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Dos milagres africanos ao génio de Messi: eis os 16-avos de um Mundial imprevisível

Foto: La República

Dos milagres africanos ao génio de Messi: eis os 16-avos de um Mundial imprevisível

Tiago CamposTiago Campos|

A fase de grupos do Mundial 2026 está fechada e, se havia dúvidas sobre o impacto competitivo de uma prova alargada a 48 seleções, a primeira grande resposta está dada: este Mundial pode ser mais longo, mais imprevisível e mais caótico, mas está longe de ser menos interessante.

Entre qualificações históricas, favoritos em dificuldades, candidatos a crescerem de rendimento e algumas quedas inesperadas, a prova entrou definitivamente numa nova dimensão. Os 16-avos de final prometem jogos de enorme interesse e deixam já a sensação de que esta edição poderá ser uma das mais abertas dos últimos anos.

Senegal e Equador são dois dos grandes exemplos disso mesmo. Ambas chegaram à última jornada em situações delicadas e ambas conseguiram qualificações quase épicas. O Senegal goleou o Iraque por 5-0, num jogo onde precisava de ser praticamente perfeito para seguir em frente. O Equador, por sua vez, protagonizou uma das grandes surpresas da fase de grupos ao derrotar a Alemanha por 2-1, garantindo uma qualificação que parecia quase impossível, pois só a vitória manteria na competição esta excelente geração equatoriana.

O feito ganha ainda maior dimensão pela forma como aconteceu: diante de uma Alemanha que entrou no torneio com uma goleada por 7-1 frente a Curaçau, mas que depois revelou muitas dificuldades para confirmar o estatuto de candidata. Os germânicos sofreram imenso para bater a Costa do Marfim e acabaram surpreendidos pelo Equador, deixando a ideia de uma equipa ainda longe da sua melhor versão.

Portugal também não saiu bem na fotografia desta fase de grupos. A seleção nacional qualificou-se, é certo, mas deixou demasiadas dúvidas. O empate frente à República Democrática do Congo foi um aviso, a goleada de 5-0 ao Uzbequistão serviu sobretudo para cumprir obrigação diante de uma das seleções mais frágeis da competição (11 golos sofridos em três jogos e três derrotas) e o empate diante da Colômbia voltou a expor muitos dos problemas estruturais da equipa.

A Colômbia foi superior durante largos períodos e merecia ter vencido (inexplicável o golo anulado a Davinson Sanchez já dentro do período de descontos) uma seleção portuguesa sem alma, sem intensidade e sem uma ideia clara de jogo. Mais preocupante do que o resultado é a sensação de que Roberto Martínez continua sem conseguir transformar este conjunto de enormes individualidades numa equipa verdadeiramente forte. O selecionador português abusa da diplomacia, protege demasiado o grupo no discurso, mas ainda não conseguiu dar à equipa uma identidade reconhecível.

E agora vem aí a Croácia. Um adversário experiente (com o “jovem” de 40 anos Luka Modric ainda a dar lições de futebol), competitivo e habituado a viver fases a eliminar de grandes competições.

Como se isso não bastasse, Portugal ficou colocado num dos lados mais duros do quadro, com a possibilidade de encontrar a Espanha nos oitavos de final. A campeã europeia também não tem deslumbrado, tem vários jogadores limitados fisicamente, mas possui jogadores capazes de desequilibrar qualquer jogo num momento.

Quem entrou realmente forte foi a França. A seleção gaulesa confirmou o estatuto de uma das principais favoritas ao título, fechando uma fase de grupos muito competente. Dembélé e Mbappé estiveram em grande destaque, ambos com quatro golos em três jogos, e a equipa francesa mostrou uma capacidade ofensiva que a coloca naturalmente entre as mais temíveis da competição.

Também os Estados Unidos merecem nota muito positiva. Uma das anfitriãs realizou uma fase de grupos empolgante, intensa e surpreendentemente madura, mostrando que poderá ser muito mais do que uma seleção empurrada pelo fator casa. O triunfo categórico frente ao Paraguai na estreia deu o mote para uma campanha muito interessante.

A Bélgica, por seu lado, também terminou em alta. Depois de algumas dúvidas iniciais, a seleção belga garantiu o primeiro lugar do grupo com uma exibição em modo rolo compressor frente à modesta Nova Zelândia. O 5-1 final não apaga todas as interrogações, mas devolve confiança a uma equipa que continua a ter talento suficiente para fazer estragos na fase a eliminar.

O Brasil foi crescendo ao longo da fase de grupos. A única pentacampeã mundial começou com dúvidas frente a Marrocos, mas foi ganhando ritmo competitivo contra seleções menores como as de Haiti e Escócia, e chega aos 16-avos com Vinícius Júnior em grande destaque, tendo marcado em todos os jogos da fase de grupos. Ainda assim, o primeiro grande teste surge já diante do Japão, seleção que venceu os brasileiros no último confronto entre ambos, ainda que em contexto de jogo amigável.

E este Japão não é um adversário qualquer. Organizado, intenso e tecnicamente evoluído, já demonstrou que pode competir com seleções de maior estatuto. O duelo Brasil-Japão é, por isso, um dos mais apelativos desta ronda.

Outro grande jogo será Países Baixos-Marrocos. E talvez seja uma pena que duas das seleções que melhor futebol apresentaram na fase de grupos tenham de se defrontar tão cedo. Os neerlandeses têm mostrado uma qualidade coletiva assinalável, enquanto Marrocos voltou a provar que a caminhada até às meias-finais do Mundial 2022 não foi fruto do acaso.

A Inglaterra também segue em frente vencendo o seu grupo, mas sem convencer totalmente. A equipa de Thomas Tuchel mostrou momentos interessantes, mas continua a parecer uma seleção mais sólida do que brilhante. Ainda assim, a vitória frente à Croácia na primeira jornada e a capacidade para controlar os momentos-chave dos jogos deixam os ingleses como candidatos perigosos. Pela frente estará uma RD Congo histórica, que regressou a um Mundial 52 anos depois e conseguiu uma qualificação absolutamente memorável.

Também Cabo Verde e África do Sul escreveram páginas históricas. Os cabo-verdianos, estreantes absolutos em Mundiais, conseguiram passar à fase a eliminar e terão agora o prémio maior: defrontar a campeã do mundo Argentina. Será um desafio gigantesco, mas também uma noite de celebração para uma seleção que já superou largamente todas as expectativas.

A África do Sul, por seu lado, também garantiu uma qualificação marcante com uma vitória épica contra a Coreia do Sul (1-0), e medirá forças com o Canadá, num dos duelos mais equilibrados da próxima fase, e o encontro que abrirá esta primeira ronda a eliminar.

O México merece igualmente grande destaque. Outra das anfitriãs fechou uma fase de grupos perfeita, com três vitórias e zero golos sofridos. A equipa mexicana mostrou organização, maturidade e uma solidez defensiva impressionante. O duelo com o Equador será um excelente teste à real dimensão desta equipa.

Entre as desilusões, há três nomes que saltam à vista: Coreia do Sul, Uruguai e Turquia. A Coreia do Sul caiu cedo e com sua estrela Heung-Min Son sem grande impacto competitivo. O Uruguai, habitualmente uma seleção feroz em grandes torneios, saiu pela porta pequena, incapaz de confirmar o peso da sua história num furacão de decisões erróneas do seleccionador: o lendário (mas provavelmente já ultrapassado nos seus métodos) treinador argentino Marcelo Bielsa.

Já a Turquia foi talvez uma das maiores deceções. Havia muita expectativa em torno desta geração, mas a equipa apresentou-se demasiado sobranceira em alguns momentos e pagou caro essa falta de maturidade. É verdade que a sorte não acompanhou os turcos, que realizaram um número descomunal de mais de 60 (!) remates nos dois primeiros jogos, e não conseguiram marcar um último golo, tendo apenas que jogar para cumprir calendário no último jogo do grupo contra os Estados Unidos, que acabarão por ganhar no último lance da partida.

E depois há Messi. Aos 39 anos recém-cumpridos, Lionel Messi continua a viver uma segunda juventude. É o melhor marcador da competição, com seis golos (a apenas um de chegar aos 20 golos em Mundiais), e continua a liderar a Argentina com uma naturalidade assombrosa para alguém nesta fase da carreira.

A campeã do mundo chega aos 16-avos como uma das grandes favoritas, mas também com a certeza de que o seu destino continua profundamente ligado ao pé esquerdo mais mágico da história do futebol.

O desfecho desta fase de grupos foi digno de Hitchcock: os últimos 15 minutos do Argélia – Áustria foram no mínimo indecentes e anti-desportivos. Um descarado pacto de não agressão (semelhante ao que se viu no infame Paraguai – Austrália) que apura ambas as selecções, sem que antes houvesse um drama reservado para os últimos minutos desta apaixonante fase de grupos.

De uma forma cínica, a Argélia decidiu atacar (depois de andar a circular a bola entre os seus defesas sem que a Áustria sequer esboçasse um intento de pressionar o portador da bola), e marcou dentro do último minuto de descontos, sem que nada o previsse.

O seleccionador austríaco Ralf Rangnick lançou o ponta-de-lança Saša Kalajdžić já no desespero. E numa bola bombeada na qual Gregoritsch não deu o lance por perdido, Kalajdžić empatou o jogo (a Áustria esteve eliminada durante um minuto), qualificando a sua seleção, que irá medir forças com a campeã europeia Espanha. Duro golpe para o Irão (tremendamente prejudicado pela arbitragem contra a seleção egípcia) que vê o seu Mundial chegar ao fim de uma forma dramática e bastante injusta, onde foram vários os momentos em que foram discriminados e marginalizados, num dos piores aspectos que deixou este Mundial até agora.

Alguns dos 16-avos são altamente promissores. Eis o quadro completo de jogos:

A fase de grupos deixou milagres africanos, favoritos em alerta, candidatos a crescer e lendas a recusarem sair de cena. Agora começa o verdadeiro Mundial.

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