
Fala-se dos treinadores.
Fala-se dos jogadores.
Fala-se dos presidentes, dos agentes, dos árbitros, da imprensa. Fala-se de tudo e de todos.
Mas há um tema que fica sempre pela metade.
Sempre em voz baixa. Sempre com rodeios.
A lealdade dentro de uma equipa técnica.
Uma equipa técnica não é uma lista de nomes num organigrama.
Não é um conjunto de pessoas que partilham o mesmo balneário e o mesmo salário.
É uma aliança. É um pacto.
Quando um treinador escolhe os seus adjuntos, não está só a contratar competência.
Está a escolher pessoas em quem confia a sua ideia de jogo, a sua metodologia, a sua forma de estar na profissão.
Está a abrir a porta de tudo aquilo que construiu ao longo de anos.
É um ato de confiança enorme.
Talvez um dos maiores que existe no futebol.
Temos ótimos exemplos de equipas técnicas que trabalham juntas há muitos anos e que têm sucesso.
É o caso da equipa técnica de Rúben Amorim ou de Rui Borges.
Estes treinadores têm homens ao seu lado, fiéis à sua ideia de jogo, leais há muitos anos nos percursos ascendentes dos seus treinadores principais.
Os adjuntos de Amorim e de Borges sabem que sem os seus treinadores principais não seriam nada nem ninguém no futebol.
Esse reconhecimento, essa gratidão e essa lealdade merecem todo o destaque e um aplauso.
Contudo, é exatamente por isso que a traição, quando acontece, dói de uma forma que vai muito além do profissional.
Existe um equívoco que o futebol alimenta há demasiado tempo.
O adjunto não é um assistente. Não é um segundanista. Não é alguém que existe para fazer o que lhe mandam e calar quando discorda.
Um adjunto é um treinador. Com licença, com formação, com opinião e com responsabilidade.
Que operacionaliza o treino. Que trabalha, quase sempre, muito mais do que o treinador principal.
A diferença é que escolheu, naquele momento, estar ao lado de outro treinador em vez de estar à frente de um projeto.
E isso devia ser uma escolha consciente, honesta e com convicção.
O problema é quando não é.
O problema é quando o adjunto aceita o lugar, tem de incorporar as ideias do principal, defender essas ideias em público, trabalhar com elas todos os dias.
Só que depois, quando assume o seu próprio projeto, apresenta ao mundo um futebol completamente diferente.
O que é que isso nos diz?
Diz-nos que nunca acreditou nas ideias do treinador com quem trabalhou.
Que foi conveniente. Que usou o lugar que lhe deram como trampolim e a confiança do principal como degrau.
Isso tem um nome. Não é ambição.
É oportunismo com máscara de lealdade.
Há exemplos que valem mais do que qualquer teoria.
Rui Faria esteve ao lado de José Mourinho durante catorze anos. Catorze!
Em Portugal e em Inglaterra, conquistaram tudo. Percorreu o mundo com ele, ganhou títulos em quatro países diferentes, recusou propostas para ficar.
Quando saiu, saiu com dignidade. E quando assumiu projetos como principal, foi fiel à escola onde cresceu.
Não traiu a ideia. Pode não ter tido o mesmo sucesso – e dificilmente o terá – mas foi honesto com o caminho que escolheu. Isso respeita-se.
Só que coloco a questão: Mourinho e Faria não continuariam os dois a ser mais fortes se tivessem continuado a trabalhar juntos?
Sem retirar mérito a quem acompanha Mourinho neste momento, não tenho a mínima dúvida de que Rui Faria fazia muita falta a Mourinho na sua equipa técnica no Benfica.
Vítor Pereira é outro exemplo que merece reflexão. Antes de ser adjunto do Porto já era treinador principal.
Quando voltou a ser principal, mostrou que tinha uma ideia própria. Incorporou a essa ideia algumas referências de André Villas-Boas.
Uma identidade. Não foi só o adjunto do outro.
Nunca ganhou tantos títulos como principal quantos ganhou no único ano em que foi adjunto.
Mas foi sempre treinador, mesmo quando estava ao lado.
Depois há outros.
Nuno Campos esteve anos ao lado de Paulo Fonseca.
Trabalhou as ideias dele, defendeu o modelo dele, construiu confiança dentro desse modelo.
Quando assumiu o Santa Clara e o Tondela como principal, o futebol que apresentou pouco tinha a ver com o que fazia ao lado do Paulo.
Resultado? Poucos momentos de sucesso.
Teve de voltar a ser adjunto no Toluca do México, foi para os sub-20 do Flamengo e está agora no Zalaegerszeg da Hungria – que, diga-se de passagem, não é propriamente o campeonato mais competitivo do mundo.
E porque fiz este relato? Porque muito provavelmente, mesmo com a vontade que o Nuno teve de sair da sombra, continuou em parte nela.
Tudo isto levanta perguntas simples: acreditava mesmo nas ideias de Paulo Fonseca? Ou estava apenas à espera da sua vez? Está melhor na Hungria como principal ou estaria melhor em França como adjunto no Lyon?
Vítor Bruno é talvez o caso mais mediático dos últimos tempos. Anos ao lado de Sérgio Conceição no Porto. Anos a defender um futebol intenso, agressivo, emocional, muito colado à personalidade do Sérgio.
Quando assumiu o lugar, o futebol mudou. Notou-se falta de ideias. Notou-se falta de liderança.
A equipa desorientou-se. Os resultados falaram.
E para mal dos adeptos do FC Porto e do próprio Vítor Bruno, a direção do clube achou que até o Martín Anselmi faria melhor!
E ficou a dúvida que ninguém diz em voz alta mas toda a gente pensa: ele acreditava mesmo naquilo que o Sérgio Conceição fazia, ou estava a fazer o papel que lhe cabia enquanto esperava?
Uma coisa é certa: perdeu um amigo que lhe deu a mão. Sérgio jamais quererá ouvir falar do nome de Vítor Bruno.
Hoje, o Sérgio está nas Arábias a rechear a conta bancária.
Já o Vítor Bruno está no desemprego. E tenho as minhas dúvidas sobre quando terá uma nova oportunidade como treinador principal.
Tenho ainda mais a certeza de que dificilmente alguém o quererá como adjunto.
Não estou com isto a querer julgar nenhum destes nomes nem a dizer que todos foram desleais.
Estou a dizer que o futebol que mostraram, quando foram treinadores principais, levanta perguntas legítimas sobre o que realmente pensavam e compraram quando eram adjuntos.
E essas perguntas importam.
Arteta no Arsenal e Carlos Vicens no SC Braga também foram adjuntos de Pep Guardiola.
Mas quando vemos o Arsenal e o SC Braga a jogar, há claros comportamentos na ideia de jogo dessas equipas que têm semelhanças com as equipas de Pep Guardiola.
E aí temos a prova de quando alguém é fiel e leal a um processo.
Podem continuar sem ganhar tanto como ganharam com Guardiola.
Mas acabam por ter sucesso porque sabem ser especialistas numa coisa que só alguns treinadores conseguem ser: bons “ladrões” de boas ideias.
Há uma coisa que os adjuntos de sucesso carregam sempre: o rótulo.
E infelizmente no mundo do futebol é muito fácil criar e colar rótulos:
“O adjunto do Mourinho.” “O adjunto do Conceição.” “O adjunto do Fonseca.” Ou até “o tipo que entrou num programa de televisão.”
Para alguns, um rótulo é uma medalha. Para outros, é uma prisão.
E no futebol, é mais fácil criar um rótulo do que reconhecer mérito a quem o tem.
É nessa distinção que se percebe muito sobre o caráter de uma pessoa. Sobre a certeza de quem somos e do que queremos.
Os que lidam bem com isso percebem que estar ao lado de um grande treinador não diminui ninguém. Percebem que aprender com os melhores é um privilégio, não uma derrota.
Percebem que há treinadores que vão ganhar muito mais títulos como adjuntos do que alguma vez ganhariam como principais. E estão em paz com isso.
E depois há os outros. Os que não lidam bem e deixam o ego falar mais alto do que a inteligência.
Querem o lugar principal não porque estão prontos. Querem-no porque não suportam o rótulo ou o facto de estarem na sombra de um treinador principal.
Porque acham que merecem mais. Porque querem o protagonismo. Porque isso não é amor ao treino. Não é amor ao futebol. Não é só ambição.
Confundem ambição com vaidade e pressa com preparação.
E quando chegam ao lugar que tanto queriam, muitas vezes descobrem que o problema não era o rótulo.
O problema era eles: não estavam preparados, não eram capazes, não estavam à altura dos desafios.
Mas há uma coisa ainda pior do que o adjunto que não acreditava nas ideias do principal. É o adjunto que fica quando o principal sai.
Em clubes onde fui eu que escolhi os meus adjuntos, onde fui eu que bati à porta e disse “quero-te comigo”, onde fui eu que os apresentei, que os defendi, que os protegi dentro e fora do balneário, houve quem, depois da minha saída, tenha ficado.
Uns no meu lugar. Outros a continuar como adjuntos de quem veio a seguir.
E percebo que há quem leia isto e diga: “mas isso é o futebol.”
É. O futebol é assim. Mas o futebol ser assim não obriga ninguém a ser assim dentro do futebol.
Há uma linha entre sobreviver numa indústria difícil e trair quem te deu a mão. Essa linha existe.
E quem a atravessa sabe muito bem o que fez.
Eu também já fui adjunto, e saí sempre que o meu treinador principal saiu.
Também já saí de uma equipa técnica como adjunto porque não me identificava com o treinador principal.
Pode acontecer – é legítimo.
O que não é legítimo é continuarmos a trabalhar como adjuntos e fazermos um frete à espera que as coisas corram mal ao treinador principal.
Por isso, quando isso aconteceu comigo, eu saí. Não fiquei a minar o trabalho do treinador que me deu a mão. Saí e fui à minha vida.
Há uma verdade que o futebol tarda em aceitar.
Nem todos os bons adjuntos são bons principais. E não há nada de errado nisso.
Há pessoas que têm um talento extraordinário para ler o jogo ao lado de outro, para complementar uma ideia, para gerir o balneário por dentro enquanto o principal gere o exterior.
Pessoas que tornam um projeto melhor só por estarem lá. Pessoas insubstituíveis.
Essas pessoas valem ouro. Mas o futebol não as trata assim.
O futebol olha para elas como para alguém que ainda não chegou lá.
Como se ser adjunto fosse um estado temporário, uma fase de espera, uma sala de entrada para o lugar “a sério.”
Não é. Ser um grande adjunto é uma profissão.
E não é para todos. É uma identidade. É uma escolha que merece tanto respeito como qualquer outra.
O problema é que poucos têm a honestidade e a maturidade de o reconhecer em si próprios.
Por último, quero deixar uma palavra a todos os treinadores adjuntos que são leais.
Aos que entraram com convicção e saíram com a cabeça erguida.
Aos que defenderam as ideias mesmo quando discordavam, porque perceberam que um projeto técnico não é uma democracia, é uma direção.
Aos que nunca puseram o seu nome à frente do coletivo.
Aos que, quando saíram, saíram a falar bem de quem os escolheu.
Esses existem. Eu conheci alguns.
Trabalhei com eles. E guardarei sempre esse tempo com respeito.
A eles, o reconhecimento que merecem mas que raramente recebem.
Porque no futebol, como na vida, a lealdade não faz barulho.
É silenciosa, consistente e real.
E é exatamente por isso que se nota tanto quando falta.

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