
Guilherme Farinha: "Irão? É um risco mas o Sá Pinto deve ter tudo pensado"
Craques|Guilherme Farinha é um treinador experimentado. Uma estrela na Costa Rica, onde treinou vários clubes, entre os quais, o gigante Liga Alajuelense (dois campeonatos ganhos), Herediano ou Carmelita, Farinha passou ainda por clubes como Municipal da Guatemala, Cerro Corá, Sportivo Luqueño ou os iranianos do Foolad. E foi, então, pela experiência vivida no futebol iraniano que o Craques falou com o treinador, de 69 anos. Para perceber as razões que terão levado Ricardo Sá Pinto a aceitar regressar ao Esteghlal, do Irão, numa altura em que existe um conflito bélico daquele país com Israel e os Estados Unidos. Assumindo não conhecer os contornos da decisão do compatriota, o técnico globetrotter é rápido a responder. Guilherme Farinha: “Irão? É um risco mas o Sá Pinto deve ter tudo pensado.”
A situação não é fácil de explicar, mas Guilherme Farinha refere que, se não fosse o conflito bélico, a sua resposta, caso fosse convidado, era, então, muito simples. “Neste momento, é arriscado. Ainda por cima, o Ricardo vai para Teerão, a cidade de onde é o Esteghlal. E não vai sozinho. Ele leva, com certeza, a sua equipa técnica. No Irão, eles aceitam sempre que nós levemos dois a três assistentes. Pelo que serão sempre 3 a 4 portugueses na equipa técnica. Mas atenção, eu só dizia não agora. Se não houvesse conflito e me convidassem a voltar, eu voltava sem pensar duas vezes”, conta.
Não se pense que a tentação é o dinheiro. “Creio que o Sá Pinto não vai pelo dinheiro. Eu iria e nem estava a pensar nisso. No Irão, sempre me respeitaram e trataram bem. Já treinei em vários países do mundo e o Irão foi o país onde me senti mais seguro. Estive 5 anos no Foolad e gostei da cultura dos muçulmanos, do respeito que nos têm e do convívio com as pessoas”, explica.
Mas o contexto, agora, é complicado. “Se me convidassem agora, como fizeram ao Sá Pinto, eu dizia que não. Porque infelizmente vejo que tanto o Irão como Israel não têm ideias de acabar com o conflito. Israel vai continuar a bombardear o Irão e principalmente a capital, Teerão. Neste ambiente, não sabemos onde é que vão cair as bombas”, refere, em exclusivo, ao Craques.
Guilherme Farinha até compreende a razão por que Ricardo Sá Pinto decidiu, então, regressar ao Irão. “Primeiro, estava sem clube. Depois, vai treinar um dos grandes clubes do Irão, a par do Persepolis. E treinar um grande do Irão é sempre chamativo. E obviamente também será por causa do dinheiro, embora não considere esta a razão principal. Agora, muito sinceramente, não percebo é que vão fazer o campeonato. Há tantos clubes que têm de viajar de avião várias horas para jogar… Nesta altura, parece-me um procedimento muito perigoso para todos”, confessa.
Por isso, Farinha considera, então, que Sá Pinto “terá tudo pensado” sobre a forma como se deve proteger num país em guerra. Depois de ter orientado o Foolad, pela última vez, em 2011/12, tudo parece ter mudado. “Ligou-me há uma semana um técnico da rouparia do Foolad a queixar-se de que muita coisa se havia alterado desde a minha última passagem pelo clube. Mesmo a questão financeira. Já não é tão fácil de fazer o câmbio para o euro e as condições são diferentes. Mas há ainda quem faça bons contratos com os grandes clubes iranianos. O problema é esta guerra que não parece ter fim à vista…”
Por fim, uma mensagem para o técnico Ricardo Sá Pinto. “Desejo-lhe boa sorte e que tudo corra bem a ele e à equipa técnica dele”, disse.

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