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Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

Muito mais do que uma medalha: Portugal confirmou o crescimento da natação nacional

Tiago CamposTiago Campos|

A prata de Camila Rebelo foi o ponto mais alto da participação portuguesa, mas as inúmeras finais, recordes e excelentes classificações demonstraram que a natação nacional atravessa um dos momentos mais promissores da sua história

Estes Europeus de Natação foram a confirmação de uma geração que começa a afirmar-se de forma consistente entre a elite europeia. A comitiva nacional regressou a casa com apenas uma medalha, mas dificilmente poderia pedir muito mais à maioria dos seus atletas. Entre recordes nacionais, presenças em finais e excelentes classificações, ficou a sensação de que a natação portuguesa continua claramente em crescimento.

O grande destaque português pertenceu naturalmente a Camila Rebelo. A nadadora conquistou uma brilhante medalha de prata nos 200 metros costas, oferecendo a Portugal o único pódio da competição, e voltou ainda a confirmar a sua enorme consistência ao alcançar outra final europeia, desta vez nos 100 metros costas. Mais do que a medalha, Camila confirmou definitivamente o estatuto de uma das melhores especialistas europeias da disciplina.

Camila Rebelo foto:FPN

Se Camila foi a medalha, Francisca Martins foi talvez o maior símbolo da profundidade da equipa portuguesa. A jovem nadadora esteve presente em quatro finais europeias (!) – 200 metros livres, 400 metros livres, 800 metros livres e estafeta de 4×200 metros livres — terminando num extraordinário quarto lugar nos 400 metros livres e com recorde nacional (4.06.93), resultado que confirma a sua afirmação entre a elite continental.

Também Diogo Ribeiro voltou a demonstrar porque continua a ser um dos maiores talentos da natação portuguesa. O olímpico terminou em quinto lugar nos 50 metros mariposa e estabeleceu um novo recorde nacional dos 50 metros livres, com 21,72 segundos, ficando a apenas uma centésima de segundo do quinto classificado. Uma margem mínima que ilustra bem o equilíbrio do mais alto nível europeu.

Diogo Ribeiro foto:FPN

Entre os restantes portugueses, merece igualmente destaque Vasco Morgado, que alcançou as meias-finais dos 200 metros mariposa, continuando a afirmar-se entre os jovens nadadores nacionais com maior potencial.

Portugal também voltou a mostrar evolução na natação artística. A seleção nacional alcançou um meritório sétimo lugar no Esquema Acrobático, graças à prestação de Daniel Ascenso, Elisabete Fortunato, Joana Rosa, Lara Botelho, Lara Rolo, Maria Fonseca, Marta Abreu e Rodrigo Carvalho, que apresentaram uma rotina consistente e tecnicamente muito exigente, confirmando o crescimento da modalidade.

A participação portuguesa ficou ainda enriquecida pelos excelentes resultados da seleção paralímpica. Marco Meneses conquistou duas medalhas de bronze, nos 50 e 100 metros livres da classe S11, enquanto Susana Veiga e Diogo Cancela voltaram igualmente a marcar presença nas finais das respetivas categorias (S9 e S8), demonstrando a elevada competitividade da natação adaptada portuguesa.

Se Portugal apresentou argumentos muito positivos, o panorama internacional ofereceu algumas das melhores histórias do campeonato.

A italiana Simona Quadarella voltou a demonstrar porque continua a ser uma das grandes referências da natação mundial ao conquistar um extraordinário triplete nos 400, 800 e 1500 metros livres, dominando por completo as provas de fundo.

Simona Quadarella Photo Courtesy:Giorgio Scala/DeepBlueMedia

Também David Popovici voltou a fazer história. O fenómeno romeno conquistou pela terceira vez consecutiva a dobradinha dos 100 e 200 metros livres, confirmando-se como um dos maiores especialistas da atualidade nas distâncias de velocidade prolongada, com apenas 21 anos.

A Hungria foi outra das grandes protagonistas. Kristóf Milák voltou ao mais alto nível ao vencer os 100 metros mariposa, terminando a apenas três centésimos do recorde do mundo, além de contribuir para o ouro da estafeta húngara 4×100 metros livres. O compatriota Hubert Kós brilhou igualmente ao conquistar os títulos dos 200 metros costas, 200 metros estilos e da mesma estafeta.

Um dos momentos mais emocionantes aconteceu nos 50 metros bruços. A experiente lituana Rūta Meilutytė, recordista mundial da especialidade, derrotou a grande favorita Benedetta Pilato por apenas um centésimo de segundo, demonstrando que continua perfeitamente capaz de competir ao mais alto nível.

Mesmo limitado por uma lesão no adutor, Léon Marchand voltou a impressionar e a colocar Paris em efervescência. O francês foi obrigado a abdicar de várias provas, mas ainda conquistou os títulos dos 200 metros mariposa e dos 400 metros livres, ajudando igualmente a França a alcançar o bronze na estafeta 4×100 metros estilos.

Léon Marchand foto: Salomon Micko Benrimoh

Os Europeus ficaram também marcados por novos talentos. O húngaro Oliver Papai, com apenas 16 anos, deslumbrou nos 400 metros livres conquistando a medalha de prata, enquanto a britânica Amalie Smith, nascida igualmente em 2009, garantiu uma estupenda medalha de prata nos 400 metros estilos. Na mesma disciplina, a irlandesa Ellen Walshe confirmou o favoritismo ao vencer tanto os 200 como os 400 metros estilos.

Outro dos momentos altos da competição surgiu nos 100 metros costas, onde o grego Apostolos Christou surpreendeu tudo e todos ao derrotar o recordista mundial Thomas Ceccon por apenas um centésimo de segundo, numa das finais mais emocionantes destes campeonatos.

Os recordes também fizeram parte do espetáculo. A italiana Sara Curtis estabeleceu um novo recorde do mundo dos 50 metros costas, com 26,56 segundos, enquanto o alemão de apenas 19 anos Johannes Liebmann assinou uma das maiores exibições da competição ao vencer os 1500 metros livres em 14.26,79 minutos, melhorando em 13 segundos o seu recorde pessoal e retirando quase quatro segundos ao anterior recorde mundial pertencente a Bobby Finke desde os Jogos Olímpicos de Paris.

No medalheiro, foi o Reino Unido quem terminou na liderança, graças a mais uma medalha de ouro do que a Itália, apesar de os italianos terem conquistado mais 17 (!) medalhas no total.

Portugal regressa destes Campeonatos da Europa com apenas uma medalha, mas com muito mais do que isso. Regressa com finais, recordes, jovens em clara ascensão e a certeza de que a natação nacional nunca teve tanta qualidade distribuída por tantas disciplinas diferentes. E, tal como aconteceu no atletismo, talvez esse seja o melhor indicador de que o futuro continua a sorrir ao desporto português.

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