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O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

Foto: Bikemagazine

O indomável Pogačar: o homem que pedala ao lado dos deuses

Tiago CamposTiago Campos|

Nem todos os campeões entram para a história. Alguns tornam-se a própria história. Tadej Pogačar pertence a essa raríssima categoria. Ontem, em Paris, o indomável ciclista esloveno deixou definitivamente de correr contra os adversários para passar a correr ao lado dos deuses do ciclismo.

O quinto Tour de France da carreira não representa apenas mais um triunfo. Representa a entrada definitiva num círculo que parecia reservado à eternidade: Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain.

Aos 27 anos, o esloveno tornou-se também o mais jovem ciclista da história a alcançar cinco vitórias na maior prova de ciclismo do mundo, um feito que parecia pertencer apenas aos livros de história.

Tadej Pogacar, Foto: AFP/Loice Venance

No entanto, olhando para a forma como corre, fica a sensação de que a história ainda está longe de terminar. Porque Pogačar não compete para administrar vantagens. Compete para atacar. Compete para ganhar.

Compete para oferecer espetáculo até ao último segundo da corrida, como foi provado pelo seu comportamento na última etapa, onde não deixou de tentar sair com mais uma vitória, arriscando em descidas bastante perigosas, sem ter necessidade nenhuma de o fazer, apenas com o intuito de continuar a escrever história e de dar espectáculo aos milhares de espectadores presentes na cidade de Paris.

Foi precisamente isso que voltou a fazer neste Tour. Dominou a corrida de forma avassaladora, “destroçou” o recorde de Marco Pantani na mítica subida ao Alpe d’Huez (um recorde com mais de 30 anos), venceu quando era preciso vencer e mostrou, uma vez mais, que o seu talento parece não conhecer fronteiras.

Mas reduzir Pogačar aos números seria cometer uma enorme injustiça.

Ao longo dos últimos anos, construiu um palmarés absolutamente ímpar. Cinco Tours de France, um Giro d’Italia, dois Campeonatos do Mundo de Estrada, medalhista olímpico, um Campeonato da Europa de Estrada, várias Liège-Bastogne-Liège, Il Lombardia, Tour de Flandres, Strade Bianche, Milan-San Remo, Tirreno-Adriático, Paris-Nice e inúmeras outras provas que fazem dele um dos ciclistas mais completos da história da modalidade.

Veremos se irá competir na Vuelta, a única Grande Volta que não consta no seu brilhante currículo. A prova começa dentro de 4 semanas, e há muita expectativa para saber se Pogačar estará na linha de partida em Barcelona para poder completar o trio de Grandes Voltas, algo que o seu grande rival Jonas Vingegaard conseguiu há uns meses com a conquista do Giro.

O primeiro grande resultado de Pogačar foi conquistado na Volta à Espanha, já num longínquo 2019, onde o ciclista esloveno conseguiu um surpreendente, mas fantástico 3º lugar, mas não mais voltou a correr essa prova.

Pogačar está também próximo de ganhar o único “Monumento” que lhe falta: a Paris-Roubaix, aquela que muitos consideram a prova mais difícil do ciclismo, e que muitos consideravam que alguém com a morfologia do ciclista esloveno, jamais poderia ser competitivo ou aspirar a ganhar essa corrida.

O que é certo é que o Pogačar não entende de impossíveis, e nas últimas edições esteve bastante perto de cortar a meta em primeiro lugar no velódromo de Roubaix, ficando em segundo lugar perante ciclistas do calibre de Mathieu van der Poel e Wout van Aert. Certamente que no próximo ano, voltará a tentar a sua sorte, e ninguém poderá deixar de o considerar um dos grandes favoritos à conquista dessa lendária prova do ciclismo.

Mais impressionante ainda é a forma como conquistou tudo isto. Enquanto muitos campeões vencem pela força da estratégia e da contenção, Pogačar fá-lo através da criatividade.

Ataca quando ninguém espera, acelera onde os outros hesitam, transforma etapas aparentemente previsíveis em autênticos espetáculos e parece divertir-se genuinamente em cima da bicicleta. Corre sempre com um sorriso contagiante, como se nunca tivesse esquecido que, antes de ser campeão, foi um rapaz apaixonado por ciclismo.

É precisamente por isso que me custa compreender uma ideia que, de tempos a tempos, volta a surgir: a de que Pogačar “arruinou” um desporto tão competitivo como o ciclismo. Na minha perspetiva, aconteceu exatamente o contrário.

A narrativa de que Pogačar “estragou” o ciclismo nunca fez muito sentido na minha modesta opinião. Um campeão pode tornar uma competição previsível; não a torna menos bela. E, no caso de Pogačar, o seu estilo ofensivo fez precisamente o contrário: devolveu ao ciclismo um espetáculo que muitos sentiam perdido.

Os grandes campeões nunca diminuíram as suas modalidades: engrandeceram-nas. Michael Jordan não estragou a NBA. Roger Federer não estragou o ténis. Lionel Messi não estragou o futebol. E Tadej Pogačar não estragou o ciclismo.

O seu domínio, a sua personalidade cativante e o seu estilo ofensivo devolveram ao ciclismo uma capacidade rara de apaixonar quem já era fã e, talvez mais importante, de conquistar quem se tinha afastado da modalidade. Eu próprio sou um desses exemplos.

Depois do escandaloso caso de doping que envolveu Lance Armstrong, perdi grande parte da ligação emocional ao ciclismo. Durante anos, acompanhei a modalidade com muito menor entusiasmo. Foi Pogačar quem me fez voltar a ganhar esse interesse pela modalidade. Não apenas porque ganha, mas porque me faz sentir que cada etapa pode oferecer algo diferente.

Esse talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um desportista. Não apenas vencer. Fazer com que mais pessoas queiram voltar a ver o seu desporto.

E talvez por isso tenham sido ainda mais difíceis de compreender os constantes assobios que o esloveno voltou a receber ao longo desta edição do Tour.

É inevitável pensar que parte dessa hostilidade nasce da enorme frustração do público francês por continuar sem celebrar um vencedor da sua corrida desde Bernard Hinault, em 1985. Quatro décadas de espera ajudam a explicar um ambiente por vezes pouco acolhedor para quem domina a prova ano após ano.

Explicar, contudo, não significa justificar. Porque uma coisa é desejar fervorosamente que haja um campeão francês. Outra, muito diferente, é assobiar um atleta que apenas faz aquilo que qualquer desportista sonha fazer: competir melhor do que todos os outros.

Pogačar nunca desrespeitou o Tour, os adversários ou o público francês. Sempre demonstrou humildade nas vitórias, respeito nas derrotas e uma simpatia que raramente abandona o seu rosto. É um campeão que vence com um sorriso e que continua a tratar os rivais como companheiros de profissão, nunca como inimigos. Este Tour voltou a ser disso exemplo.

Na luta pela classificação geral, o belga Remco Evenepoel confirmou finalmente a evolução que tantos esperavam, alcançando um excelente segundo lugar e demonstrando que pode, no futuro, voltar a discutir Grandes Voltas até ao fim.

Logo atrás, surgiu um extraordinário Isaac del Toro, terceiro classificado e fiel escudeiro de Pogačar, numa demonstração de enorme maturidade. O jovem mexicano beneficiou também da confiança e da proteção do próprio Pogačar em momentos decisivos, um sinal da liderança serena que o esloveno exerce dentro da UAE Emirates.

Ainda mais surpreendente foi o Tour do francês Paul Seixas. Com apenas 19 anos, realizou uma prova memorável, discutiu os primeiros lugares da classificação geral e deixou no ar a sensação de que França poderá finalmente ter encontrado o sucessor que procura há tantos anos.

Na última semana, o espetáculo teve ainda outro protagonista. Richard Carapaz correu como poucos se atrevem a correr nos dias de hoje. Venceu duas etapas, conquistou a camisola da montanha e lutou praticamente até ao último quilómetro pela possibilidade de conquistar quatro etapas (!) no espaço de pouco mais de uma semana. Num ciclismo cada vez mais calculado, o equatoriano recordou-nos que o espectáculo continua bem vivo.

Nem tudo foram boas notícias. As quedas de Jonas Vingegaard e Florian Lipowitz retiraram à corrida dois protagonistas que poderiam ter enriquecido ainda mais a luta pela classificação geral. Particularmente no caso do dinamarquês, ficou sempre a sensação de que o grande duelo que todos aguardavam acabou por nunca acontecer, apesar de no momento da queda, já estar a mais de 2 minutos de Tadej Pogačar.

Também Juan Ayuso esteve muito longe do esperado. Aos 23 anos, deixou a UAE Emirates precisamente para liderar a equipa da Lidl-Trek, e enfrentar Pogačar de igual para igual. Terminou apenas na sétima posição, a mais de 17 minutos do antigo colega de equipa, numa prestação claramente abaixo do enorme potencial que continua a possuir.

Já a imagem mais arrepiante deste Tour aconteceu na 20.ª etapa. A queda de Sepp Kuss, numa descida enquanto rodava a alta velocidade, fez gelar milhões de espectadores. Apenas as redes de proteção impediram que o norte-americano caísse no vazio, evitando uma tragédia que poderia ter marcado para sempre esta edição da prova.

Mas, quando o Tour terminou, todas essas histórias acabaram inevitavelmente por convergir para uma só. A de um homem que continua a redefinir aquilo que julgávamos impossível.

Daqui a muitos anos continuar-se-á a discutir quem foi o maior ciclista de todos os tempos. Os defensores de Merckx apresentarão argumentos irrefutáveis. Os admiradores de Hinault, Indurain ou Anquetil farão o mesmo.

Mas uma coisa já ninguém poderá negar. Tadej Pogačar conquistou definitivamente o direito de se sentar à mesma mesa. E, para muitos (entre os quais me incluo) talvez já nem se sente ao lado deles. Talvez seja, simplesmente, o homem que pedala um pouco mais à frente.

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