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Quem tem medo de salvar o Boavista?

Foto: Boavista FC

Quem tem medo de salvar o Boavista?

Wilson TeixeiraWilson Teixeira|

O Boavista FC está ligado às máquinas, em paragem cardiorrespiratória, e a verdade tem de ser dita com a frontalidade que o futebol moderno tanto teme. O esforço heroico do Movimento Salvar o Boavista, liderado por adeptos anónimos e figuras como Pedro Pires de Lima, que dão a cara, o corpo e o próprio bolso para juntar 55 mil euros todos os meses, é uma lição de amor ao clube. Mas sejamos realistas: isto é colocar um penso rápido numa hemorragia de 150 milhões de euros. É insustentável. É insuficiente.

Esta situação é decorrente do investimento feito nas obras para o Europeu 2004 que modernizaram o Bessa. Nessa altura, o Estado, as autarquias, os políticos e as grande empresas que lucraram milhões, todos estavam muito felizes pela realização da competição em Portugal.

E agora? É revoltante ver um grupo de sócios cumpridores a tentar fazer omeletes sem ovos, enquanto os verdadeiros tubarões financeiros e as entidades competentes olham para o lado. Onde estão os donos do país nesta hora de aflição? Onde estão gigantes como o Grupo Jerónimo Martins, a Galp ou a Sonae da família Azevedo, que faturam milhares de milhões de euros todos os anos no nosso território e fecham os olhos à destruição de uma das maiores instituições desportivas do Norte? Falta coragem económica a quem tem os cofres cheios para perceber que o Boavista não precisa de caridade, precisa de investimento estratégico.

Estes adeptos e movimentos independentes que lutam diariamente nas ruas e nas redes sociais não têm a capacidade financeira, nem o poder legal que legisladores, o Estado e a Câmara Municipal do Porto detêm. O clube tem património. O Estádio do Bessa vale ouro. Se tivéssemos uma liderança política na autarquia verdadeiramente empenhada na defesa do tecido social da cidade, e não apenas na burocracia, a solução já estava a andar.

Com a crise e especulação imobiliária que vivemos no país, a salvação do Boavista passa obrigatoriamente por transformar o perímetro do Bessa num mega-complexo urbano multiusos. Estamos a falar de rasgar o atual Plano Diretor Municipal e construir habitações de luxo nas bancadas inacabadas, projetar uma grande clínica médica privada, um hotel corporativo e espaços comerciais que gerem receitas contínuas. Uma operação imobiliária com 150 apartamentos de luxo vendidos a 1,25 milhões de euros cada geraria mais de 187 milhões de euros brutas. O lucro limpava a dívida à Somague e ao Fisco de uma assentada.

Para isso acontecer, o Estado e a Câmara do Porto não têm de meter um único cêntimo do erário público. Só têm de fazer o seu trabalho: facilitar, reestruturar as dívidas fiscais, agilizar as licenças e alterar o PDM para que os grandes fundos de investimento privados internacionais queiram injetar aqui o capital.

Enquanto a burocracia asfixia o clube e as maiores fortunas de Portugal assistem de camarote à insolvência, o povo boavisteiro vai fazendo milagres. Mas o tempo das desculpas acabou. O Bessa tem valor de sobra para se salvar a si próprio. Só falta saber se quem manda tem a coragem política de assinar os papéis ou se vai preferir carregar no caixão de um histórico do nosso futebol.

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