Há títulos que se ganham com talento. Há títulos que se ganham com dinheiro. E há títulos que se ganham com algo que não se compra, não se treina e não se impõe. União. União em prol de uma causa. E o FC Porto foi campeão por isso.
O INÍCIO DE TUDO
A 5 de agosto de 2025, três dias antes do arranque do campeonato, Jorge Costa faleceu. Mas não faleceu num sítio qualquer. Faleceu no Olival. No centro de treinos onde treina a equipa principal do FC Porto. Depois de uma reunião. Tinha 53 anos. Uma paragem cardiorrespiratória levou uma das maiores figuras da história do clube, o eterno número 2, o capitão, o “Bicho” – antes de ver uma única bola rolar esta época.
Foto FC Porto
Em reunião com os jogadores, o presidente André Villas-Boas foi ao quadro e escreveu duas palavras: “Pelo Jorge.”
Toda a gente assinou. Jogadores, equipa técnica, staff, dirigentes. Toda a gente. Não foi um gesto de marketing. Foi um pacto. E um pacto, quando é real, tem um peso que dura noventa minutos por semana, durante dez meses. E isso viu-se em todos os jogos do FC Porto.
O QUE SIGNIFICA GANHAR ASSIM
Ironia do destino, o FC Porto sagrou-se campeão a 2 de maio – o mesmo número da camisola de Jorge Costa. Ninguém acredita que foi coincidência. Mas também ninguém precisou de dizer nada. A data falou por si. O futebol tem esta magia. Tem esta mitologia. E é por isso que o amamos tanto.
Farioli, encharcado de água e gelo pelos jogadores na conferência de imprensa após o título, não conseguiu esconder a emoção quando falou do homem com quem trabalhou e que perdeu ainda antes de o campeonato ter começado. O quadro onde escreveu Villas Boas, em breve irá para o Museu. E tornará imortalizado, para as gerações futuras, alguém que viverá para sempre nos corações de todos os portistas que o viram jogar. Jorge Costa era a mística e representava tudo aquilo que os adeptos e sócios do FC Porto gostam de ver num jogador e mais concretamente num capitão. Os jogadores, esta época, tentaram Ser Porto. E quando a mística de um clube é espelhada numa equipa, tudo fica mais fácil.
O FC Porto de 2025/2026, será sempre o retrato de uma equipa que encontrou na dor um motivo para ser mais do que a soma das suas partes.
A ÉPOCA QUE NINGUÉM ESPERAVA
Depois das invenções da época passada, erros de casting nas escolhas de treinadores e alguns jogadores, esta época ninguém. principalmente os rivais, esperavam que o FC Porto se apresenta-se tão forte. Mas a vitória em Alvalade, demonstrou que a equipa estava preparada. E foi uma época de constância.
O Porto assumiu a liderança à quarta jornada e nunca mais a largou. 27 vitórias, 4 empates, apenas uma derrota até agora, em 32 jornadas – no Casa Pia, a 2 de fevereiro. A melhor defesa da liga, com 15 golos sofridos. Um plantel que soube gerir a pressão sem nunca se expor desnecessariamente.
O FC Porto fez um grande investimento esta época, para tentar ser campeão. Reforços cirúrgicos e bem conseguidos. Com destaque para Froholdt, sempre a desiquilibrar. Não foi um título conquistado num sprint final. Foi um título construído tijolo a tijolo, jogo a jogo, durante uma temporada inteira.
O MÉTODO DE UM HOMEM QUE CHEGOU DIFERENTE
Francesco Farioli chegou ao Porto com 37 anos e sem títulos. Vinha do Ajax, onde tinha feito um trabalho interessante mas incompleto. Tinha falhado no fim. Havia dúvidas. Havia ceticismo. E eu continuo a achar que temos treinadores portugueses com muito mais qualidade. Farioli é mais novo do que eu, dois anos. Mas teve a sorte de ter tido oportunidades que eu (mesmo estando nos perfis do zerozero.pt como um dos 30 treinadores portugueses com o perfil mais procurado), e muitos outros treinadores portugueses não tivemos ao longo dos nossos percursos no futebol. E não estou a querer tirar competências ao italiano. Estou só a dizer que sinto que há muitos treinadores portugueses que seriam capazes de fazer o mesmo ou melhor. E eu serei sempre um defensor do treinador português.
Mas Farioli tem mérito. E não lhe quero retirar nenhum. Acabou por fazer com sucesso algo que todos os treinadores competentes são capazes: construiu uma equipa capaz de jogar como campeã. Não com deslumbramento, não com futebol de exibição. Com clareza, com organização, com uma linguagem coletiva que todos percebiam dentro e fora do campo. Com esquemas e estratégias matreiras. Bolas escondidas ou não. Toalhas roubadas ou não. Guarda-redes no chão para dar indicações ou não. Foi à Porto. Porque isso também faz parte do ADN do clube… E um treinador ter a capacidade de adaptar a sua forma de jogar à mentalidade e forma de estar de um clube é sagacidade.
Foto Fc Porto
Mas o ambiente que se criou naquele balneário ajudou. Jorge Costa, foi sempre o motivo maior. A força maior.
UNIÃO NÃO É PALAVRA. É COMPORTAMENTO.
No futebol fala-se muito de união. É uma das palavras mais usadas e menos praticadas do vocabulário desportivo. A maioria das equipas diz que está unida. Pouquíssimas realmente estão. E quando os jogadores estão unidos… é difícil de alguém conseguir bater uma equipa. Esta época, eu próprio, pessoalmente e enquanto treinador, tive bem essa noção e sensação. Estive em duas equipas. Numa havia uma união inabalável entre os jogadores. Um grupo fortíssimo. Na outra, quando cheguei, muitas vezes alguém dizia “Boa Tarde” no balneário e só tinha como resposta o eco da própria voz. Com o tempo, percebi que tinha que arranjar forma de tentar unir o grupo. Num trabalho que já deveria ter sido feito na pré-época. Aos poucos conseguiu-se e com isso os resultados também foram melhorando e aparecendo. E foi isso que também fez a diferença no FC Porto. Os jogadores quiseram estar unidos. Farioli e Villas Boas souberam levá-los todos para o mesmo caminho, rumo ao destino final.
Porque a união, faz a diferença em todos os momentos, mas acima de tudo, vê-se nos momentos difíceis. Vê-se quando um resultado adverso aparece, quando uma lesão baralha os planos, quando o ruído externo aumenta e o foco interno treme. Esta época do FC Porto foi uma aula sobre o que a verdadeira união produz. Os capitães de equipa foram dignos de o ser. Mas sempre sentimos que em todos os jogadores víamos um líder capaz de ser capitão!
Perderam um dos seus antes de começar. Carregaram essa dor e essa perda durante dez meses. Tinham de a tentar atenuar de alguma forma. E em vez de a deixarem pesar ou se deixarem ir abaixo com ela, fizeram dela combustível. E isso que separa uma equipa de um grupo de jogadores que partilham o mesmo balneário.
O LEGADO QUE FICA
O 31.º título do FC Porto não é só mais um número na história do clube. É o primeiro título de André Villas-Boas como presidente. O primeiro de Francesco Farioli como treinador principal num clube. O primeiro de uma geração de jogadores que agora volta à Champions, com tudo o que isso significa financeira e desportivamente para o clube.
Foto Fc Porto
Mas acima de tudo, é o título que o Dragão dedicou ao “Bicho”.
E há algo de profundamente humano – e profundamente futebolístico – numa equipa que encontra no luto a sua maior força.
Jorge Costa viu um minuto deste campeonato do Futebol Clube do Porto. Mas tenho a certeza, que esteve presente em cada um deles.