
Foto FPF
A lista de Roberto Martínez já é conhecida. E como seria expectável, trouxe confirmações, algumas escolhas discutíveis e sobretudo uma ideia clara: o selecionador espanhol continua fiel à sua base, mas sabe que o tempo das desculpas terminou.
Porque Portugal já não vive da promessa.
O grande problema da Seleção Nacional não é falta de qualidade e talento. Nunca foi. Portugal apresenta provavelmente uma das gerações mais completas da sua história:
Poucas seleções no mundo conseguem apresentar este nível de talento distribuído por praticamente todos os setores.
E no entanto, a sensação permanece: Portugal continua sem uma identidade coletiva totalmente consolidada.
A equipa ganha jogos, compete e até conquistou recentemente a Liga das Nações. Mas continua a existir alguma dificuldade em ver uma seleção verdadeiramente dominante, capaz de controlar emocionalmente grandes competições do princípio ao fim.
A presença de Cristiano Ronaldo nunca seria surpresa.
O capitão continua a ser uma referência competitiva e emocional da seleção, e poderá tornar-se o primeiro jogador da história a disputar seis Campeonatos do Mundo. Um feito absolutamente histórico.
Mas este leque de jogadores confirma igualmente algo importante: Portugal já deixou de ser “Cristianodependente”.
Hoje, o centro competitivo da equipa está muito mais repartido. Vitinha chega talvez no melhor momento da carreira. Bruno Fernandes continua decisivo ao mais alto nível. João Neves afirma-se cada vez mais como um médio de elite mundial. Bernardo Silva mantém a inteligência competitiva habitual. E Nuno Mendes parece finalmente preparado para assumir-se como um dos melhores laterais do futebol internacional.
Cristiano continuará a ser importante. Mas a equipa já não pode viver exclusivamente em função dele. E Roberto Martínez sabe isso.
A convocatória também oferece pistas muito claras sobre aquilo que o selecionador pretende construir tacticamente.
A presença de jogadores como:
mostra uma clara aposta em largura, aceleração e capacidade de desequilíbrio individual.
Portugal parece querer assumir os jogos através da posse, da mobilidade ofensiva e da criatividade entre linhas. E honestamente, faria pouco sentido ser de outra forma com este nível de talento ofensivo disponível.
Esta equipa foi construída para atacar. Para dominar.
Para assumir iniciativa. Não para especular.
Entre as novidades mais interessantes, surge o nome de Gonçalo Guedes. Um extremo com capacidade de jogar a falso 9 ou como um segundo avançado, que vem de uma época absolutamente extraordinária na Real Sociedad.
As ausências de Ricardo Horta, de Mateus Fernandes e de Paulinho (todos eles tendo realizado grandes épocas ao serviço dos seus clubes), devem ser igualmente destacáveis. O mesmo não se pode dizer de João Palhinha, Pedro Gonçalves e António Silva, que fizeram épocas muito aquém do seu potencial.
Portugal integrará o Grupo K, juntamente com Colômbia, Uzbequistão e República Democrática do Congo. Dado este lote de seleções, o apuramento parece perfeitamente ao alcance. Sobretudo num Mundial de 48 seleções, onde até os melhores terceiros classificados podem seguir em frente.
Mas o verdadeiro desafio não será apenas passar a fase de grupos. Será perceber finalmente que seleção quer Portugal ser.
Porque o Euro 2024 deixou demasiadas dúvidas. A equipa sofreu muito mais do que devia frente à Eslovénia e acabou eliminada por uma França mais pragmática e emocionalmente mais estável.
E esse continua a ser o principal teste de Roberto Martínez: transformar uma coleção extraordinária de talentos numa verdadeira equipa de topo mundial.
Portugal pode legitimamente sonhar com a final de 19 de julho?
Claro que pode.
Mas isso exigirá algo que ainda raramente se viu neste ciclo:
regularidade exibicional ao mais alto nível. O talento existe. Talvez como nunca existiu antes.
Agora falta perceber se Roberto Martínez conseguirá finalmente construir uma seleção com identidade, personalidade e capacidade para dominar os momentos verdadeiramente decisivos.
Porque no futebol de seleções, ter grandes jogadores ajuda muito. Mas normalmente… não chega.
A partir de agora (independentemente de estarmos ou não de acordo com esta convocatória), deveremos “vestir” a camisola da nossa seleção, e unirmos forças e vibrações positivas para ajudarmos estes jogadores a trazerem o “caneco” para Portugal.
Heróis do Mar, nobre povo, nação valente e imortal, levantai hoje de novo o esplendor de Portugal.

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