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Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

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Entre medalhas, desilusões e injustiças, Portugal saiu mais forte deste Europeu

Tiago CamposTiago Campos|

Três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e algumas desilusões marcaram uma prestação muito positiva de Portugal nos Campeonatos da Europa de Atletismo. Num Europeu recheado de momentos memoráveis, a seleção nacional voltou a provar que pertence à elite continental

Findos os Campeonatos da Europa de Atletismo, Portugal regressa a casa com três medalhas, mas também com a sensação de que poderia perfeitamente ter alcançado um resultado ainda mais expressivo.

A medalha de prata de Pedro Pichardo voltou a confirmar a extraordinária consistência de um dos maiores atletas da história do atletismo português. O campeão olímpico voltou a responder presente num grande palco internacional, mantendo-se como uma das maiores referências do triplo salto mundial, a que só um salto inesperado e igualmente monstruoso (18,15m) do italiano Andy Díaz impediu de que Pichardo se sagrasse novamente campeão europeu.

Pedro Pichardo Foto: FPA

Também Fatoumata Diallo (com um fantástico recorde pessoal de 53.55) confirmou a sua enorme evolução ao conquistar a medalha de bronze nos 400 metros barreiras. Um resultado que recompensa anos de crescimento sustentado e que a coloca definitivamente entre as principais especialistas europeias da disciplina.

Fatoumata Diallo Foto: Julian Finney/Getty images

Já Patrícia Silva voltou a demonstrar toda a sua inteligência competitiva e capacidade de sofrimento ao conquistar a medalha de bronze nos 1500 metros na recta da meta. Num dos meios-fundos mais exigentes do programa, a portuguesa voltou a responder da melhor forma quando a competição mais o exigia.

Patrícia Silva Foto: FPA

Mas o Europeu de Birmingham deixou igualmente algumas desilusões. Poucos esperariam ver Isaac Nader, campeão do mundo dos 1500 metros em 2025, terminar a final na última posição. O português nunca conseguiu entrar verdadeiramente na luta pelas medalhas e pareceu perder intensidade na fase decisiva da corrida quando percebeu que o pódio lhe escapava. Também Salomé Afonso, depois de um percurso muito consistente até à final, acabou por quebrar nos derradeiros metros, terminando longe dos lugares cimeiros.

Mais ingratos foram ainda os quartos lugares de Gerson Baldé e Agate de Sousa, ambos campeões mundiais de pista coberta em fevereiro. No caso da saltadora portuguesa, fica uma enorme sensação de injustiça. Um dos seus ensaios foi claramente mal medido e a marca oficial de 6,89 metros dificilmente correspondeu ao salto efetuado. Agate (6,96m) terminou a apenas dois centímetros da medalha de bronze e quatro centímetros do ouro (7,00) da italiana Larissa Iapichino, numa situação que inevitavelmente marcou o concurso.

Entre os muitos motivos de orgulho esteve também Delvis Santos. O velocista português estabeleceu um novo recorde pessoal de 20,23 segundos, qualificou-se para a final dos 200 metros e alcançou um excelente sexto lugar europeu, confirmando o crescimento que tem vindo a evidenciar nas últimas temporadas.

Delvis Santos Foto: FPA

Outro dos destaques da participação portuguesa foi Joana Pontes, que alcançou um meritório 10.º lugar na maratona de marcha. A atleta concluiu a prova em 3h41m36s, estabelecendo um novo recorde pessoal e confirmando a evolução que tem vindo a demonstrar numa disciplina cada vez mais competitiva ao mais alto nível.

Também as estafetas nacionais deixaram excelentes indicadores. Tanto a equipa feminina dos 4×100 metros como a estafeta mista dos 4×100 metros garantiram presença nas respetivas finais, confirmando a evolução coletiva da velocidade portuguesa e demonstrando que Portugal começa igualmente a afirmar-se nas provas por equipas.

Se Portugal voltou a mostrar a sua força, o panorama europeu ofereceu igualmente momentos absolutamente inesquecíveis.

Poucas atletas dominaram tanto uma competição como Nadia Battocletti. A italiana conquistou um extraordinária dobradinha nos 5000 e 10000 metros, assumindo-se como uma das grandes figuras destes Campeonatos da Europa. Foi precisamente a Itália quem acabaria por conquistar o medalheiro geral, graças ao triunfo alcançado na derradeira prova do programa, a estafeta masculina dos 4×400 metros, por escassos milésimos de segundo.

Também a Noruega regressou ao topo. Karsten Warholm voltou à sua melhor versão para conquistar mais um título europeu de forma muito autoritária nos 400 metros barreiras, enquanto Jakob Ingebrigtsen confirmou o regresso à melhor forma ao dominar os 5000 metros com a autoridade habitual, permanecendo invencível nesta distância a nível europeu. A quatrocentista muito jovem Henriette Jæger de apenas 23 anos, foi essencial para que a Noruega ganhasse a estafeta 4×400 mista, e somou o ouro dos 400m individuais com uma recta final estupenda.

Perante o seu público, Amy Hunt transformou-se numa das grandes estrelas da competição. A velocista britânica conquistou quatro medalhas de ouro — nos 100 metros, 200 metros, estafeta feminina 4×100 metros e estafeta mista 4×100 metros — assinando uma das campanhas individuais mais impressionantes de sempre em Campeonatos da Europa.

Amy Hunt EPA

Mas se houve um momento verdadeiramente cinematográfico, esse pertenceu a Gianmarco Tamberi. O italiano chegava a Birmingham vindo de um período de várias lesões, e tendo ultrapassado apenas 2,23 metros durante toda a temporada, mas voltou a provar porque continua a ser um dos atletas mais carismáticos do atletismo mundial. No último ensaio, superou 2,32 metros e conquistou dramaticamente mais um título europeu, perante o olhar incrédulo do ucraniano Oleh Doroshchuk, que cedeu à pressão e não conseguiu superar essa fasquia.

Também Audrey Werro protagonizou uma das histórias mais bonitas da competição. Depois de ter sido justamente repescada para a final dos 800 metros, devido a uma queda provocada por outra atleta nas meias-finais, a suíça respondeu da melhor forma possível ao derrotar a grande favorita Keely Hodgkinson e conquistar um memorável título europeu.

Na marcha, María Pérez voltou a confirmar a sua supremacia ao conquistar o ouro com um extraordinário recorde do mundo, enquanto Armand “Mondo” Duplantis fez aquilo que já parece rotina: conquistou mais um título europeu no salto com vara, vencendo com 6,15 metros, sem sequer necessitar de atacar um novo recorde mundial.

Maria Pérez 2026 Getty Images

No final, Portugal regressa de Birmingham com três medalhas, vários finalistas, recordes pessoais e a confirmação de uma geração extremamente competitiva. Houve desilusões, houve injustiças e houve oportunidades perdidas, mas houve sobretudo qualidade. E quando um país termina um Campeonato da Europa com a sensação de que podia ter conquistado ainda mais medalhas, talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer ao momento atual do atletismo português. Este Europeu confirmou que Portugal pertence, sem qualquer complexo, à primeira linha do atletismo europeu.

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