
O milagre do Mjällby está ao virar da esquina
“Eu não imaginava isto, de maneira nenhuma.” As palavras são de Hasse Larsson, diretor desportivo do Mjällby, modesto clube sueco que lidera, com propriedade, a liga sueca de forma isolada, quando faltam disputar onze jornadas. Se ainda havia dúvidas em relação à capacidade da equipa de Anders Torstensson em lutar pelo título, essas terão ficado definitivamente dissipadas com o triunfo, por 3-1, alcançado no passado sábado em casa do campeão em título, Malmö. Sediado no pequeno condado de Hällevik, que alberga 1.485 habitantes e tem forte tradição na arte da pesca, o pequeno clube, que já na época passada fizera a sua melhor época de sempre na Allsvenskan (1ª Divisão Sueca), com um 5º lugar, está, então, a ultrapassar todas as expetativas em 2025. O milagre do Mjällby está ao virar da esquina.
E o maior obreiro desta caminhada triunfal é, então, o treinador Anders Torstensson. Antigo jogador do Mjällby quando o clube jogava nas divisões inferiores, nos anos 80 do século passado, Torstensson deixou o futebol quando acabou a carreira. Tornou-se professor numa escola e, mais tarde, militar. Quando já não pensava voltar ao futebol, foi convidado a regressar ao clube, em 2021. Assumiu a equipa e conseguiu, então, estabilizar o modesto Mjällby entre os grandes do futebol sueco.
Mas os primeiros anos na Allsvenskan não foram fáceis. “Estávamos na Allsvenskan, mas era um clube semiprofissional. A maioria dos jogadores tinha empregos paralelos, treinávamos no final da tarde, só eu e o meu adjunto é que trabalhávamos a tempo inteiro. Tínhamos um treinador de guarda-redes duas vezes por semana, um técnico de equipamentos que trabalhava a tempo inteiro no seu negócio. E o nosso médico era professor a tempo inteiro”, explicou, numa entrevista recente ao jornal inglês ‘The Guardian’. Quanto aos treinos, o cenário também era complicado, devido à situação precária do clube: “Não havia academia. Fazíamos uma refeição todos juntos depois do treino de quinta-feira e a situação económica era muito, muito má.”

Em 2016, o Mjällby caiu na 3ª divisão do futebol sueco e Hasse Larsson aceitou pegar no clube para o recuperar. Trabalhou três anos sem remuneração e reergueu o Mjällby, evitando que este fechasse portas para sempre. Hoje, os “Primos do Interior” estão revigorados, mas não se pense que houve uma qualquer injeção monetária como agora acontece recorrentemente no futebol. A recuperação deveu-se a uma gestão rigorosa e aproveitamento de jovens jogadores dos maiores clubes da Escandinávia.
No extremo sul da Suécia, o estádio do Mjällby está situado a pouquíssimos metros do mar, dispondo já de condições de trabalho de bom nível. Com Torstensson, ao comando, o Mjällby lidera o campeonato com 4 pontos de avanço para o Hammarby à 19ª jornada. A equipa sofreu apenas uma derrota – em casa do AIK Estocolmo – e já ganhou, inclusivamente, os dois jogos ao mais direto perseguidor na classificação.
Anders Torstensson surpreendeu tudo e todos no clube quando resolveu ir buscar Karl Marius Aksum, um norueguês sem experiência internacional para seu adjunto. Ainda assim, o estudioso Aksum modificou a forma de pensar da equipa em campo. O Mjällby passou a adotar um estilo mais dominador e a jogar um futebol mais de passe curto, que ajuda a dominar os adversários. O ataque também beneficiou, sobretudo no que toca às transições rápidas do meio-campo para a frente e ao melhor aproveitamento das bolas paradas.

E o trajeto da equipa leva o treinador a relativizar um problema de saúde que apareceu recentemente: leucemia linfocítica crónica, ainda assim, uma forma não agressiva da doença. “Dizem que não se morre disto, mas sim morremos com isto”, diz, meio a brincar. Mas, mais a sério, atira: “Por enquanto, posso viver normalmente. Aceitei o diagnóstico e estou a tentar deixá-lo no hospital. Sei que tudo pode mudar em seis meses. Mas se mudarem, existem bons tratamentos.”
O espírito de comunidade que existe em Hällevik também ajuda os locais a seguir em frente. E, esta época, há, então, outro fator adicional à motivação. O milagre do Mjällby está ao virar da esquina.

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