
Pogacar, um irredutível esloveno que teima em vencer o Tour
Craques|Quando em 1965 René Goscinny escreveu “Le Tour de Gaule d’Astérix” (Astérix e a Volta à Gália), fê-lo por certo como homenagem à grande competição de ciclismo que se disputa em França desde o longínquo ano de 1903. Se é conhecedor da obra e do pequeno herói gaulês, Astérix dá a volta à Gália para convencer os romanos de que ninguém os conseguiria dominar. Uma missão bem-sucedida, por sinal (perdoe o spoiler), que trouxe glória, uma vez mais, aos vencedores: os irredutíveis gauleses que, numa pequena aldeia, resistiam aos invasores.

Pois bem, se fosse vivo, Goscinny — com a arte de Uderzo — poderia ter, 60 anos depois, um novo herói em quem se inspirar para uma nova Volta à Gália. Falemos então de um irredutível ciclista esloveno, que se recusa a ceder e continua a ganhar, apesar das tentativas ferozes dos seus opositores. A chegada a Paris — ou Lutécia, como lhe chamavam antigamente os gauleses — com a camisola amarela valeu a Tadej Pogacar a quarta vitória no Tour, igualando assim Chris Froome em vitórias. Aos 26 anos, o esloveno fica assim perto de pelo menos igualar — e até superar — os cinco triunfos de quatro ases do ciclismo mundial: Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Induráin.

Já não há palavras para descrever o que o franzino ciclista, natural de Klanec, faz ano após ano. Após ter sucumbido em 2022 e 2023 perante Jonas Vingegaard e a sua incrível equipa da Jumbo-Visma, Pogacar alcançou agora dois triunfos consecutivos. Dissipando as dúvidas quanto ao atual alfa dominante do ciclismo internacional — isto, se ainda existissem. São mais de 20 etapas ganhas só no Tour de França, mais de cem no total da carreira. E quatro anos consecutivos como número 1 no ranking do PCS (Pro Cycling Stats), preparando-se para o quinto.

Com os triunfos sucessivos surgem os críticos. Se há quem o celebre, também existem vozes críticas que apontam uma postura autoritária na estrada — e até insinuações de doping. A verdade é que, provavelmente, a grande diferença que explica o regresso ao sucesso no Tour está no apoio que a UAE colocou ao seu dispor. Algo que não aconteceu em anos anteriores. João Almeida (e que falta fez o português nas etapas finais — um claro “Obélix” do Astérix Pogacar), Adam Yates, Marc Soler e os restantes companheiros, no papel de gregários, foram fundamentais ao longo das várias etapas. Permitiram ao esloveno disputar de igual para igual com os seus adversários mais diretos e brilhar em palcos míticos como o Hautacam, Mont Ventoux e Col de La Loze (os dois primeiros com tempos recorde na competição).

Pogacar, se se confirmar a presença na Vuelta, pode então sonhar com terminar o ano com vitórias em duas das três Grandes Voltas (à França e à Espanha). Isto depois de no ano passado ter vencido o Giro e o Tour — algo ao alcance de muito poucos. Vencendo ou não, o domínio atual sobre os restantes é, então, absoluto e levanta uma questão essencial: há alguém neste momento — ou num futuro próximo — com capacidade real para bater Pogacar?
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