Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

Cristiano Ronaldo

Quando o silêncio faz barulho: quem controla a narrativa no futebol?

Diana FumegaDiana Fumega|

O caso Cristiano Ronaldo mostra que falar diretamente para milhões

não significa controlar aquilo que milhões vão entender. Entre atletas, media,

instituições e adeptos, a disputa já não é apenas por quem comunica – é por

quem consegue definir o significado do que aconteceu.

Cristiano Ronaldo não estava a falar. Mas quase toda a gente estava a falar

sobre Cristiano Ronaldo.

Durante vários dias, o capitão da Seleção Nacional não explicou

publicamente, em detalhe, as razões que o levaram a abandonar o estágio. Tinha

deixado apenas uma promessa: a seu tempo, apresentaria a sua versão.

O que se seguiu dificilmente pode ser descrito como silêncio.

Houve notícias, declarações, informações atribuídas a diferentes fontes,

interpretações, reações nas redes sociais e horas de comentário desportivo.

Discutiu-se o futuro de Ronaldo na Seleção, a relação com Jorge Jesus, a posição

da Federação Portuguesa de Futebol e as consequências de um episódio que

rapidamente deixou de pertencer apenas ao espaço interno da equipa.

E foi precisamente essa aparente contradição que me despertou uma

pergunta: como pode existir tanto para dizer quando uma das principais vozes não

está a falar?

Quando uma voz se cala, outras ocupam o espaço

O futebol mudou também na forma como os seus protagonistas comunicam.

Durante décadas, um jogador dependia, em grande medida, da mediação

jornalística para fazer chegar publicamente a sua versão dos acontecimentos. Uma

entrevista, uma conferência de imprensa ou declarações a um órgão de

comunicação eram algumas das principais portas de acesso ao espaço público.

Hoje, um atleta pode ser também o seu próprio canal.

Cristiano Ronaldo é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação.

Dispõe de plataformas próprias e de uma audiência global que lhe permite

comunicar diretamente com milhões de pessoas, sem depender de um jornalista

para publicar uma mensagem.

Isso dá-lhe um enorme poder comunicacional.

Mas torna também o seu silêncio relevante.

Quando Ronaldo anunciou a saída do estágio, deixou a expectativa de que

explicaria posteriormente o sucedido. Sabia-se, portanto, que existia uma versão do

principal protagonista ainda por conhecer.

A informação disponível estava incompleta. A comunicação, porém, não

parou.

Jorge Jesus continuou a ser questionado. A Federação comunicou. Outros

jogadores responderam sobre o tema. Os media procuraram reconstruir

acontecimentos,

contextualizar

declarações

e

antecipar

consequências.

Comentadores interpretaram aquilo que era conhecido — e também aquilo que

permanecia por explicar.

Uma voz estava temporariamente ausente. As restantes ganharam espaço.

É por isso que o silêncio de uma figura altamente mediática não deve ser

confundido com ausência de comunicação. Quando alguém deixa de ocupar o seu

espaço comunicacional, esse espaço pode ser ocupado por outros.

Do facto ao “diz que disse”

Talvez por já ter passado por uma redação desportiva, houve uma dimensão

deste caso que me chamou particularmente a atenção: a origem da informação.

Quem disse o quê? O que tinha sido combinado? Quem estava presente? O

que era informação confirmada? O que resultava de uma determinada versão dos

acontecimentos? E o que era já interpretação?

É aqui que surge o conhecido “diz que disse”.

Uma declaração direta não é o mesmo que uma informação atribuída a uma

fonte. Uma informação atribuída não é o mesmo que uma interpretação. E uma

interpretação não é o mesmo que especulação.

Podem coexistir no espaço mediático. Não têm o mesmo estatuto.Esta distinção torna-se particularmente importante quando existe incerteza e,

simultaneamente, uma enorme procura por informação nova.

Interpretar não é, por si só, um problema. O jornalismo não se limita a

reproduzir declarações: verifica, contextualiza, confronta versões e procura

significado.

A dificuldade surge quando, para quem recebe a informação, deixa de ser

evidente onde termina aquilo que sabemos e começa aquilo que pensamos saber.

E existe ainda um efeito multiplicador.

Uma declaração produz uma notícia. A notícia provoca uma reação. A reação

origina outra notícia. Essa notícia é novamente comentada. E, a determinada altura,

a comunicação sobre o acontecimento torna-se também parte do próprio acontecimento.

Quando Ronaldo decidiu falar

A 6 de outubro, Cristiano Ronaldo apresentou publicamente a sua versão.

Fê-lo através de uma declaração extensa, na primeira pessoa, em que

descreveu a sua leitura dos acontecimentos, apontou aquilo que considerou terem

sido quebras de palavra por parte do selecionador, assumiu responsabilidade pela

decisão de abandonar o estágio, pediu desculpa e deixou em aberto a continuidade

na Seleção.

Há aqui uma distinção importante.

Uma comunicação direta é uma fonte primária sobre aquilo que Ronaldo

afirma ter acontecido. Não transforma automaticamente a sua versão numa

descrição factual e incontestável de tudo o que aconteceu.

Mas a forma escolhida para comunicar é, por si só, reveladora.

Ronaldo não concedeu uma entrevista em que outro interveniente

selecionaria as perguntas. Não entregou a exclusividade da sua versão a um jornal

ou televisão. Publicou-a diretamente, de forma extensa e através dos seus próprios

canais.

Controlou o momento.

Controlou as palavras.

Controlou a versão que quis apresentar.

Mas não controlou aquilo que aconteceu depois.

A mensagem era a mesma. As notícias não.

Assim que a declaração se tornou pública, começou um novo processo de

mediação.

Da mesma mensagem nasceram diferentes títulos e diferentes ângulos. Era

possível destacar as alegadas quebras de palavra, o pedido de desculpas, a

responsabilidade assumida pela saída, a relação com Jorge Jesus ou a

disponibilidade para continuar a representar Portugal.

Escolher é inevitável. Nenhum título consegue conter todas as dimensões de

uma declaração daquela extensão.

Mas escolher também é enquadrar.

E é aqui que se encontra, para mim, uma das questões mais interessantes da

comunicação no futebol contemporâneo:

ter um canal próprio permite controlar a publicação da mensagem. Não

permite controlar a sua circulação, seleção ou interpretação.

Um jogador pode decidir exatamente aquilo que publica.

Não decide qual será a frase escolhida para abrir um telejornal. Não

determina o título de um jornal. Não controla que excerto terá maior circulação nas

redes sociais. Não escolhe quem será convidado a interpretar as suas palavras. E,

sobretudo, não determina a conclusão a que cada pessoa chegará depois de

receber todas essas mensagens.

A comunicação direta reduz uma forma de intermediação.

Não elimina a mediação.

Transforma-a.

Quem controla, então, a narrativa?

Talvez “controlar” não seja a palavra certa.

Num ecossistema desta dimensão, nenhum ator determina sozinho o

significado público de um acontecimento.

Ronaldo controla aquilo que decide publicar. Jorge Jesus, aquilo que decide

declarar — e aquilo a que decide não responder. A Federação gere a sua

comunicação institucional. Os jornalistas verificam, selecionam, contextualizam ehierarquizam informação. Os comentadores interpretam. Os adeptos reagem,

contestam e amplificam. As plataformas condicionam a velocidade e a dimensão

com que tudo isto circula.

Mais do que controlo absoluto, existe uma disputa pela capacidade de

influenciar a forma como o acontecimento é entendido publicamente.

Quem consegue definir qual é o problema central?

Que palavras passam a dominar a discussão?

A quem é atribuída responsabilidade?

Que versão recebe maior visibilidade?

Que fonte conquista maior credibilidade?

E quem consegue colocar os outros na posição de terem de reagir ao que

acabou de dizer?

Durante alguns dias, esperou-se pela versão de Ronaldo. Quando chegou, a

atenção deslocou-se quase imediatamente para Jorge Jesus: o que responderia o

selecionador?

Depois de confirmar que tinha lido o comunicado, Jesus optou por não

desenvolver publicamente uma resposta ao seu conteúdo.

A voz que estava ausente tinha regressado. Outra passava a falar menos.

Mudavam as vozes. Mudava o silêncio.

A narrativa continuava em movimento.

O poder de comunicar não é o poder de determinar

Este episódio ajuda também a questionar uma ideia recorrente: a de que as

redes sociais permitiram às grandes figuras do futebol eliminar os intermediários.

Eliminaram alguns. Transformaram outros.

Um jogador já não precisa necessariamente de um jornalista para tornar

pública uma mensagem. Mas essa mensagem continua a entrar num ecossistema

composto por órgãos de comunicação, plataformas digitais, comentadores,

organizações, outros protagonistas e milhões de utilizadores.

Os atletas conquistaram uma autonomia comunicacional sem precedentes:

podem publicar diretamente para audiências massivas sem pedir acesso ao espaço

mediático tradicional.

Isso é uma mudança profunda.Mas poder publicar não significa poder determinar.

Talvez seja essa uma das grandes transformações da comunicação no

futebol contemporâneo. O poder já não está apenas em conseguir falar diretamente

para milhões de pessoas. Está também na capacidade de fazer prevalecer uma

interpretação entre muitas outras que competem pela atenção do público.

O jogo da narrativa

Não é necessário escolher entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus para

reconhecer o interesse comunicacional deste episódio.

Esta análise também não pretende fazê-lo.

O caso é interessante precisamente porque permite olhar para além da

pergunta mais imediata — “quem tem razão?” — e fazer outra:

como se constrói publicamente aquilo que entendemos que aconteceu?

Os atletas podem ser simultaneamente protagonistas desportivos, marcas e

canais de comunicação. Clubes e federações operam num ambiente em que já não

controlam sozinhos o acesso público aos seus jogadores. Os jornalistas deixaram

de deter a exclusividade sobre a publicação da voz dos protagonistas, mas

continuam a ter um papel fundamental na verificação, seleção e contextualização

dessa voz. E os adeptos já não são apenas destinatários: também comentam,

contestam e amplificam significados.

Talvez por isso uma das dimensões comunicacionalmente mais interessantes

tenha surgido precisamente quando o seu maior protagonista não estava a falar.

O silêncio não fez desaparecer a narrativa.

Abriu espaço para que outros participassem na sua construção.

Quando Ronaldo voltou a falar, também não a encerrou.

Voltou a transformá-la.

Porque, no futebol contemporâneo, nem todos os jogos se disputam dentro

das quatro linhas.

Alguns disputam-se no espaço público.

E, nesses, a bola é a narrativa.

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