
Foto site PSG
O Paris Saint-Germain voltou a conquistar a Liga dos Campeões. E desta vez, ao contrário do que aconteceu em tantos anos de investimento milionário, estrelas mediáticas e expectativas desmedidas, a conquista parece surgir de forma natural. Como consequência lógica de um projeto bem pensado, bem treinado e executado por uma equipa que sabe exatamente o que quer fazer dentro de campo.

Esta é, acima de tudo, uma vitória de Luis Enrique. Se havia dúvidas sobre quem é atualmente o melhor treinador do mundo, esta campanha europeia encarregou-se de as dissipar. O técnico espanhol pegou num conjunto de excelentes jogadores e transformou-o numa verdadeira equipa. Uma equipa com identidade, personalidade e uma ideia de jogo reconhecível do primeiro ao último minuto.
A final de Budapeste foi mais uma demonstração disso mesmo. Perante um Arsenal que construiu a sua caminhada europeia assente numa organização defensiva de elevado nível, o PSG não se desviou um milímetro dos seus princípios. Manteve a posse, controlou os ritmos da partida, pressionou alto e assumiu sempre a iniciativa do encontro.
É verdade que na primeira parte, os londrinos conseguiram manietar as investidas atacantes do quadro parisino, mas também não é menos verdade de que o PSG não perdeu a paciência, e não entrou em pânico apesar de ter sofrido um golo madrugador de Kai Havertz (6′). Os comandados do técnico espanhol Mikel Arteta viam-se perante o cenário perfeito para o plano de jogo (se é que podemos apelidar dessa forma aquilo que os gunners praticaram nos últimos meses da temporada), que queriam levar a cabo.
Nem sequer a ausência de Gianluigi Donnarumma, uma das grandes figuras da conquista da edição anterior, alterou a estrutura da equipa. Safonov (que ganhou o lugar de Lucas Chevalier, que havia sido contratado por pedido expresso de Luis Enrique para suprir a saída do guardião italiano), entrou no onze e o funcionamento coletivo manteve-se praticamente inalterado. Talvez não exista elogio maior para um treinador.
O mais impressionante nesta equipa parisiense é precisamente a sua consistência coletiva. Não depende de um jogador, nem de um momento isolado de inspiração. Todos sabem o que fazer, quando fazer e porque fazer.
E Portugal tem razões para olhar para esta conquista com particular orgulho. Nuno Mendes voltou a demonstrar que é um dos melhores laterais do futebol mundial. Vitinha continua a afirmar-se como um dos médios mais influentes da atualidade. João Neves confirmou o crescimento meteórico dos últimos anos e Gonçalo Ramos voltou a fazer parte de um plantel vencedor ao mais alto nível europeu.
Quatro portugueses campeões europeus numa equipa que se tornou referência continental pela qualidade do futebol praticado. Do outro lado ficou um Arsenal que continua a adiar o sonho europeu.

Vinte anos depois da dolorosa derrota diante do Barcelona, em Paris, os londrinos voltaram a falhar o momento mais importante da sua história recente. Desta vez em Budapeste, mas novamente perante uma equipa francesa associada ao nome da capital francesa. Os adeptos londrinos vão começar a ter pesadelos sempre que ouvirem o nome “Paris”.
E a verdade é que os sinais de alerta já vinham sendo evidentes. Ninguém pode negar o excelente trabalho realizado por Mikel Arteta. O Arsenal voltou a conquistar a Premier League mais de duas décadas depois e recuperou definitivamente o estatuto de candidato aos grandes títulos.
Mas também é legítimo questionar o caminho escolhido para lá chegar. A equipa que um dia encantou a Europa sob o comando de Arsène Wenger transformou-se numa equipa muito mais pragmática, muito mais calculista e, em muitos momentos, excessivamente dependente da sua organização defensiva e das bolas paradas ofensivas, tremendamente consentidas por permissivas equipas de arbitragem ao não punirem claras infracções dos jogadores do Arsenal sobre as linhas defensivas adversárias, nomeadamente os guarda-redes.
A consistência trouxe resultados. Trouxe o título inglês, certamente o troféu mais desejado pelos adeptos arsenalistas.
Mas retirou parte da identidade que tornou o Arsenal uma das equipas mais admiradas do continente. Numa final da Liga dos Campeões, é difícil aceitar que um campeão inglês termine com apenas 25% (!) de posse de bola. Não se trata apenas de estatística. Trata-se de uma questão de ambição competitiva.
O Arsenal pareceu entrar em campo mais preocupado em sobreviver ao PSG do que em derrotá-lo. E perante uma equipa tão confortável com bola como esta versão dos parisienses, essa postura acabou por ser fatal.
No prolongamento, os gunners só decidiram atacar nos últimos cinco minutos do prolongamento, com um PSG já estourado fisicamente e que acabou o jogo sem Marquinhos, Vitinha, Fabián, Kvaratskhelia (justíssimamente eleito o melhor jogador da competição) e Dembelé em campo. Nem assim, o Arsenal adoptou uma postura mais atacante, vendo-se que estavam claramente à espera das grandes penalidades.
No final, o desempate por grandes penalidades sorriu à equipa que quis jogar. Venceu a equipa que assumiu riscos. Venceu a equipa que acreditou nos seus princípios até ao último minuto.
E venceu, acima de tudo, o futebol. O futebol sobrepôs-se ao calculismo.
Porque esta Liga dos Campeões ficará para a história não apenas pelo bicampeonato consecutivo do Paris Saint-Germain, mas pela confirmação de que, mesmo na era dos resultados imediatos, continua a haver espaço para projetos construídos com ideias, identidade e coragem. Luis Enrique não ganhou apenas mais uma Champions. Construiu uma obra-prima.

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