
Começo por agradecer ao craques.pt o convite para esta parceria e pelo espaço aqui que me deu.
Enche-me de orgulho e felicidade, esta oportunidade de ter uma crónica semanal de opinião sobre o fenómeno que é a maior paixão da minha vida: o futebol.
Espero estar à altura da confiança em mim depositada.
Espero que as palavras que por aqui for deixando, façam pensar, debater e, quem sabe, também por vezes, incomodar um pouco.
É para isso que a opinião existe!
E é por tudo isso que também gosto de ter a oportunidade deixar a minha.
Escrevo como treinador. Não como comentador. Escreverei sempre como alguém que vive o futebol e que o conhece em Portugal nas suas raízes mais profundas.
E é precisamente esse futebol raiz que eu quero escrever neste primeiro artigo.
O futebol no seu estado mais puro, onde se faz muitas vezes contas e orçamentos com folhas básicas de Excel ou em papel das mesas de um restaurante, com voluntários, com pessoas que trabalham a custo zero, por amor, por carolice, com diretores que tiram dinheiro do próprio bolso para ajudar os clubes das suas terras e com clubes que numa indústria cada vez mais virada para o negócio, sobrevivem como podem por amor ao emblema e à camisola…
E neste primeiro artigo, é exatamente nesse tema que gostava de começar a falar.
Quando se olha friamente para os números, percebe-se uma coisa: o problema do futebol português não é falta de talento. É estrutural.
Recentemente fiz um exercício e comparei a quarta divisão do futebol português (Campeonato de Portugal organizado pela Federação Portuguesa de Futebol) com a divisão equivalente do futebol dos nossos vizinhos espanhóis (2.ª RFEF, organizada Real Federação Espanhola).
Em Espanha, os custos federativos para os clubes (inscrição da equipa, inscrições de jogadores, seguros, organizações de jogos, etc…) ficam a rondar um valor entre os 15.000 e os 26.000 euros por época a cada clube.
Comparativamente, em Portugal, o clube têm de desembolsar entre 24.000 e 38.000 euros por época. A variação destes números poderá ser maior ou menor consoante o número de atletas inscritos, número de jogos realizados, entre outros factores…
E atenção, que em Espanha, o número de jogos por época que as equipas da 2.ª RFEF fazem, é bem superior ao número de jogos que as equipas portuguesas fazem no Campeonato de Portugal, fruto das diferenças dos dois quadros competitivos das duas competições.
Ou seja, competir menos jogos, num país mais pequeno geograficamente, custa sempre mais caro que num país como Espanha, com mais população, onde a população acaba por ter um salário mínimo mais alto, onde os clubes têm mais gente nas bancadas, e consequentemente mais receitas.
Em Portugal, quando é para tramar o “Zé Povinho” e os “pequeninos”, somos sempre os primeiros a copiar os maus exemplos da Europa e pelo mundo fora…
Mas depois não copiamos a sustentabilidade e as coisas boas dos outros países também, porquê?
Se eles conseguem, porquê que nós não conseguimos?
O Estado “assobia para o lado…” e faz de conta que nem sabe que o IVA em Portugal para os bilhetes em eventos desportivos é de 23%.
Em Espanha temos o IVA a 10%.
Num cenário bom de um jogo com 4.000 espectadores, só em IVA os clubes acabam por perder milhares de euros por jogo.
São dezenas de milhares de euros por época.
Só em IVA. Para o Estado. Que nada faz.
Que em pouco ou nada contribui para que o futebol dos clubes mais modestos, seja valorizado.
E num futebol onde cada euro conta, isto dos impostos que são cobrados aos clubes das divisões inferiores não é apenas um pormenor.
É um problema grande. É real. É sufocante.
Existe depois a ideia de que um clube do CP ter a “sorte” de jogar com um clube grande na Taça de Portugal resolve uma época.
Muitos acham que é como se fosse um Euromilhões que vai salvar o clube do Campeonato de Portugal. Não é.
Os números dizem-nos outra coisa.
Vamos a contas:
A receita total de um jogo desses, se for no Estádio do clube grande da 1.ª Liga, ultrapassa os 300.000 euros. Alegadamente, esse valor seria a dividir pelos dois clubes.
Ou seja, 150.000 euros para a grande maioria dos clubes do Campeonato de Portugal seria o orçamento de uma época.
O problema é que o clube do Campeonato de Portugal, no final de todas as contas, apurando todas as despesas, recebe apenas cerca de 60.000 euros. E relembro… tem de conseguir fazer 300.000 euros de receita de bilheteira no jogo, o que não são todos os jogos da Taça de Portugal que conseguem!
O resto do dinheiro? Então, esse vai para taxas, policiamento, segurança, arbitragem, fundos sem fundamento nenhum, organização e as mais variadas percentagens…
Ou seja, o “Euromilhões”, de apanhar um clube grande na Taça de Portugal, está muito longe do que as pessoas pensam!
Porque há demasiada gente a viver da receita de um único jogo. E também há que se arranjar forma de não se pagar os ricos tachos salariais que alguns personagens auferem nos órgãos que regem o futebol português.
Dizem por aí, hoje em dia, que para o futebol das divisões inferiores ter mais visibilidade, mais capacidade e outro vigor, seria importante as pessoas “defenderem o clube da sua terra ou cidade”. Concordo a 100%.
O problema é que muitas vezes há terras ou cidades com 30 ou 40 mil habitantes querem ter dois, três, quatro, cinco e algumas até chegam a ter seis clubes. E isso é um problema porque a população divide-se.
As empresas dividem-se. Os adeptos dividem-se.
Valia mais se unirem todos e terem um só clube. Forte. Com mais militância. Mais gente.
O resultado da ausência de gente nos estádios do Campeonato de Portugal, aparece nos números: em média entre 300 e 700 pessoas nos estádios.
Quando não são 20 ou 30.
Com bilhetes a preços de 5 euros, isso são entre 1.500 e 3.500 euros de receita por jogo.
E acreditem que já estou a ser otimista, porque são raros os clubes que fazem esses valores de receita de bilheteira em Portugal.
A receita de bilheteira, não chega sequer para pagar as despesas da organização do próprio jogo. E os adeptos ou as pessoas das cidades e terras desses clubes muitas vezes não têm essa noção. Todos dizem que gostam do clube.
Não falta paixão. Mas falta presença.
O que não falta depois é massa crítica.
Mas ela só aparece nas redes sociais.
Só no conforto dos teclados é que existe militância.
Depois, com todos estes problemas, lá aparecem os que são vistos como muitas vezes as “tábuas de salvação dos clubes”, que têm mais dificuldades para sobreviver neste mundo de escassez de recursos financeiros.
Aparecem então nos clubes os famosos “investidores”, a criarem SAD’s.
Aparecem com promessas.
Alguns deles quando chegam vêm iludidos e acreditam mesmo que o futebol português é uma mina. Outros, foram enganados e compraram um sonho que alguém lhes vendeu e acham que vão fazer muito dinheiro. Engano. Puro engano. Rapidamente, a maioria percebe que é sempre dinheiro a sair, que não há retorno direto nenhum.
Assistências baixas, custos altos, pouca bilheteira, quase nenhum merchandising, pouca gente para trabalhar, pouca organização, poucos recursos, muitas necessidades de melhoria seja ao nível das infra estruturas, seja ao nível dos recursos humanos, burocracias atrás de burocracias, etc…
Em Portugal, para um investidor investir num clube do Campeonato de Portugal e ter lucro, só tendo uma equipa muito forte e organizada com ele, que conheça o fenómeno e que saibam se mexer no mercado do futebol.
Isto porque hoje em dia, no estado atual das coisas, a única saída legal para um investidor ter lucro nas ligas não profissionais do futebol português, é dar contratos profissionais, de 3 ou 4 anos a jogadores e treinadores, investir e trabalhar no potencial desses jogadores ou treinadores, valorizar esses jogadores ou treinadores e conseguir vendê-los.
Mas isso é mercado!
E no mercado, só alguns chegam lá.
Só alguns o conseguem fazer.
Só alguns conseguem entrar no mercado dos milhões das ligas profissionais.
Fazer um jogador e vendê-lo por um milhão não é regra. É exceção. A esmagadora maioria não consegue. E sem vendas não há retorno.
E sem retorno, vão-se embora os investidores.
E ficam os clubes. Sem os investidores e muitas vezes com as dívidas que os investidores deixam.
Voltam a ficar só os emblemas e os clubes (quando não são obrigados a fechar portas).
Só com a sua história.
O seu passado.
As suas memórias.
E sem futuro.
Sendo franco convosco, se eu fosse investidor e olhasse para estes números, para esta realidade e para a maneira como a Federação tem tudo montado aqui, a pergunta é:
– Eu alguma vez investiria dinheiro nisto?
Neste futebol? No estado atual das coisas?
Nunca.
A não ser que gostasse de perder dinheiro, ou que visse isto apenas como um hobby.
Como negócio, como investimento a sério, não faz sentido nenhum investir neste futebol.
Portugal e o seu futebol têm talento.
Tem bons treinadores.
Tem bons jogadores.
Tem formação. Tem história.
Mas a base de tudo, que é o futebol de formação e os são clubes não profissionais, vivem sempre com a “corda na garganta”.
E na minha opinião, a grande culpada disso é quem organiza as competições.
Porque se aqui ao lado, em Espanha, um país com uma dimensão geográfica muito maior, a Federação consegue não estrangular os clubes com taxas, taxinhas e custos, como é que a nossa Federação é incapaz de fazer igual?
O futebol precisa de custos mais baixos, de incentivos fiscais para as empresas apoiarem novamente os clubes, de menos impostos aos clube, de menos fragmentação de clubes e de mais receita para quem organiza e para quem arrisca!
Enquanto isso não acontecer, vamos continuar a ver clubes a desaparecer, histórias e memórias de clubes a definhar, projetos a cair pelo caminho, investidores que não estão no futebol com boas intenções e o mais triste de tudo: as bancadas cada vez mais vazias de quem tanta falta faz nelas: adeptos.

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