
João Inácio: “A subida do Pontassolense foi a maior alegria desportiva da minha vida”
“O meu lema de vida foi sempre o mesmo. Vivo a aprender e morro sem saber”. A história de João Inácio confunde-se com a do desporto na Madeira, principalmente, na Ponta do Sol, município da Ilha da Madeira. A forte ligação ao desporto que teve desde miúdo levou-o a ter um papel ativo no desenvolvimento de várias modalidades desportivas não só onde nasceu, mas também em todo o arquipélago. Começou no futebol, mas outras paixões se seguiram. Desde o futebol ao atletismo, passando pelo ténis de mesa, futebol de praia, ténis, andebol ou, até, provas de orientação e walking football. Ainda assim, o auge no desporto foi vivido no campo do Ribeira Brava, a 11 de maio de 2002, quando o seu Pontassolense venceu por 1-0 e consumou, então, a primeira subida à 2ª Divisão B. João Inácio: “A subida do Pontassolense foi a maior alegria desportiva da minha vida.”
João Inácio começou a jogar futebol nas ruas da Ponta do Sol. “Não havia nenhum clube desportivo na Ponta do Sol e íamos para um campo, no Patronato, com 7 metros de largura. Jogávamos nas manhãs de domingo. Demorávamos 30 minutos a descer para o campo e 40 a voltar para casa. Depois, aos 13 anos, fui para a Escola Salesiana de Arte e Ofícios, onde nos incutiam bastante o desporto. Aí experimentei, então, a única modalidade à qual não me adaptei, o hóquei em patins”, conta, num exclusivo ao Craques.
Mas foi, então, em 1977 que integrou a primeira equipa sénior de futebol do Pontassolense, clube que ajudou a fundar. Era defesa-direito, mas, por estar a estudar no Funchal, não conseguiu conciliar com o futebol. E depois seguiu-se o serviço militar, durante 16 meses, onde chegou a praticar atletismo.

Quando acabou a tropa, mesmo sem curso, começou a dar aulas de Educação Física. “Estava a dar aulas quando um dos meus melhores amigos, Luís Silva, conhecido por ‘Luisinho’, que era o treinador dos seniores do Pontassolense me convidou a ser adjunto do mister Vítor Abreu nos iniciados do clube. Foi a primeira equipa que treinei, em 1986/87. Costumo dizer que gosto de jogar futebol, mas gosto mais de ensinar”, explica. Em 1987/88, treinou a sua primeira equipa sénior, o Estrela da Calheta.
Nesta fase, João Inácio já estava lançado. E o futebol deixou de ser a única modalidade à qual se dedicava. “Fui treinar depois os juniores do Ribeira Brava e ainda transitei para os seniores. Mas fui, então, o responsável por criar a equipa de iniciados femininos de andebol do Pontassolense, em 1990/91. Lançámos duas equipas, iniciados femininos e juvenis femininos. Foi uma boa fase”, reconhece.
Ainda assim, seguiram-se várias experiências: responsável da secção de desporto da Associação Académica da Universidade da Madeira durante 2 anos até aceitar um convite da Associação Desportiva da Ponta do Pargo. “Foi uma época incrível. Subimos de divisão, mas depois perdemos um jogo na secretaria por causa de cartões amarelos. E foi tudo por água abaixo. Foi uma pena…”

A saída da Ponta do Pargo coincidiu com a entrada… no Santacruzense. “O Leonardo Jardim estava a coordenar o futebol do Santacruzense e convidou-me para treinar os juniores. Aceitei, claro. Mas depois…” Depois, em 2001/02, António Carlos, treinador dos seniores do Pontassolense, chamou João Inácio para seu adjunto.
E o apelo do clube do seu coração não podia ter resposta negativa, “Fui para lá e foi uma grande época. Mas houve um momento importante. A 10 jornadas do fim, o António Carlos saiu para a UD Santana e nós, nesses dez jogos, ganhámos 8 e só empatámos com o Loures e perdemos com o Mafra”, conta. E na última jornada veio o momento de loucura. “Fomos ganhar 1-0 a casa do Ribeira Brava. Essa vitória deu a subida ao Pontassolense e foi a maior vitória da minha vida desportiva. Posso vir a ganhar campeonatos ou outros troféus em muitos lados, mas nada superará esse dia”, explica.
Em 2002/03, manteve o Pontassolense na 2ª Divisão B [8º lugar], e em 2003/04 rumou aos juniores do Marítimo. Mas o regresso à sua Ponta do Sol deu-se novamente em 2004/05. Salvou o clube da descida e preparou o plantel para 2005/06. Chegou mesmo a iniciar a pré-época, mas o inesperado aconteceu.

“Estava com a equipa e o meu amigo José Manuel Coelho, do PS, ligou-me a convidar para integrar a candidatura dele à Câmara Municipal da Ponta do Sol. Aceitei, mas não pensava que isso tivesse a influência que teve. Certo dia, numa segunda-feira, tinha dado os treinos de manhã e à tarde, recebo um telefonema à noite, de um dirigente do Pontassolense a dizer que tinha de ir ao clube porque estava despedido. Por ordem do chefe do Governo Regional, Dr Alberto João Jardim. Devo ter sido o único treinador de futebol que foi alvo de uma chicotada política”, contou ao Craques.
Uma marca que, ainda assim, não impediu João Inácio de seguir o seu caminho. “Perdoo-o, mas não esqueço. Não foi a forma como eu queria de sair do Pontassolense. Mas, enfim, é passado. E o passado só serve para os museus e os professores de história. Temos de olhar sempre para o presente e o futuro”, atira.
Nota: Esta é a primeira parte da história de João Inácio, o globetrotter do desporto da Madeira. Não perca a segunda parte, na próxima 3ª feira, em www.craques.pt.

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