Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

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Portugal pedala entre os gigantes: quatro medalhas num Mundial histórico

Tiago CamposTiago Campos|

Quatro medalhas, quatro disciplinas e a melhor participação portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista. Iúri Leitão voltou a vestir a camisola arco-íris, mas Xangai mostrou que há cada vez mais Portugal para além do seu maior nome.

Durante muito tempo, cada medalha portuguesa num Campeonato do Mundo de ciclismo de pista podia ser encarada como um acontecimento extraordinário. Em Xangai, Portugal começou a transformar o extraordinário em hábito. Uma medalha de ouro, uma de prata e duas de bronze fizeram de 2026 a melhor participação nacional de sempre na competição. Quatro pódios, o dobro do anterior máximo português numa única edição.

O grande protagonista voltou a ser Iúri Leitão. O ciclista de Viana do Castelo sagrou-se campeão mundial de omnium, recuperando um título que já tinha conquistado em 2023. Vice-campeão olímpico da disciplina em Paris 2024 e campeão europeu em 2026, Leitão voltou a mostrar em Xangai por que razão se tornou uma das grandes referências internacionais do ciclismo de pista.

E fê-lo com autoridade. O português começou o omnium a vencer o scratch, depois de ganhar uma volta ao pelotão, e terminou em terceiro tanto na corrida por tempo, como na eliminação. Chegou, por isso, à decisiva corrida por pontos na liderança. Fabio Van den Bossche ainda conseguiu ultrapassá-lo provisoriamente ao ganhar uma volta ao pelotão, mas Leitão respondeu da mesma forma e recuperou o comando. Terminou com 143 pontos, à frente do belga, segundo com 129, e do alemão Tim Torn Teutenberg, terceiro com 115.

Iuri Leitão Foto: FPC

Era o segundo título mundial de omnium da carreira e mais uma página de uma história que o próprio Iúri começou a escrever em 2023, quando se tornou o primeiro português campeão mundial de ciclismo de pista. Três anos depois, voltou ao lugar mais alto do pódio, e a sua emoção no fim da competição e quando ouvia o nosso hino, é bem revelador da importância que o ciclista vianense atribui a esta conquista.

Mas o Mundial de Iúri Leitão ainda não tinha terminado. No último dia da competição, juntou-se a Ivo Oliveira para atacar o madison. Portugal chegou a liderar a prova e esteve na discussão das medalhas desde cedo, somando pontos nos sprints e conseguindo uma volta de avanço sobre o pelotão.

A Dinamarca, porém, elevou a fasquia. Carl-Frederik Bevort e Lasse Leth conseguiram três voltas de avanço e terminaram com 88 pontos. Portugal continuou a lutar, pontuou nos quatro últimos sprints e segurou a medalha de prata com 67 pontos, deixando a Alemanha no bronze, com 52.

Iuri Leitão e Ivo Oliveira Foto: FPC

Mais do que outra medalha para Iúri, o resultado representou um novo marco para o ciclismo nacional: foi a primeira medalha portuguesa de sempre num Campeonato do Mundo de madison. Uma disciplina na qual Portugal já tinha conquistado o ouro olímpico em Paris 2024, então através de Iúri Leitão e Rui Oliveira.

Iúri saiu, assim, de Xangai com duas das quatro medalhas portuguesas: ouro no omnium e prata no madison.

Antes de Iúri subir ao lugar mais alto do pódio, já Maria Martins tinha mostrado que Portugal estava em Xangai para lutar por medalhas.

A portuguesa foi a primeira representante nacional a entrar em competição e conquistou o bronze no scratch, terminando apenas atrás da neerlandesa Lorena Wiebes e da irlandesa Lara Gillespie. Foi a terceira medalha da carreira de Maria Martins em Campeonatos do Mundo, depois do bronze no scratch em 2020 e no omnium em 2022.

Aos 27 anos, “Tata” voltou assim ao pódio mundial quatro anos depois e deu o primeiro sinal de uma semana que acabaria por se tornar histórica para Portugal.

Maria Martins Foto: FPC

Se o bronze de Maria Martins confirmou uma atleta habituada aos grandes palcos, o de Miguel Salgueiro teve um sabor diferente.

Em fevereiro, na estreia em Campeonatos da Europa de pista, uma queda na prova de eliminação provocou-lhe quatro costelas e duas vértebras fraturadas, além de uma contusão pulmonar, obrigando-o a passar dois dias nos cuidados intensivos. Oito meses depois, em Xangai, conquistou a primeira medalha portuguesa de sempre na corrida por pontos de um Campeonato do Mundo.

Salgueiro pontuou em sete dos 16 sprints das 160 voltas e venceu quatro deles. Chegou ao último sprint em posição de conquistar a prata e terminou com 27 pontos, apenas um atrás do francês Benjamin Thomas. O britânico Mark Stewart sagrou-se campeão mundial, com 35.

Miguel Salgueiro Foto: FPC

O bronze ganha ainda maior dimensão por ter surgido precisamente na única prova disputada pelo português nestes Mundiais.

No final, as contas são simples, mas dizem muito sobre a dimensão do que aconteceu em Xangai: ouro para Iúri Leitão no omnium; prata para Iúri Leitão e Ivo Oliveira no madison; bronze para Maria Martins no scratch; bronze para Miguel Salgueiro na corrida por pontos.

Quatro medalhas numa única edição, quando o anterior máximo português eram duas. E há outro dado particularmente significativo: os quatro pódios chegaram em quatro disciplinas diferentes, através de quatro ciclistas portugueses.

Iúri Leitão continua inevitavelmente a ser o rosto maior desta geração. É bicampeão mundial de omnium, campeão europeu da disciplina, campeão olímpico de madison e vice-campeão olímpico de omnium. Mas talvez seja precisamente aí que esteja a principal conclusão destes Mundiais: Portugal já não depende exclusivamente de Iúri para chegar ao pódio.

Maria Martins voltou a fazê-lo. Miguel Salgueiro estreou-se entre os medalhados. Ivo Oliveira juntou uma medalha mundial ao currículo. E Iúri, claro, voltou a fazer aquilo que nos últimos anos tornou cada vez menos surpreendente: ganhar medalhas.

Xangai não foi apenas o melhor Mundial da história do ciclismo de pista português. Foi mais um sinal de que aquilo que há alguns anos parecia excecional começa a ganhar consistência.

Portugal já não vai ao velódromo apenas à procura de fazer história. Começa a entrar nele como um país de medalhas.

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