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Paris coroa finalmente um campeão adiado: Zverev ganha o seu primeiro Grand Slam

Foto: Reuters/Stephane Mahe

Paris coroa finalmente um campeão adiado: Zverev ganha o seu primeiro Grand Slam

Tiago CamposTiago Campos|

Há conquistas que representam anos de frustração, derrotas dolorosas, dúvidas e perguntas incómodas. O primeiro Grand Slam do tenista alemão Alexander Zverev é sintomático de tudo o que foi anteriormente elencado.

Depois de três finais perdidas, o alemão finalmente conquistou um título de Grand Slam. Foi em Roland Garros, onde havia perdido de forma dolorosa a final de 2024 diante do prodígio espanhol Carlos Alcaraz, e onde em 2022 tinha contraído uma grave lesão num jogo contra o “Rei” do court Philippe Chatrier: Rafael Nadal 14 (!) vezes vencedor deste torneio.

Com esta vitória, Sascha Zverev libertou-se do peso que o acompanhava há demasiado tempo: o de ser um dos melhores jogadores da sua geração sem um grande título para apresentar. A vitória sobre o italiano Flavio Cobolli numa final intensa e nem sempre bem jogada (apenas resolvida em cinco sets e após mais de 4h de jogo), permitiu-lhe finalmente sentar-se na mesa dos campeões de Grand Slam.

Campeão olímpico em Tóquio 2020, vencedor de múltiplos Masters 1000, sofreu variadíssimas críticas devido ao facto de nunca conseguir o que qualquer tenista de topo almeja: ganhar um Grand Slam.

E a verdade é que, independentemente das circunstâncias do torneio, ninguém lhe poderá retirar esse mérito. Mas também há que realçar que esta edição de Roland Garros deixa várias leituras interessantes.

Foto: Reuters/Benoit Tessier

A primeira é que Flavio Cobolli esteve muito mais perto do título do que o resultado final pode sugerir. O italiano realizou o melhor torneio da sua carreira e chegou à final sem qualquer complexo (apesar do natural nervosismo num primeiro set em que acusou a solenidade da ocasião) perante um adversário muito mais experiente. Durante largos períodos da partida, conseguiu disputar o jogo de igual para igual e houve momentos em que a final pareceu inclinar-se para o seu lado.

O terceiro set ficará provavelmente gravado na memória de Cobolli durante muito tempo. Com oportunidades para equilibrar o encontro e com 30-0 num jogo de serviço importante para igualar a cinco jogos, o italiano optou por soluções demasiado exuberantes, procurando golpes de grande espetáculo quando o contexto exigia pragmatismo. Foi aí que se percebeu a diferença entre um jogador extremamente talentoso e um jogador habituado a sobreviver aos momentos mais difíceis das grandes finais.

Zverev não foi necessariamente mais brilhante. Mas foi muito mais consistente. As falhas infantis que surgiram do lado italiano praticamente nunca apareceram do lado alemão.

E esse detalhe acabou por decidir grande parte da história da final. Há outro número particularmente revelador: Cobolli terminou a partida com apenas 52% de primeiros serviços. Numa final de Grand Slam, perante um dos melhores jogadores do circuito na resposta, isso é quase uma sentença. Zverev aproveitou cada oportunidade e castigou sistematicamente as segundas bolas do italiano.

Ainda assim, seria profundamente injusto reduzir o percurso de Cobolli à derrota na final. O italiano foi uma das grandes figuras deste Roland Garros e demonstrou que pertence definitivamente ao grupo de jogadores capazes de discutir os grandes títulos nos próximos ano. 

Se melhorar o seu serviço, e conseguindo ser mais pragmático sem que com isso perca o seu virtuosismo, poderá ser um jogador capaz de estar presente nas rondas finais dos Grand Slam muitas mais vezes, nomeadamente em Roland Garros, onde o seu jogo adequa-se perfeitamente à terra batida.

Do outro lado, estava um dos melhores servidores do circuito, que consegue vários pontos gratuitos “à custa” dessa pancada, novamente com uma percentagem acima de 70% de primeiras bolas durante o encontro.

Aguardemos para ver se uma vez tirada esta mochila das suas costas, se iremos conseguir ver um Zverev mais proativo, pois tem talento mais do que suficiente para ser bem mais agressivo do que passivo, sendo bastante incompreensível que só adopte um ténis mais ofensivo em apenas 15 pontos por jogo.

Mas se houve algo que este torneio mostrou, foi que o ténis masculino atravessa uma mudança geracional fascinante. A caminhada de Rafael Jodar até aos quartos-de-final, a explosão de João Fonseca e a maturidade competitiva demonstrada por Jakub Mensik confirmaram aquilo que muitos suspeitavam: a próxima geração está pronta para assumir o protagonismo.

Durante anos falou-se de um vazio após Djokovic, Nadal e Federer. Hoje esse vazio parece cada vez menos provável. João Fonseca (fantástico vitória sobre o campeoníssimo sérvio Novak Djokovic depois de estar a perder por dois sets a zero), continua a impressionar pela agressividade e personalidade competitiva.

Foto: Reuters/Guglielmo

Jakub Mensik voltou a demonstrar porque é considerado um dos maiores talentos da atualidade. E Rafael Jodar protagonizou uma campanha que o colocou definitivamente no radar do circuito, sendo o segundo jogador com mais vitórias este ano, só superado neste registo estatístico pelo incontestável número 1 mundial Jannik Sinner.

Mas este foi também um torneio marcado por vários acontecimentos inesperados. Matteo Arnaldi realizou o melhor Grand Slam da sua carreira, mas viu o sonho terminar de forma cruel. Um vírus obrigou-o a desistir poucos minutos antes da meia-final frente ao seu amigo e compatriota Flavio Cobolli, impedindo um duelo italiano que prometia ser um dos momentos altos da competição.

E depois houve o caso de Jannik Sinner. O italiano acabou eliminado de forma surpreendente após um colapso físico quando parecia ter o encontro completamente controlado (dois sets a zero e 5-1 no terceiro set), quando um golpe de calor devido às fortes temperaturas que se registaram em Paris na primeira semana do torneio, ditou a sua sentença e impediu-o de conquistar o torneio que o faria completar o Grand Slam de carreira aos 24 anos, algo que conseguiu o seu arquirrival Carlos Alcaraz com a conquista do Australian Open este ano. 

Sinner terá de melhorar nesse capítulo, caso queira ser competitivo e ainda mais dominador em todos os contextos e cenários. Talvez a sua tonalidade de pele e o facto de ter nascido numa zona montanhosa (na fronteira com a Áustria) e de ter passado do ski para o ténis, possa ter um grande impacto, mas irá necessitar de encontrar alguma solução, caso contrário ficará sempre vulnerável caso jogue em condições outdoor sob altas temperaturas.

Provavelmente, entrou para este torneio com a mesma probabilidade de vitória do que Rafael Nadal entrou por diversas vezes em Roland Garros. Sinner vinha de ganhar todos os Masters 1000 em terra batida (Montecarlo, Madrid e Roma), e numa sequência impressionante de mais de 30 vitórias consecutivas. 

Foi um dos momentos mais inesperados de uma edição particularmente caótica de Roland Garros, marcada por várias eliminações precoces de favoritos. No final, porém, todas as histórias acabaram por convergir para o mesmo homem: Alexander Zverev.

O alemão beneficiou de um quadro relativamente acessível quando comparado com outras edições? Sim. Encontrou o percurso mais difícil da carreira rumo a um Grand Slam? Provavelmente não.

Mas as oportunidades também fazem parte do desporto. E muitas vezes o mais difícil não é chegar à porta.

É conseguir atravessá-la. Depois de anos a bater nela, o germânico finalmente conseguiu. Paris tinha uma dívida para com um dos melhores jogadores da sua geração. E desta vez decidiu pagá-la. 

Depois de tantas quedas, Paris coroa finalmente um campeão adiado: Zverev ganha o seu primeiro Grand Slam.

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