
Foto: Reuters
Wilson Teixeira|Portugal foi eliminado pela Espanha nos oitavos de final do Campeonato do Mundo. Milhões de portugueses ficaram em lágrimas e tristes ao ver Cristiano Ronaldo a chorar no relvado, no seu último Mundial.
Contudo, assim que soou o apito final, junto ao relvado e no banco de suplentes, saltou-me à vista a imagem de alguém a rir, a abraçar e a cumprimentar efusivamente o staff espanhol, como se tivesse acabado de sair de um jantar de amigos ou estivesse feliz pela passagem espanhola: Iñaki Bergara.
Iñaki Bergara, treinador de guarda-redes de Roberto Martínez desde os tempos do Swansea. Basco, veterano, com décadas de carreira ao lado do selecionador. Um homem que, naquelas imagens, revelou uma falta de sensibilidade total para o momento.
Porque há coisas que não se fazem. E sorrir efusivamente minutos depois de eliminar do Mundial o país que te pagou o salário durante quatro anos é uma delas.
Este sorriso e esta felicidade não são um caso isolado. É apenas o episódio mais recente de uma novela que já vimos várias vezes, com Martínez sempre como figura central.
Empate mau com o Congo? Martínez disse que estava satisfeito.
Exibição sofrida contra a Colômbia? Elogiou o desempenho, ao ponto de a imprensa comentar que “viu um jogo que mais ninguém viu”.
Parecia que Portugal jogava sempre bem.
Um selecionador que nunca assume o erro, que transforma cada resultado mediano numa vitória moral de bastidores, está a mandar um recado claro ao grupo: aqui, o problema nunca é nosso.
Peter Schmeichel resumiu bem a questão: Martínez “desperdiçou” a Bélgica e repetiu a receita com Portugal. Ricardo Quaresma foi ainda mais afiado: “meteu 50 táticas, nenhuma deu certo”. E, no fim, sobra sempre um sorriso e um “correu bem”.
Um treinador que não foi capaz de dar um murro na mesa em público, dificilmente o faz em privado, quando é preciso mesmo mexer com alguém.
Sabia-se, desde o início, que Martínez e a sua equipa técnica sairiam depois do Mundial. Sabia-se que o presidente da Federação, Pedro Proença, não confiava plenamente neste corpo técnico.
E, ainda assim, deixou-se arrastar a situação até ao fim, com uma Seleção a competir num Mundial sem um treinador que verdadeiramente ajudasse a equipa, e com o homem no cargo já com a saída mais do que anunciada.
Era claro que tinha tudo para correr mal.
E no futebol, quando certos “profissionais” sabem que o ciclo terminou antes mesmo de terminar, fica mais fácil sorrir depois de uma derrota ou eliminação. Ainda mais se essa derrota for contra o seu próprio país de nascença. E, mesmo assim, ninguém fala sobre isto. Ninguém dá murros na mesa nem se exalta por termos sido traídos por estes espanhóis dentro da nossa própria casa. Nas páginas da história do nosso futebol, Martínez, Bergara e afins deveriam ficar registados como verdadeiros “cavalos de Troia”.

E enquanto a Seleção tropeçava em campo, além da questão de Martínez, a Federação e Pedro Proença tinham muitos outros fogos para apagar.
A demissão de Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, e a polémica com o Conselho de Arbitragem acabaram remetidas ao Ministério Público, com queixas-crime cruzadas e investigações a decorrer. Uma vergonha absoluta, vinda de uma classe que se devia querer correta e justa: a da arbitragem. Comportamentos que só provam que a classe arbitral tem muita falta de classe.
Sendo Proença, Duarte Gomes e outros protagonistas desta novela antigos árbitros, toda esta confusão diz muito sobre o estado das coisas no futebol português. Guerras atrás de guerras. Lutas de egos internas. Lutas pelo poder. Lutas pelo dinheiro. Nada disto dignifica o futebol e o desporto português.
Proença tem prestado um mau serviço ao futebol português. Como presidente da Liga e agora como presidente da Federação, aparece com pompa e circunstância nas redes sociais, tentando colher os louros de pequenas vitórias. E, como se não bastasse a falta de noção de surgir numa foto a sorrir ao lado dos pais de Diogo Jota, esquece-se de dar a cara na hora da derrota e das polémicas.
Portugal, com Cristiano Ronaldo, perdeu uma oportunidade única de ser campeão do mundo, com uma das gerações mais talentosas da sua história.

E, pior ainda, tem agora uma Federação a gerir escândalos em várias frentes, um presidente sem coragem para colocar o dedo na ferida e pôr as pessoas no seu lugar, e o problema, ainda por resolver, da saída de Martínez.
Espero que a escolha do novo selecionador recaia sobre Jorge Jesus. E gostava também que Jesus convencesse Ronaldo a continuar, para que o Deus do futebol português, ainda que fossem apenas dez minutos por jogo, conseguisse despedir-se da Seleção em 2030, no Mundial organizado por Portugal, Marrocos e Espanha.

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