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Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

FC porto vence supertaça Foto: Manuel Fernando Araujo

Uma Supertaça que deixa mais dúvidas do que certezas

Tiago CamposTiago Campos|

O FC Porto conquistou a Supertaça. Daqui a alguns anos, ficará apenas registado que venceu mais um troféu. As estatísticas não contam exibições, não registam a qualidade do futebol praticado nem refletem as dúvidas que uma equipa consegue deixar mesmo quando ergue uma taça.

Mas quem viu os noventa minutos diante do Torreense dificilmente saiu descansado. Porque o resultado foi positivo. A exibição esteve muito longe de o ser.

Antes de olhar para o FC Porto, importa fazer justiça ao Torreense. A equipa de Torres Vedras realizou uma exibição extraordinária. Em muitos momentos, foi difícil perceber que um dos emblemas pertence à Primeira Liga e o outro milita na Liga Portugal 2. Houve coragem, personalidade, organização e uma enorme capacidade para criar dificuldades a um adversário teoricamente muito superior.

Aliás, continuo convencido de que, caso tivesse beneficiado de um calendário mais equilibrado antes da segunda mão do play-off frente ao Casa Pia , o Torreense (depois da brilhante conquista da Taça de Portugal) teria hoje lugar entre os principais clubes do futebol português.

Não perdeu porque lhe faltou ambição. Não foi eficaz em momentos capitais do jogo. Dany Jean foi um quebra-cabeças durante todo o encontro para a equipa portista, é um jogador interessante, mas tem de melhorar imenso na tomada de decisão. Uma menção honrosa ao lateral-esquerdo Javi Vásquez, cujo talento não pode andar perdido pelas divisões secundárias do nosso futebol. A equipa do Oeste (muitíssimo bem trabalhada por Luís Tralhão) perdeu essencialmente porque teve pela frente um dos melhores guarda-redes do mundo.

Diogo Costa voltou a ser decisivo. Mais uma vez. E talvez isso devesse preocupar os portistas. Porque quando o melhor jogador da equipa é, sistematicamente, o guarda-redes, normalmente existe um problema coletivo que continua por resolver.

Foto: Victor Sousa/Movephoto

Os primeiros 10 minutos do FC Porto foram absolutamente inadmissíveis para uma equipa com as suas ambições. Houve dificuldades na saída de bola, erros posicionais, enorme displicência de alguns dos seus jogadores, e uma intranquilidade defensiva que permitiu ao Torreense acreditar desde o primeiro minuto.

O problema é que estes sinais não são novos. Já tinham aparecido no final da época passada. Na altura, muitos preferiram desvalorizá-los porque os resultados iam aparecendo.

A história do futebol ensina-nos, contudo, que nem sempre vencer significa que tudo está bem. O melhor exemplo continua a ser a temporada 2012/13.

O inesquecível golo de Kelvin, aos 92 minutos frente ao Benfica, deu ao FC Porto um campeonato absolutamente épico. Mas também escondeu problemas que a estrutura optou por ignorar. A ideia de que bastava continuar pelo mesmo caminho revelou-se ilusória e os anos seguintes acabaram por confirmar isso mesmo.

Não pretendo estabelecer um paralelismo absoluto. Mas o futebol tem memória. E, por vezes, os resultados mascaram problemas que acabam inevitavelmente por regressar.

Será Farioli o homem ideal para uma equipa destes pergaminhos? Um treinador receoso, que tem um modelo de jogo bastante previsível, pouco fiável a longo prazo, e com uma aversão ao jogo ofensivo? Eu considero que não pode ser essa a mentalidade de um treinador de um clube da dimensão do FC Porto, e já o considerava antes de ter sido campeão.

É precisamente isso que me preocupa neste FC Porto. Continuo sem perceber qual é a verdadeira ideia ofensiva de Francesco Farioli.

A pressão alta funciona em muitos momentos e continua a ser uma arma importante. Quando a frescura física (natural que não a haja neste início de época) não é a melhor, a equipa passa a suster o seu jogo na solidez defensiva, igualmente ausente num jogo contra uma equipa de valia inferior, mas com uma identidade muito vincada no seu jogo, e extremamente personalizada.

A circulação é lenta. A criatividade é inexistente (com claro destaque negativo para a exibição muito fraca de Gabri Veiga). Há pouca mobilidade entre linhas. Os movimentos ofensivos repetem-se, apesar de um maior jogo associativo com a presença de André Silva, mas claramente mais talhado para jogar num modelo 4-4-2 dadas as suas características.

As substituições parecem obedecer mais a um ficheiro de Excel do que ao próprio jogo. Substituir ao minuto 60 tornou-se quase um automatismo, independentemente daquilo que a partida pede.

Mais difícil ainda de compreender foi ver o FC Porto baixar o bloco durante largos períodos frente a uma equipa da segunda divisão, jogando num inconcebível esquema de 5-3-2. Num clube cuja identidade sempre passou por assumir os jogos, pressionar alto e sufocar os adversários, essa postura parece contradizer a própria história portista.

E depois há Rodrigo Mora. É impossível ignorar o que está a acontecer. Desde a chegada de Farioli, um dos maiores talentos recentes da formação portista desapareceu praticamente das opções. Um jogador com criatividade, imprevisibilidade e capacidade para desbloquear jogos continua sem espaço numa equipa que revela precisamente enormes dificuldades na construção ofensiva.

Foto: Miguel Pereira

Será apenas uma questão física? Será uma opção técnica? Ou simplesmente um jogador que não encaixa nas ideias do treinador? O que motiva este ostracismo de Farioli a um dos filhos da casa?

Independentemente da resposta, torna-se difícil compreender que um futebolista com aquelas características permaneça praticamente ausente enquanto a equipa revela tanta dificuldade em criar ocasiões de golo. A entrada do sul-coreano Hwang In-beom (um dos reforços para esta temporada) mexeu com o jogo, e poderá ser uma excelente adição para esta equipa portista.

Foto: FC Porto

Mas é curto. O FC Porto foi campeão devido a uma fulgurante primeira volta, secundado por um fantástico golpe de asa do presidente André Villas-Boas, num cirúrgico mercado de Inverno onde foi recrutar o experientíssimo defesa-central Thiago Silva (com pouca utilização, mas cujo ADN vencedor ajudou muito uma equipa na qual escasseava esse aspecto).

Contudo, foram os ingressos do costa-marfinense Seko Fofana e do prodígio polaco Oskar Pietusewski, o motivo principal para que os portistas voltassem a ser campeões nacionais ao fim de 4 anos.

Também a arbitragem merece referência. A decisão de não recorrer ao VAR num dos lances mais polémicos da partida (possível infração dentro da área de Hwang In-beom sobre um jogador do Torreense já dentro do tempo de descontos), deixa legítimas dúvidas e dificilmente contribui para a credibilização do próprio sistema, tão discutido durante esta última semana, devido às declarações infames provindas de uns áudios de Pedro Proença (presidente da Federação Portuguesa de Futebol e ex-árbitro internacional) sobre o colectivo arbitral.

O máximo dirigente do futebol nacional já estava sob um grande escrutínio devido à instabilidade no seio da nossa federação, mas afirmações estapafúrdias como: “Opiniões do cidadão Pedro Proença não se confundem com as do presidente”, proferidas no fim do jogo da Supertaça, não ajudam minimamente a baixar este ruído ensurdecedor que está instalado no futebol português.

Por fim, há outro tema que paira inevitavelmente sobre o Dragão: o futuro de Diogo Costa. A confirmar-se a sua saída, o FC Porto perderá muito mais do que um guarda-redes. Perderá o capitão, uma das vozes do balneário e, um dos melhores guarda-redes do futebol mundial.

É legítimo que queira dar o salto para um campeonato mais competitivo, mas a SAD terá de encontrar rapidamente uma solução capaz de oferecer garantias, porque substituir um jogador desta dimensão está longe de ser uma tarefa simples.

A mesma preocupação existe relativamente a Victor Froholdt. O médio dinamarquês tornou-se uma peça absolutamente nuclear para este modelo de jogo de Farioli, sobretudo pela intensidade na pressão e pela capacidade de ligar setores. Perder simultaneamente Diogo Costa e Froholdt seria um golpe enorme para uma equipa que já revela dificuldades em consolidar processos.

A época ainda agora começou. Há tempo para crescer. Há tempo para melhorar. Mas também há sinais que não podem continuar a ser ignorados.

Os tímidos assobios que já se ouviram na Supertaça são apenas um aviso. A paciência dos adeptos dificilmente será a mesma da época passada. Porque ganhar continua a ser importante.

Mas, num clube da dimensão do FC Porto, ganhar também implica convencer. E, neste momento, o FC Porto está muito longe de o conseguir.

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