da comitiva repetir a mesma frase "Vamos ganhar este Mundial pelo Diogo Jota." É uma homenagem bonita. É compreensível. É humana. https://www.instagram.com/reel/DLpOCrrqn0k/?igsh=Y3JoaW1tcjUwcGNo Mas as competições não se ganham com discursos. Ganham-se com atitude. Com coragem. Com intensidade. Com espírito competitivo. O malogrado Diogo Jota representava exatamente isso. Corria a todas as bolas. Pressionava. Nunca desistia de um lance. Era um guerreiro. Infelizmente, poucas vezes vimos esse espírito refletido no comportamento coletivo da Seleção. As palavras emocionam. Mas só as ações convencem. O nome mais forte e oficial no momento em que disseco esta paupérrima participação de Portugal para suceder a Roberto Martínez, é o de Jorge Jesus. Currículo não lhe falta. As suas equipas sempre apresentaram uma identidade muito própria e um grande sentimento de pertença. Praticaram, regra geral, um futebol ofensivo, intenso e facilmente reconhecível. Precisamente aquilo que Portugal nunca conseguiu construir neste ciclo. Mas a Seleção coloca desafios completamente diferentes. Jorge Jesus nunca treinou uma seleção. Nunca trabalhou com um grupo composto por alguns dos melhores jogadores do mundo nas respetivas posições. E sobretudo nunca teve de construir um modelo de jogo com apenas alguns dias de treino por ano. Ora, sempre foi precisamente aí que residiu uma das maiores virtudes do treinador português: o trabalho diário, repetitivo e extremamente detalhado. Haverá depois um dossiê inevitável: Cristiano Ronaldo. Foi precisamente Jorge Jesus o último treinador de clube do capitão português. Será interessante perceber como fará essa gestão. Porque essa decisão poderá definir não apenas o futuro de Cristiano na Seleção, mas também o início de um novo ciclo do futebol português. Também Pedro Proença saiu fragilizado deste Mundial. As suas declarações após a eliminação "Esta não era a nossa escolha, mas assumimo-la.", revelam um preocupante desnorte institucional. Se Roberto Martínez nunca foi verdadeiramente a escolha da atual direção, então por que motivo permaneceu independentemente de ter ganho a Liga das Nações? Uma seleção precisa de estabilidade. De liderança. De coerência. Nada disso parece existir atualmente. E os jogadores sentem-no. Muito mais do que se imagina. Portugal continuará a produzir grandes futebolistas. Disso ninguém duvida. O verdadeiro desafio será finalmente construir uma equipa à altura desse talento. Porque gerações passam. Treinadores mudam. Lendas retiram-se. Mas os Mundiais não esperam por ninguém. Este não foi apenas o fim de uma campanha dececionante. Foi o fim de um ciclo que, durante demasiado tempo, viveu mais da esperança do que das evidências. E, olhando para trás, talvez nunca tenha existido título mais apropriado. Foi, simplesmente, a crónica de uma morte anunciada.
Quando a derrota de Portugal não parece incomodar treinadores espanhóis no banco… Portugal foi eliminado pela Espanha nos oitavos de final do Campeonato do Mundo. Milhões de portugueses ficaram em lágrimas e tristes ao ver Cristiano Ronaldo a chorar no relvado, no seu último Mundial. Contudo, assim que soou o apito final, junto ao relvado e no banco de suplentes, saltou-me à vista a imagem de alguém a rir, a abraçar e a cumprimentar efusivamente o staff espanhol, como se tivesse acabado de sair de um jantar de amigos ou estivesse feliz pela passagem espanhola: Iñaki Bergara. Iñaki Bergara, treinador de guarda-redes de Roberto Martínez desde os tempos do Swansea. Basco, veterano, com décadas de carreira ao lado do selecionador. Um homem que, naquelas imagens, revelou uma falta de sensibilidade total para o momento. Porque há coisas que não se fazem. E sorrir efusivamente minutos depois de eliminar do Mundial o país que te pagou o salário durante quatro anos é uma delas. O eterno "está tudo bem" Este sorriso e esta felicidade não são um caso isolado. É apenas o episódio mais recente de uma novela que já vimos várias vezes, com Martínez sempre como figura central. Empate mau com o Congo? Martínez disse que estava satisfeito. Exibição sofrida contra a Colômbia? Elogiou o desempenho, ao ponto de a imprensa comentar que "viu um jogo que mais ninguém viu". Parecia que Portugal jogava sempre bem. Um selecionador que nunca assume o erro, que transforma cada resultado mediano numa vitória moral de bastidores, está a mandar um recado claro ao grupo: aqui, o problema nunca é nosso. Peter Schmeichel resumiu bem a questão: Martínez "desperdiçou" a Bélgica e repetiu a receita com Portugal. Ricardo Quaresma foi ainda mais afiado: "meteu 50 táticas, nenhuma deu certo". E, no fim, sobra sempre um sorriso e um "correu bem". Um treinador que não foi capaz de dar um murro na mesa em público, dificilmente o faz em privado, quando é preciso mesmo mexer com alguém. A Federação também tem culpas Sabia-se, desde o início, que Martínez e a sua equipa técnica sairiam depois do Mundial. Sabia-se que o presidente da Federação, Pedro Proença, não confiava plenamente neste corpo técnico. E, ainda assim, deixou-se arrastar a situação até ao fim, com uma Seleção a competir num Mundial sem um treinador que verdadeiramente ajudasse a equipa, e com o homem no cargo já com a saída mais do que anunciada. Era claro que tinha tudo para correr mal. E no futebol, quando certos "profissionais" sabem que o ciclo terminou antes mesmo de terminar, fica mais fácil sorrir depois de uma derrota ou eliminação. Ainda mais se essa derrota for contra o seu próprio país de nascença. E, mesmo assim, ninguém fala sobre isto. Ninguém dá murros na mesa nem se exalta por termos sido traídos por estes espanhóis dentro da nossa própria casa. Nas páginas da história do nosso futebol, Martínez, Bergara e afins deveriam ficar registados como verdadeiros "cavalos de Troia". Casa a arder na Cidade do Futebol E enquanto a Seleção tropeçava em campo, além da questão de Martínez, a Federação e Pedro Proença tinham muitos outros fogos para apagar. A demissão de Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, e a polémica com o Conselho de Arbitragem acabaram remetidas ao Ministério Público, com queixas-crime cruzadas e investigações a decorrer. Uma vergonha absoluta, vinda de uma classe que se devia querer correta e justa: a da arbitragem. Comportamentos que só provam que a classe arbitral tem muita falta de classe. Sendo Proença, Duarte Gomes e outros protagonistas desta novela antigos árbitros, toda esta confusão diz muito sobre o estado das coisas no futebol português. Guerras atrás de guerras. Lutas de egos internas. Lutas pelo poder. Lutas pelo dinheiro. Nada disto dignifica o futebol e o desporto português. Proença tem prestado um mau serviço ao futebol português. Como presidente da Liga e agora como presidente da Federação, aparece com pompa e circunstância nas redes sociais, tentando colher os louros de pequenas vitórias. E, como se não bastasse a falta de noção de surgir numa foto a sorrir ao lado dos pais de Diogo Jota, esquece-se de dar a cara na hora da derrota e das polémicas. Portugal, com Cristiano Ronaldo, perdeu uma oportunidade única de ser campeão do mundo, com uma das gerações mais talentosas da sua história. Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty imagens E, pior ainda, tem agora uma Federação a gerir escândalos em várias frentes, um presidente sem coragem para colocar o dedo na ferida e pôr as pessoas no seu lugar, e o problema, ainda por resolver, da saída de Martínez. Espero que a escolha do novo selecionador recaia sobre Jorge Jesus. E gostava também que Jesus convencesse Ronaldo a continuar, para que o Deus do futebol português, ainda que fossem apenas dez minutos por jogo, conseguisse despedir-se da Seleção em 2030, no Mundial organizado por Portugal, Marrocos e Espanha.
Há treinadores que transformam equipas.E depois há treinadores que conseguem ver o que ninguém consegue e sorriem para as câmeras de televisão. Roberto Martinez pertence, cada vez mais, à segunda categoria. Dito isto com o respeito que a função merece e com a consciência de que liderar a Seleção Nacional de Portugal não é uma tarefa fácil. Mas também com o sentimento de injustiça futebolística de perceber que “Deus da nozes a quem não tem dentes” e que “são precisas unhas para tocar guitarra portuguesa...”.Martinez ganhou uma Liga das Nações, qualificou Portugal para o Mundial com números interessantes e até tem uma percentagem de vitórias que poucos selecionadores portugueses podem exibir. Esses factos existem e não podem ser apagados. Mas os números não contam tudo.E o Mundial de 2026 está a revelar aquilo que muitos já suspeitavam há algum tempo. Martinez não tem perfil para gerir momentos de pressão real.Martinez não sabe ler o jogo.Martinez não tem a sagacidade portuguesa do improviso quando ele é necessário.Martinez é um péssimo estratéga. O simpático que não dá um murro na mesa Foto: José Sena Goulãe O primeiro jogo com a República Democrática do Congo foi mau. Muito mau.Um empate com sabor a derrota, um único remate à baliza adversária, uma equipa sem agressividade, sem objetividade, sem identidade coletiva visível. E Martinez? Disse que o jogo foi positivo.Que a equipa esteve bem. Que estava satisfeito com o processo. Não esteve. Não pode ter estado. Qualquer treinador com sensibilidade competitiva real sabe que aquilo foi inaceitável para um plantel daquele nível e com a qualidade dos jogadores portugueses. Mas Martinez é o simpático. O que sorri. O que tenta falar português. O que nunca levanta a voz. O que faz conferências de imprensa com a leveza de quem acabou de ganhar uma final. E isso não é ser treinador. Isso é ser relações públicas. Porque um treinador sabe quando tem de dar um murro na mesa. Dentro ou fora do balneário. E Martinez ou nunca o faz, ou transparece nunca o fazer. Um treinador sabe quando tem de olhar para os seus jogadores nos olhos e dizer-lhes, com frontalidade, que aquilo não chegou. Que não é suficiente. Que representar Portugal exige mais. Tenho experiência direta nisto. Este ano, após uma exibição fraca num jogo de preparação, dei das maiores duras possíveis a um jogador que eu adoro à frente do grupo inteiro.Foi duro. Foi desconfortável. Mas foi necessário. Na semana seguinte, dei-lhe a titularidade na equipa e na palestra disse-lhe, na frente de todos, que ele ia marcar e fazer um grande jogo. Marcou. Fez um jogo tremendo. Porque no futebol, o que hoje é verdade, amanhã pode deixar de ser. E não há problema nenhum com isso. Tudo muda muito rápido. Criticar dentro do grupo, quando feito com propósito e liderança, não é humilhar. É elevar. É mostrar ao jogador que se acredita nele ao ponto de lhe exigir sempre mais. Martinez não parece capaz disso. Ou não quer. Quer ser sempre o agradável e o simpático.E qualquer uma dessas hipóteses é preocupante. Um treinador de terceira linha a gerir pérolas de primeira Há um padrão curioso na história recente do futebol português. De tempos a tempos, surgem treinadores espanhóis que chegam a Portugal com alguma pompa, ficam um ciclo e deixam a sensação de que o futebol português serviu mais de trampolim do que de projeto. Víctor Fernández. Quique Flores. Julen Lopetegui. Nomes que passaram por cá, deixaram resultados medianos ou incompletos e seguiram caminho. Treinadores competentes em contextos específicos, mas que nunca convenceram plenamente que percebiam a alma do futebol português e das suas exigências. Martinez está a seguir esse caminho. Tem um plantel de luxo absoluto. Uma geração de jogadores que muitos países sonhariam ter. E, jogo após jogo neste Mundial, tem revelado uma incapacidade preocupante de os fazer funcionar como uma verdadeira equipa de alta competição. Portugal pode até chegar longe neste torneio. O talento individual dos jogadores permite isso. Mas quando chegar um adversário que saiba defender bem, pressionar alto e explorar a falta de clareza tática portuguesa, a questão vai colocar-se com toda a força: onde está o treinador? O orgulho dos 21 jogadores utilizados Depois do jogo com a Colômbia, mais um empate sem golos, Martinez saiu para a conferência de imprensa com um sorriso e um dado que queria que soasse a elogio. Tinha utilizado 21 jogadores no Mundial. Disse-o com ar de quem tinha acabado de resolver um problema complexo. Como se a gestão de plantel fosse uma virtude em si mesma, independentemente do produto que a equipa apresenta em campo. Vinte e um jogadores utilizados. Uau. Em três jogos só ganhou um. Dois jogos péssimos.Dois empates sofridos. Uma equipa que ainda não encontrou identidade nem coerência. E o selecionador fala de rotatividade como se fosse um prémio? Isso não é gestão de plantel. Isso não é comunicação capaz. Isso é falta de certezas.É a incapacidade de olhar para o que teria efetivamente de dizer: “fomos maus!”. Um treinador que orgulhosamente anuncia quantos jogadores utilizou, enquanto a equipa não convence, está a fugir da pergunta que realmente importa. Porquê? Ancelotti e a diferença entre aparentar e ser Carlo Ancelotti, agora selecionador do Brasil, passou o tempo todo sentado no banco durante a primeira parte do jogo com o Japão. Quieto. Aparentemente indiferente. E as redes sociais não perdoaram: "está a dormir", "não está a ver o jogo", "que treinador é este?" Foto: William Volcov Quem percebe de futebol viu outra coisa. Viu um treinador a acumular informação. A registar padrões. A construir o discurso que ia proferir ao intervalo. A preparar as correções, as substituições, as palavras certas para as pessoas certas no momento certo. A ser estratéga. E foi exatamente isso que aconteceu. No intervalo, Ancelotti mexeu. Mexeu na equipa, na estrutura, mas acima de tudo mexeu nas cabeças dos jogadores. O Brasil fez uma segunda parte estrondosa e venceu. Ancelotti não é o treinador mais animado do banco. Não faz gesticulações dramáticas.Mas quando é preciso dá um murro na mesa. Dá entrevistas inflamadas. E quando o jogo precisa dele como treinador, ele está lá. Sempre. Com as ferramentas certas, na hora certa. É por isso que tem mais Champions League do que qualquer outro treinador da história.É por isso que é chamado de raposa velha com todo o respeito que o termo merece.É por isso que o Brasil o foi buscar.É por isso que ele tem feito a diferença na seleção brasileira. E é por isso que o Brasil para mim é um grande candidato a vencer a competição, quando muita gente no Mundo tem dúvidas relativamente à capacidade do Brasil. Martinez fica aquém desta comparação por uma razão simples. Ancelotti sabe o que é uma equipa em dificuldade e sabe como a virar. Martinez sorri e diz que está tudo bem. O talento salva. O treinador complica. Portugal pode chegar a campeão do mundo neste torneio. Dito assim, sem ironia. O talento desta geração é real e não tem paralelo na história da seleção. Cristiano Ronaldo, Diogo Costa, João Cancelo, Ruben Dias, João Neves, Nuno Mendes, Bruno Fernandes, Vitinha, Bernardo Silva, João Félix, são nomes que jogariam em qualquer seleção e que fazem inveja a qualquer selecionador do mundo. Mas se Portugal for campeão, mesmo com Martinez, não será por causa dele. Porque um treinador verdadeiramente diferenciado pega num plantel de luxo e cria uma equipa que é maior do que a soma das suas partes. Martinez não foi capaz de o fazer na Bélgica e está a demonstrar que também não tem sido capaz de o fazer com Portugal. Qualquer treinador competente, sabe gerir talento, quando o há, e pega em individualidades para construir um coletivo com alma, com princípios, com caráter reconhecível. O que vemos até agora é o oposto. Individualidades à solta, com muito talento, à espera que alguém lhes dê uma direção clara. Martinez tem o material para construir uma obra de arte. Mas não é capaz. Ao invés de ser um treinador que ajuda a sua equipa, só complica a tarefa dos seus jogadores, e isso é terrível para alguém que ocupa um cargo de tamanha responsabilidade.
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