
O ponto de partida volta a ser Abu Dhabi. O sol nasce cedo sobre o Golfo Pérsico e a luz quente do deserto parece a mesma de 2011. Mas, para João Mota, tudo é diferente. Catorze anos depois de ter trabalhado pela primeira vez nos Emirados Árabes Unidos, então como adjunto, o treinador português está de volta. O ciclo fecha-se e reabre-se ao mesmo tempo.
É no Al Itthiad Sports Club, de Abu Dhabi, que o homem que então sonhava ser técnico reencontra as suas origens profissionais — e um país onde, um dia, decidiu que o seu futuro seria o banco.
Em 2011, João Mota era um jovem técnico a dar os primeiros passos fora de Portugal. O Hatta Club abriu-lhe as portas e a experiência revelou-se decisiva: ajudou à subida de divisão em 2012, o primeiro sucesso internacional da sua carreira.

Treze anos depois, o destino traçou-lhe um cenário poético: o primeiro jogo-treino do Al Itthiad SC sob o seu comando foi precisamente frente ao Hatta Club.
Agora, com 59 anos e uma bagagem que o levou por Brasil, Congo, Sudão, Kuwait, Arábia Saudita, Jordânia e Omã, João Mota regressa aos Emirados com outra maturidade e outra missão.
O Al Itthiad SC, relançado em 2024 com nova imagem e estrutura, quer subir de divisão e afirmar-se como um dos clubes emergentes da capital. Para isso, aposta num treinador experiente, conhecedor da realidade árabe e com um percurso de sucesso.
Sem jogos oficiais até 19 de outubro, frente ao Dubai United, João Mota tem aproveitado o período para trabalhar como se estivesse em plena pré-época. Molda a equipa à sua imagem, ajusta o plantel e introduz a metodologia que o distingue: rigor europeu, intensidade, proximidade humana e leitura tática apurada.

A seu lado, um reforço de Portugal: Vítor Sá Pereira, 45 anos, ex-treinador do Dumiense (Campeonato de Portugal), que se juntou à equipa técnica como adjunto.
A história de João Mota é um mapa de viagens e emoções. Formado como defesa-central no Barreirense e no Sporting, chegou à Seleção Nacional B, mas foi no banco que encontrou a sua verdadeira vocação.
O seu percurso é uma travessia por vários continentes. No Al Hussein SC, da Jordânia, viveu o período mais glorioso: conquistou dois campeonatos, uma Supertaça e levou o clube de Irbid até aos oitavos-de-final da AFC Champions League Two. Em 55 jogos no comando, somou 38 vitórias, 12 empates e apenas 5 derrotas, um registo de 80% de sucesso que o consagrou entre os técnicos estrangeiros mais influentes do país.

Mas o futebol de João Mota não se mede apenas por troféus. No Sudão, sobreviveu a rajadas de G3 disparadas por adeptos em viagem. No Brasil, trabalhou com jovens que chegavam ao treino sem comer. Transformou essas experiências em lições de vida.
A vida também escreve as suas histórias fora das quatro linhas. Claudia, esposa de João Mota, junta-se a ele este sábado em Abu Dhabi. Conheceram-se precisamente nos Emirados, quando o técnico trabalhava, já como principal, no Dibba Al-Hisn.
Claudia, brasileira, visitava na altura o irmão, treinador de guarda-redes num clube local. O encontro foi casual, o destino não. Desde então, tornou-se companheira inseparável nas viagens e nos recomeços.
O desafio está lançado: levar o Al Itthiad SC à subida de divisão e consolidar o clube numa liga cada vez mais competitiva e mediática. Mas, para João Mota, o essencial mantém-se — a paixão pelo jogo, a curiosidade pelo mundo e a vontade de continuar a crescer.
Em Abu Dhabi, onde tudo começou, o treinador português reencontra o passado e redefine o futuro. O deserto já não lhe é estranho. É casa. E João Mota, mais do que nunca, volta a ser o português que faz do futebol uma forma de vida — e da vida, uma viagem sem fim.
Regresso ao deserto: João Mota e a nova vida nos Emirados

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