
Foto: Julio Cortez/AP
Há derrotas que surpreendem. E há derrotas que apenas confirmam aquilo que há muito parecia inevitável. A eliminação de Portugal nos oitavos de final do Mundial de 2026 pertence claramente à segunda categoria.
Não foi um acidente de percurso. Não foi uma noite infeliz diante de uma excelente seleção espanhola, mas que não está pletórica como esteve no Euro 2024. Foi apenas o culminar lógico de um ciclo que, apesar da enorme qualidade individual dos seus jogadores, nunca conseguiu transformar-se numa verdadeira equipa.
O mais simbólico é que escrevo este artigo precisamente no ano em que se assinalam dez anos da conquista do Euro 2016. Aquela noite de Paris continua a ser o maior momento da história do futebol português. Uma seleção que talvez não fosse a mais talentosa da Europa encontrou na união, no espírito competitivo e numa identidade muito própria as armas para conquistar um título que parecia impossível.

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Dez anos depois, Portugal apresenta um dos plantéis mais talentosos da sua história, mas não sou daqueles que digo que esta é a geração de ouro da nossa selecção.
Primeiro, porque não tenho memória curta e recordo-me muito bem daquela seleção fantástica do Euro 2000, que só sucumbiu nas meias-finais perto do fim contra a França campeã do mundo de Zidane e companhia, quando ainda havia a regra do Golo de Ouro.
Depois, porque linha a linha, a nossa selecção do Euro 2004 não fica assim tão atrás desta selecção. Tínhamos um dos melhores defesas-centrais de todos os tempos em Ricardo Carvalho, tínhamos a espinha dorsal de um FC Porto campeão europeu, com aquele extraordinário e muito complementar trio de meio-campo Costinha, Maniche e Deco, e na frente tínhamos o ainda extremo Cristiano Ronaldo (naquela que para mim foi a sua melhor versão em fases finais de competições de selecções, e isso foi há 22 anos, o que não deixa de ser sintomático), um craque como Luís Figo e Pauleta, um dos melhores marcadores da história do nosso país. No banco, tínhamos ainda Rui Costa, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Hélder Postiga, entre outros…
E essa geração pode não ter ganho nenhum título (tal como o nosso capitão egocêntrico fez questão de referir uma vez mais num timing bastante inoportuno), mas chegou a uma final de um Europeu e a umas meias-finais de um Mundial, instância da prova a que não chegamos há 20 (!) anos. E devemos reflectir sobre isto.
Apesar do inegável talento, Portugal foi uma das seleções menos reconhecíveis e que menos transmitiu neste Mundial. Por exemplo, em contraste com a seleção das quinas, emocionou-me ver como Cabo Verde quase vergou a atual campeã mundial, Argentina, e para além da sua qualidade de jogo, o seu percurso jamais será esquecido pela solidariedade, atitude e amor pelas suas cores que todos os seus jogadores demonstraram nesta competição.
À nossa selecção nacional, talento nunca faltou. Faltou sempre algo muito mais difícil de construir: uma identidade.
Portugal chegou aos oitavos de final. Mas fê-lo sem convencer praticamente ninguém. Empatou frente à República Democrática do Congo numa exibição que já havia apresentado sinais bem alarmantes, mas que quase todos desvalorizaram (eu não me incluo nesse rol).
Cumpriu a obrigação diante de um Uzbequistão (que teve o condão de fazer com que as pessoas embandeirassem em arco e já voltassem com o sonho utópico de ver Portugal campeão do mundo) que terminou entre as seleções mais frágeis da competição, sofrendo 11 golos em apenas três encontros.
E voltou a deixar uma imagem profundamente preocupante diante da Colômbia. O empate acabou por saber a pouco para os cafeteros. Na verdade, soube até a injustiça para os colombianos. Foram infinitamente superiores durante largos períodos e mereciam claramente ter vencido, algo que só não aconteceu porque com a nova regra absurda do fora-de-jogo (que desvirtua o futebol), há lances que podem ser anulados pelo adiantamento da ponta de uma bota.
Se Portugal chegou aos oitavos-de-final depois de derrotar a Croácia num encontro de contornos dramáticos, deve-o sobretudo a um momento de inspiração de Gonçalo Ramos (utilizado durante menos de sessenta minutos em todo o torneio, numa gestão difícil de compreender) e, acima de tudo, às extraordinárias exibições de Diogo Costa.
E isso diz praticamente tudo. Quando o melhor jogador de uma seleção candidata ao título é o guarda-redes, dificilmente estaremos perante um Mundial conseguido. Diogo Costa foi gigantesco. Provavelmente o melhor guarda-redes da competição.

Mas nenhum guarda-redes consegue esconder indefinidamente uma equipa sem ideias.
Roberto Martínez falhou. Falhou na leitura dos jogos. Falhou nas substituições. Falhou na gestão do plantel. Falhou, sobretudo, na construção de uma identidade coletiva. Não me recordo de um jogo em que Portugal tenha jogado de acordo com o potencial destes jogadores e de uma geração fantástica sob o comando do seleccionador espanhol.
A história repetiu-se. Na Bélgica, conduziu uma geração absolutamente extraordinária (essa sim, a geração de ouro do futebol belga), e nunca conseguiu transformá-la numa campeã.
Em Portugal, voltou a acontecer exatamente o mesmo. As fases de qualificação foram excelentes. Mas isso pouco significa quando chegam os Europeus e os Mundiais. Porque é aí que se avaliam os grandes selecionadores.
É verdade que conquistou a Liga das Nações (que digam o que disserem, não tem e nunca terá o peso, prestígio e importância de um Europeu ou de um Mundial). Mas mesmo nessa caminhada já existiam sinais preocupantes. Na final frente à Espanha, por exemplo, voltou a cometer um erro difícil de explicar ao adaptar João Neves a lateral-direito, permitindo que Nico Williams criasse inúmeros problemas durante toda a primeira parte.
Felizmente para Portugal, corrigiu a tempo porque a Espanha não conseguiu aumentar a vantagem no marcador, e Portugal conseguiu reentrar na discussão do resultado. E sobretudo, conseguiu esse título porque apareceu um Nuno Mendes absolutamente gigantesco.
O lateral-esquerdo português anulou praticamente Lamine Yamal (então o jogador em melhor forma do futebol mundial), e mudou completamente a história desse encontro.

Depois, como tantas vezes aconteceu durante este ciclo, Diogo Costa voltou a aparecer nas grandes penalidades. Mas um jogo nunca poderia esconder problemas estruturais que voltaram agora a surgir da forma mais evidente possível.
Chega inevitavelmente o momento mais delicado. Falar de Cristiano Ronaldo exige respeito. Exige memória. Exige gratidão. Estamos a falar do maior futebolista português de todos os tempos.
De um jogador que redefiniu aquilo que parecia possível alcançar. Seis Campeonatos do Mundo disputados. Cinco Bolas de Ouro. Centenas de golos. Uma longevidade absolutamente irrepetível e alguém que aumentou a nossa dimensão competitiva. Nada disto será alguma vez apagado.
Mas também não pode impedir uma análise honesta e objectiva. Cristiano continua a ser uma das peças desta seleção. Já não é a engrenagem.
Nem pode continuar a ser tratado como tal. A sua utilização foi claramente excessiva para um jogador de 41 anos, que perdeu muitas das faculdades que o tornaram num dos melhores jogadores de sempre. Neste Mundial, condicionou demasiados momentos do jogo português e retirou mobilidade ofensiva a uma equipa que precisava precisamente do contrário.
Também na liderança continua a existir uma diferença importante entre estatuto e influência.
Cristiano é o capitão da Seleção Nacional. Mas neste Mundial voltou a ficar a clara sensação de que a liderança emocional da equipa nunca foi verdadeiramente assumida dentro de campo nos momentos de maior adversidade. Gratidão eterna nunca deverá significar subserviência. Nenhum jogador (independentemente da dimensão da sua carreira e estatuto) pode colocar-se acima dos interesses da Seleção Nacional.
Ainda assim, seria profundamente injusto transformá-lo no principal culpado. Não é. É apenas um dos responsáveis. Como todos os outros. Como Roberto Martínez. Como a Federação. Como vários jogadores que ficaram muito longe do rendimento esperado (Bruno Fernandes e um esgotado Vitinha à cabeça dessas desilusões).
Também aqui Martínez deixa muitas perguntas sem resposta. Como explicar que Gonçalo Ramos tenha jogado menos de uma hora em todo o Mundial? Porque não existiu espaço para Gonçalo Guedes? Porque Francisco Trincão voltou a ser utilizado de forma residual? Porque Gonçalo Inácio desapareceu das opções?
Ao mesmo tempo, houve notas positivas. Renato Veiga confirmou enorme personalidade. Nuno Mendes voltou a demonstrar porque é um dos melhores laterais do planeta, até o desgaste físico já não lhe permitir manter o mesmo nível. João Félix deixou bons apontamentos. Rafael Leão voltou a desequilibrar sempre que encontrou espaço. Francisco Conceição trouxe irreverência.
Mas foi pouco. Muito pouco para uma geração desta qualidade. Também Vitinha e Bruno Fernandes realizaram um Mundial claramente abaixo das expectativas. Dois jogadores chamados a assumir o controlo da equipa desapareceram demasiadas vezes. Portugal precisava deles. Nunca os encontrou verdadeiramente.
Houve, no entanto, algo que me incomodou particularmente. Durante semanas ouvimos praticamente todos os elementos da comitiva repetir a mesma frase “Vamos ganhar este Mundial pelo Diogo Jota.” É uma homenagem bonita. É compreensível. É humana.
https://www.instagram.com/reel/DLpOCrrqn0k/?igsh=Y3JoaW1tcjUwcGNo
Mas as competições não se ganham com discursos. Ganham-se com atitude. Com coragem. Com intensidade. Com espírito competitivo. O malogrado Diogo Jota representava exatamente isso. Corria a todas as bolas. Pressionava. Nunca desistia de um lance. Era um guerreiro. Infelizmente, poucas vezes vimos esse espírito refletido no comportamento coletivo da Seleção. As palavras emocionam. Mas só as ações convencem.
O nome mais forte e oficial no momento em que disseco esta paupérrima participação de Portugal para suceder a Roberto Martínez, é o de Jorge Jesus.

Currículo não lhe falta. As suas equipas sempre apresentaram uma identidade muito própria e um grande sentimento de pertença. Praticaram, regra geral, um futebol ofensivo, intenso e facilmente reconhecível. Precisamente aquilo que Portugal nunca conseguiu construir neste ciclo.
Mas a Seleção coloca desafios completamente diferentes. Jorge Jesus nunca treinou uma seleção. Nunca trabalhou com um grupo composto por alguns dos melhores jogadores do mundo nas respetivas posições.
E sobretudo nunca teve de construir um modelo de jogo com apenas alguns dias de treino por ano. Ora, sempre foi precisamente aí que residiu uma das maiores virtudes do treinador português: o trabalho diário, repetitivo e extremamente detalhado.
Haverá depois um dossiê inevitável: Cristiano Ronaldo. Foi precisamente Jorge Jesus o último treinador de clube do capitão português. Será interessante perceber como fará essa gestão. Porque essa decisão poderá definir não apenas o futuro de Cristiano na Seleção, mas também o início de um novo ciclo do futebol português.
Também Pedro Proença saiu fragilizado deste Mundial. As suas declarações após a eliminação “Esta não era a nossa escolha, mas assumimo-la.”, revelam um preocupante desnorte institucional.
Se Roberto Martínez nunca foi verdadeiramente a escolha da atual direção, então por que motivo permaneceu independentemente de ter ganho a Liga das Nações?
Uma seleção precisa de estabilidade. De liderança. De coerência. Nada disso parece existir atualmente. E os jogadores sentem-no. Muito mais do que se imagina.
Portugal continuará a produzir grandes futebolistas. Disso ninguém duvida. O verdadeiro desafio será finalmente construir uma equipa à altura desse talento.
Porque gerações passam. Treinadores mudam. Lendas retiram-se. Mas os Mundiais não esperam por ninguém. Este não foi apenas o fim de uma campanha dececionante.
Foi o fim de um ciclo que, durante demasiado tempo, viveu mais da esperança do que das evidências. E, olhando para trás, talvez nunca tenha existido título mais apropriado.
Foi, simplesmente, a crónica de uma morte anunciada.

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