
Sheva – o roupeiro 'faz tudo' do Atlético Clube do Cacém
Chegou a trabalhar numa papelaria no Cacém, mas teve a oportunidade de ser roupeiro do Atlético Clube do Cacém em 2007. E não recusou. Mesmo com a barreira linguística que poderia afetar a sua relação com as pessoas, o pouco português que ‘Sheva’ consegue expressar foi sempre o suficiente para ninguém se esquecer dele. “Muitos pais e miúdos, que já não treinam cá, quando vêm com as equipas fazem uma festa por me ver”, explica, numa entrevista exclusiva ao Craques. Sheva – o roupeiro ‘faz tudo’ do Atlético Clube do Cacém.
Yevheniy Shutovskyy chegou a Portugal no ano 2000. Era, então, apenas um imigrante, com o propósito de ajudar a pagar os estudos do filho. “O meu filho estava a acabar a escola e precisava de dinheiro para a Universidade. Eu pensei em vir para cá 2 ou 3 anos para ganhar esse dinheiro”, afirmou. A verdade é que passou muito mais tempo do que isso.
Quando veio do país de origem, relembra as dificuldades que já se sentiam. “Quando a União Soviética acabou, muitos empregos acabaram. Havia muitos problemas com o trabalho, o dinheiro era pouco”, confessa. Por isso mesmo, resolveu imigrar e quando cá chegou, começou logo a trabalhar na Papelaria Fernandes, no Cacém. Mais tarde, ‘Sheva’ juntou-se ao Atlético Clube do Cacém, mas apenas como Técnico de Equipamentos em part-time.

Algum tempo depois, passou a trabalhar só no clube. Até que o convidaram para ser o guarda-campo, ficando, então, a morar dentro do recinto desportivo. Em 2014, a sua mulher Dara veio para Portugal. Para trás, também deixou os dois filhos, mas ambos licenciados e com o sentimento de missão concluída.
Hoje, aos 65 anos, Sheva é o ‘faz tudo’ do Atlético Clube do Cacém. Além de ser guarda campo e roupeiro, faz a limpeza do clube, pinta paredes, solda balizas, organiza o material e é, também, canalizador. Profissão que já tinha na Ucrânia. “Já estou cá há muito tempo e sei o que fazer. Aqui tem de se fazer tudo andar para a frente, não posso parar”, atira.

Além do trabalho rotineiro, o ucraniano ‘Sheva’ começou a ir aos jogos com a equipa sénior, logo na sua primeira temporada, em 2007/2008. Nesse ano, o clube chegou à Terceira Eliminatória da Taça de Portugal e disputou ainda a Terceira Divisão Nacional, que equivale aos dias de hoje, ao Campeonato de Portugal.
Relembra também os momentos, em tom de brincadeira. “Em Portugal (Continental) ia sempre, mas para fora não. Eu dizia a brincar com os miúdos, que a equipa vai de avião e eu vou lá ter de barco. Quando eu chegar lá, a equipa já voltou”, diz. Isto, porque nesse ano, os madeirenses Câmara de Lobos e UD Santana jogavam, então, no mesmo campeonato que o AC Cacém.

Com o tempo, foi fazendo parte da mobília do clube. O “velhote” Sheva, como se apelida, é conhecido pelo seu sentido de humor e, talvez por isso, tenha ficado marcado no coração de muitas pessoas que trabalharam no clube. “Havia um treinador que já não está cá há 5 ou 6 anos e sempre que é Natal, vem-me visitar”, refere com alguma emoção.
Com a sua Ucrânia a três dias de viagem de autocarro, Sheva relembra os bons momentos e as saudades da família. “Os meus netos ficam sempre à minha espera. E depois vamos à pesca na lagoa. Tenho tudo para descansar lá fora”, explica.

Agora, depois de 25 anos em Portugal, com 18 ao serviço do clube, Sheva alcançou o seu propósito e espera apenas, pela reforma para voltar à casa que construiu ao longo destes anos. “Tenho uma casa bonita de dois andares lá na Ucrânia”, concluiu, com orgulho, em entrevista ao Craques.

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