Mourinho sobrevive à vertigem de Flick e o Real Madrid assalta o Camp Nou

El clásico FC Barcelona - Real Madrid

Mourinho sobrevive à vertigem de Flick e o Real Madrid assalta o Camp Nou

Tiago CamposTiago Campos|

O Barcelona teve o Real Madrid encostado às cordas, Lunin evitou o golpe que poderia ter decidido o Clássico e, quando o empate parecia servir muito melhor os catalães, a equipa de Hansi Flick voltou a arriscar tudo. José Mourinho agradeceu. Uma transição fulminante, uma abordagem infeliz de Cubarsí e Mbappé decidiram um clássico que deixa vários avisos ao líder da La Liga.

Há jogos que se ganham porque se joga melhor. Outros porque se sofre melhor. E depois há aqueles em que é preciso simplesmente perceber o momento. José Mourinho percebeu-o. Hansi Flick, nem por isso.

O Real Madrid venceu o Barcelona por 2-1 no Spotify Camp Nou e reduziu para três pontos a distância para o rival, num clássico que acabou por expor virtudes e defeitos das duas equipas. O conjunto merengue mostrou capacidade para sobreviver durante largos períodos em inferioridade territorial, enquanto o Barça voltou a revelar aquilo que o torna simultaneamente uma das equipas mais entusiasmantes e mais vulneráveis da Europa: não sabe, ou não quer desligar a vertigem.

Mourinho começou por surpreender. Tchouaméni e Bernardo Silva formaram um duplo pivô pouco esperado, dando liberdade a Jude Bellingham e Arda Güler para aparecerem em terrenos mais adiantados e permitindo ao Real Madrid ter gente suficiente para escapar à pressão blaugrana. Não foi um Real dominador através da posse, mas foi uma equipa preparada para explorar precisamente aquilo que o Barcelona oferece aos adversários: metros.

Bernardo Silva Foto: Real Madrid

E houve ainda dois protagonistas fundamentais no plano madridista. Marc Cucurella protagonizou uma exibição enorme perante Lamine Yamal. A agressividade nos duelos, o posicionamento e a capacidade para não oferecer ao extremo o espaço de que necessita tornaram o lateral praticamente intransponível durante largos períodos. Travar Lamine nunca é tarefa individual, mas Cucurella ganhou demasiados duelos para que o seu mérito possa ser diluído no comportamento coletivo.

Do outro lado, Yan Diomande parecia estar no seu décimo clássico, não no primeiro. Personalidade, capacidade física, velocidade e ausência total de medo perante o contexto. O jovem extremo costa-marfinense foi uma ameaça permanente e esteve envolvido na jogada que originou o primeiro golo de Mbappé.

Yan Diomande Foto: Real Madrid

O Barcelona não fez uma primeira parte particularmente conseguida e chegou ao intervalo em desvantagem. Mas regressou diferente.

Raphinha empatou aos 61 minutos, depois de num momento de magia, Pedri ter encontrado o brasileiro na área, e o jogo mudou por completo.

Raphinha Foto: FC Barcelona

A partir daí, o Barcelona tomou conta do encontro. Empurrou o Real Madrid para trás, recuperou bolas cada vez mais cedo e obrigou a equipa de Mourinho a passar largos períodos praticamente dedicada a defender. O Real ainda teve uma excelente situação de contra-ataque no início da segunda parte, mas, progressivamente, deixou de conseguir sair.

E então apareceu aquele que poderá ter sido o momento do clássico. Gerard Martín ganhou nas alturas e cabeceou praticamente como mandam os livros. A bola parecia destinada à baliza. Lunin respondeu com uma defesa extraordinária, provavelmente a intervenção mais importante de toda a noite. O 2-1 esteve ali.

Se aquela bola entra, é difícil imaginar este Real Madrid a recuperar. Não entrou. E num clássico, todos os detalhes contam.

Lamine precisava de ser Lamine. Horas antes de poder receber a Bola de Ouro, Lamine Yamal tinha diante de si um daqueles palcos que ajudam a construir esse tipo de distinções.

Lamine Yamal Foto: FC Barcelona

O Barcelona precisava da versão premium do seu maior prodígio. Não apareceu. Houve fogachos, algumas acelerações, remates e momentos em que pareceu que o génio poderia finalmente libertar-se.

Mas nunca conseguiu assumir verdadeiramente o jogo. Cucurella teve muito mérito nisso, tal como toda a estrutura defensiva criada por Mourinho, mas a realidade é simples: numa noite em que o Barça precisava que Lamine desequilibrasse a balança, o espanhol esteve vários furos abaixo daquilo que consegue oferecer.

Marc Cucurella Foto: Real Madrid

Não deixa de ser curioso que uma das maiores estrelas do futebol mundial possa, dentro de poucas horas, receber a Bola de Ouro e, ainda assim, sair de um clássico com a sensação de que ficou tanto por fazer.

É aqui que o Barcelona tem de olhar para si próprio. A cinco minutos do fim estava 1-1. O Real Madrid estava fisicamente desgastado, com 10 jogadores atrás da linha da bola, e cada vez menos capaz de pressionar. O Barcelona tinha a bola, tinha o controlo territorial e tinha começado a encontrar espaços em redor da área de Lunin.

E tinha entrado na jornada com seis pontos de vantagem sobre o Real Madrid.

Porquê continuar a jogar como se fosse obrigatório decidir o campeonato naquele momento? É esta a grande contradição do Barcelona de Hansi Flick. A sua identidade levou-o até aqui. A linha defensiva subida, a pressão, a coragem para jogar permanentemente metros à frente e a vontade quase obsessiva de atacar fazem desta equipa um espetáculo.

Mas uma identidade não pode transformar-se numa prisão. Há momentos em que é preciso baixar a temperatura. Circular. Fazer o adversário correr. Obrigá-lo a perseguir a bola quando já não tem pernas para o fazer. Escolher quando acelerar em vez de acelerar simplesmente porque essa é a natureza da equipa.

Com 1-1, a cinco minutos do fim e seis pontos de vantagem à entrada do Clássico, o Barcelona não precisava de abdicar de ganhar. Precisava apenas de perceber que não podia perder.

Flick nunca fez essa distinção. Um contra-ataque. Um erro. Um clássico perdido. E José Mourinho conhece este filme melhor do que ninguém.

Quantas equipas suas pareceram mortas antes de encontrarem uma última oportunidade?

Aos 87 minutos aconteceu novamente. Bellingham produziu um momento técnico extraordinário na origem da jogada, Camavinga recebeu espaço para acelerar e o Real Madrid encontrou exatamente aquilo de que tinha estado privado durante praticamente toda a segunda parte: campo aberto.

Bellingham Foto: Real Madrid

Foi uma excelente transição ofensiva dos merengues. Rápida, vertical, tecnicamente perfeita. Mas foi também uma abordagem muito deficiente de Pau Cubarsí.

O jovem central é extraordinário com bola, lê o jogo como poucos jogadores da sua idade e tem condições para se tornar uma referência mundial na posição. Mas não é rápido. E quando o Barcelona deixa dezenas de metros nas suas costas, essa limitação fica inevitavelmente exposta.

Camavinga percebeu-o. Atacou-o em velocidade, ultrapassou-o e serviu Mbappé. 1-2. Cruel para o Barcelona. Perfeito para Mourinho.

Mbappé Foto: Real Madrid

O Real Madrid tinha passado grande parte da segunda parte a sobreviver e encontrou, numa única transição, o golpe fatal.

Seria injusto retirar mérito ao Real Madrid. Mourinho preparou bem o encontro, surpreendeu na construção do meio-campo, Cucurella realizou uma exibição tremenda perante Lamine, Diomande não sentiu minimamente a responsabilidade do primeiro clássico e Lunin apareceu quando a equipa mais precisava dele. E Mbappé fez aquilo que os grandes avançados fazem: decidiu.

Mas o Barcelona também terá de retirar conclusões. A equipa de Flick continua a ser, no entendimento de quem escreve estas linhas, coletivamente superior ao Real Madrid. Tem mais mecanismos, consegue dominar adversários durante períodos prolongados e possui uma identidade extremamente vincada.

Só que essa identidade também tem um preço.

O Barça chegou a este clássico depois de ainda não ter sido verdadeiramente testado muitas vezes esta temporada. Entretanto, encontrou dois adversários de dimensão máxima (PSG e Real Madrid), e perdeu ambos. Isto é absolutamente factual.

As baixas defensivas ajudam a explicar. Não explicam tudo. Porque jogar bem também é perceber quando não jogar depressa. Atacar bem também é saber quando guardar a bola. E querer ganhar não pode significar oferecer ao adversário precisamente o cenário em que ele ainda pode vencer.

O Barcelona tinha o Real Madrid onde queria. Lunin manteve-o vivo. Mourinho esperou. Flick continuou a arriscar.

E, quando apareceu uma última autoestrada em direção à baliza de Joan García, o Real Madrid fez aquilo que tantas vezes fez ao longo da sua história. Não precisou de dominar. Precisou apenas de uma oportunidade. E foi suficiente.

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