Um talento geracional. Alguém que ajudou a mudar para sempre a dimensão do desporto que pratica: Alexia Putellas.
Aos 32 anos, a espanhola voltou a ser eleita a melhor jogadora do mundo e conquistou a terceira Bola de Ouro da carreira, depois dos triunfos em 2021 e 2022. Um prémio que confirma aquilo que há muito deixou de necessitar de confirmação: Alexia é uma das maiores futebolistas da história.
Mas esta terceira Bola de Ouro tem um significado diferente. Porque, desta vez, Alexia teve de voltar. Voltar depois de ter chegado ao topo. Voltar depois de uma das lesões mais temidas por qualquer futebolista. Voltar depois de praticamente dois anos sem conseguir ser aquela jogadora que dominara o futebol feminino mundial. E voltar quando muitos poderiam pensar que o seu tempo já tinha passado.
Alexia cresceu com uma bola nos pés e com o Barcelona no coração. Muito desse sentimento nasceu através do pai, Jaume Putellas, uma das figuras mais importantes da sua vida e a pessoa que a acompanhou durante grande parte do caminho enquanto era apenas uma criança apaixonada por futebol.
Essa ligação permanece, literalmente, marcada em Alexia. Nas costas tem tatuada uma fotografia na qual aparece ainda bebé, ao colo do pai e com uma bola do Barcelona.
📸 : Instagram (@archiveputellas)
Jaume morreu em maio de 2012. Alexia tinha apenas 18 anos. Dois meses depois, regressou ao Barcelona para iniciar aquela que se tornaria uma das maiores jogadoras história do clube.
O pai nunca chegou a vê-la representar a equipa principal do Barça. A perda foi tão dura que Alexia chegou a ponderar abandonar o futebol e regressar para junto da família. Continuou. Encontrou também no futebol uma forma de lidar com a ausência e começou a construir um percurso que, naquela altura, dificilmente alguém conseguiria imaginar.
Catorze anos depois, despediu-se do Barcelona como a maior figura da história do seu futebol feminino. Foram 507 jogos, 233 golos e 38 títulos.
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Mas os números, por mais impressionantes que sejam, contam apenas uma parte da história. Alexia tornou-se muito mais do que a capitã do Barcelona. Tornou-se um símbolo.
Canhota, elegante, cerebral e com uma capacidade invulgar para interpretar os espaços, desenvolveu um estilo imediatamente reconhecível. Recebe entre linhas, joga de cabeça levantada, aproxima-se da área, cria, assiste e marca.
Não precisa de correr mais do que todas as outras. Precisa de pensar primeiro. No seu melhor, parece saber aquilo que vai acontecer antes de a bola lhe chegar aos pés.
Foi essa Alexia que conquistou duas Bolas de Ouro consecutivas, em 2021 e 2022, e se tornou a principal figura de uma equipa do Barcelona que ajudou a transformar-se numa referência absoluta do futebol feminino mundial.
A influência, porém, ultrapassou aquilo que fez dentro das quatro linhas. Alexia tornou-se uma referência para uma geração de raparigas que cresceu num país onde, durante demasiado tempo, ser futebolista profissional parecia uma possibilidade reservada aos rapazes. Tornou-se uma das vozes mais reconhecidas do futebol feminino espanhol e uma figura incontornável na luta pela valorização e profissionalização da modalidade.
A menina que começou a jogar quando praticamente ninguém imaginava que uma mulher pudesse construir uma carreira desta dimensão no futebol transformou-se numa das caras mais reconhecidas do desporto feminino mundial. E quando parecia estar no ponto mais alto da carreira, tudo parou.
5 de julho de 2022.
Faltavam apenas três dias para a Espanha iniciar a participação no Campeonato da Europa quando chegou a notícia. Rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo.
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Alexia era a melhor jogadora do mundo. Chegava ao Europeu depois de uma época extraordinária e preparava-se para liderar uma seleção espanhola apontada como uma das candidatas ao título.
De um momento para o outro, deixou de poder jogar. Ficou praticamente dez meses afastada dos relvados e regressou em abril de 2023. Mas regressar a um campo não significa necessariamente voltar a ser a mesma jogadora.
No Mundial de 2023, conquistado pela Espanha, Alexia esteve presente, mas ainda longe da condição física e da influência que tivera antes da lesão. Fez parte da caminhada que terminou com o primeiro título mundial espanhol, mas já não era o centro daquela equipa.
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Entretanto, outra jogadora assumira esse espaço: a sua discípula Aitana Bonmatí. Companheira no Barcelona e na seleção, Aitana sucedeu precisamente a Alexia no topo do futebol mundial. Ganhou a Bola de Ouro em 2023, repetiu em 2024 e voltou a fazê-lo em 2025.
Três consecutivas. Parecia ter acontecido uma passagem definitiva de testemunho. Só que Alexia ainda não tinha terminado.
📸 FC Barcelona
A época 2025/26 devolveu ao futebol a melhor versão de Alexia Putellas. A ausência prolongada de Aitana Bonmatí abriu naturalmente mais espaço e responsabilidade dentro da equipa. Alexia aproveitou-os para recuperar protagonismo e, acima de tudo, para mostrar que ainda tinha futebol suficiente para voltar ao lugar onde já estivera. No topo.
Capitaneou o Barcelona numa temporada extraordinária, na qual a equipa conquistou quatro títulos, incluindo a Liga dos Campeões.
Na principal competição europeia, Alexia voltou a ser decisiva. Marcou sete golos, fez sete assistências e terminou a prova eleita como a melhor jogadora da edição.
Não era apenas a antiga Alexia a tentar recuperar o seu lugar. Era novamente uma das futebolistas mais influentes do mundo.
Também ao serviço da seleção espanhola voltou a assumir um papel determinante. Ajudou Espanha a conquistar novamente a Nations League e teve igualmente influência na campanha de qualificação para o Mundial de 2027, participando nos seis encontros da fase de qualificação, com dois golos e uma assistência.
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Quatro anos depois da lesão que ameaçou mudar definitivamente a trajetória da sua carreira, Alexia estava novamente no topo. E esta terceira Bola de Ouro não foi entregue pela carreira. Não foi um prémio de homenagem. Não foi um reconhecimento por aquilo que tinha feito antes da lesão. Foi uma Bola de Ouro conquistada dentro do campo.
Alexia voltou a ser Alexia. E voltou a ser considerada a melhor futebolista do planeta. O terceiro triunfo permite-lhe igualar precisamente Aitana Bonmatí no topo da lista de vencedoras do prémio feminino.
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Seis edições consecutivas. Três para Alexia. Três para Aitana. Um retrato perfeito da dimensão que Espanha e Barcelona alcançaram no futebol feminino mundial.
Curiosamente, esta terceira Bola de Ouro chegou já numa nova fase da vida de Alexia. Depois de 14 temporadas, decidiu terminar a ligação ao Barcelona. Saiu pela porta grande, deixando espaço (quiçá) à “nossa” talentosa Kika Nazareth para assumir a batuta da equipa blaugrana, e ser a sua sucessora. Talento e qualidade tem de sobra, mas terá de ter continuidade e deixar o calvário de lesões que tem afectado a sua afirmação definitiva no clube da cidade condal.
Capitã. Campeã europeia. Novamente na melhor forma da carreira. 507 jogos. 233 golos. 38 títulos. Três Bolas de Ouro. Um legado praticamente impossível de replicar.
Escolheu Inglaterra. Mas não escolheu um dos gigantes tradicionais. Alexia Putellas assinou pelo London City Lionesses.
A escolha diz muito sobre a jogadora e sobre a pessoa. O London City Lionesses é um clube exclusivamente feminino e um projeto que pretende desafiar a hierarquia estabelecida do futebol inglês. Alexia abraçou essa ambição e tornou-se imediatamente a maior figura de uma equipa que procura construir a sua própria história entre a elite.
Não foi para Londres apenas para terminar a carreira. Foi para começar outro capítulo. A Women’s Super League recebe uma das maiores futebolistas da história e o London City Lionesses ganha uma jogadora cuja influência ultrapassa largamente aquilo que acontece durante 90 minutos.
📸 : Instagram de Alexia Putellas (@alexiaputellas)
Porque Alexia Putellas já não é apenas uma futebolista. É uma marca. É uma referência. É uma das grandes figuras de proa de uma modalidade que cresceu a uma velocidade extraordinária precisamente durante os anos em que ela se afirmou no topo.
A menina que jogava futebol quando ser profissional parecia praticamente impossível tornou-se tricampeã da Bola de Ouro. A jovem de 18 anos que perdeu o pai pouco antes de assinar o primeiro contrato profissional com o clube dos seus sonhos, acabou por se tornar a maior goleadora da história desse mesmo clube.
A melhor jogadora do mundo que rompeu o ligamento cruzado anterior no auge da carreira teve de aprender novamente a confiar no próprio corpo.
Demorou. Sofreu. Viu o futebol continuar sem ela. Viu outra jogadora ocupar o trono que tinha sido seu. E voltou.
Talvez seja isso que torne esta terceira Bola de Ouro tão especial. A primeira confirmou o talento. A segunda confirmou o domínio. A terceira confirmou a grandeza.
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Alexia Putellas voltou ao topo. A Rainha voltou ao trono.