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Martinez, o selecionador simpático que Portugal não pode dar-se ao luxo de ter

Foto: FPF

Martinez, o selecionador simpático que Portugal não pode dar-se ao luxo de ter

Wilson TeixeiraWilson Teixeira|

Há treinadores que transformam equipas.
E depois há treinadores que conseguem ver o que ninguém consegue e sorriem para as câmeras de televisão.

Roberto Martinez pertence, cada vez mais, à segunda categoria.

Dito isto com o respeito que a função merece e com a consciência de que liderar a Seleção Nacional de Portugal não é uma tarefa fácil. Mas também com o sentimento de injustiça futebolística de perceber que “Deus da nozes a quem não tem dentes” e que “são precisas unhas para tocar guitarra portuguesa…”.
Martinez ganhou uma Liga das Nações, qualificou Portugal para o Mundial com números interessantes e até tem uma percentagem de vitórias que poucos selecionadores portugueses podem exibir. Esses factos existem e não podem ser apagados.

Mas os números não contam tudo.
E o Mundial de 2026 está a revelar aquilo que muitos já suspeitavam há algum tempo.

Martinez não tem perfil para gerir momentos de pressão real.
Martinez não sabe ler o jogo.
Martinez não tem a sagacidade portuguesa do improviso quando ele é necessário.
Martinez é um péssimo estratéga.

O simpático que não dá um murro na mesa
Foto: José Sena Goulãe

O primeiro jogo com a República Democrática do Congo foi mau. Muito mau.
Um empate com sabor a derrota, um único remate à baliza adversária, uma equipa sem agressividade, sem objetividade, sem identidade coletiva visível.

E Martinez? Disse que o jogo foi positivo.
Que a equipa esteve bem. Que estava satisfeito com o processo.

Não esteve. Não pode ter estado. Qualquer treinador com sensibilidade competitiva real sabe que aquilo foi inaceitável para um plantel daquele nível e com a qualidade dos jogadores portugueses.

Mas Martinez é o simpático. O que sorri. O que tenta falar português. O que nunca levanta a voz. O que faz conferências de imprensa com a leveza de quem acabou de ganhar uma final.

E isso não é ser treinador. Isso é ser relações públicas.

Porque um treinador sabe quando tem de dar um murro na mesa. Dentro ou fora do balneário. E Martinez ou nunca o faz, ou transparece nunca o fazer. Um treinador sabe quando tem de olhar para os seus jogadores nos olhos e dizer-lhes, com frontalidade, que aquilo não chegou. Que não é suficiente. Que representar Portugal exige mais.

Tenho experiência direta nisto. Este ano, após uma exibição fraca num jogo de preparação, dei das maiores duras possíveis a um jogador que eu adoro à frente do grupo inteiro.
Foi duro. Foi desconfortável. Mas foi necessário. Na semana seguinte, dei-lhe a titularidade na equipa e na palestra disse-lhe, na frente de todos, que ele ia marcar e fazer um grande jogo. Marcou. Fez um jogo tremendo. Porque no futebol, o que hoje é verdade, amanhã pode deixar de ser. E não há problema nenhum com isso. Tudo muda muito rápido.

Criticar dentro do grupo, quando feito com propósito e liderança, não é humilhar. É elevar. É mostrar ao jogador que se acredita nele ao ponto de lhe exigir sempre mais.

Martinez não parece capaz disso. Ou não quer. Quer ser sempre o agradável e o simpático.
E qualquer uma dessas hipóteses é preocupante.

Um treinador de terceira linha a gerir pérolas de primeira

Há um padrão curioso na história recente do futebol português. De tempos a tempos, surgem treinadores espanhóis que chegam a Portugal com alguma pompa, ficam um ciclo e deixam a sensação de que o futebol português serviu mais de trampolim do que de projeto.

Víctor Fernández. Quique Flores. Julen Lopetegui.

Nomes que passaram por cá, deixaram resultados medianos ou incompletos e seguiram caminho. Treinadores competentes em contextos específicos, mas que nunca convenceram plenamente que percebiam a alma do futebol português e das suas exigências.

Martinez está a seguir esse caminho.

Tem um plantel de luxo absoluto. Uma geração de jogadores que muitos países sonhariam ter. E, jogo após jogo neste Mundial, tem revelado uma incapacidade preocupante de os fazer funcionar como uma verdadeira equipa de alta competição.

Portugal pode até chegar longe neste torneio. O talento individual dos jogadores permite isso. Mas quando chegar um adversário que saiba defender bem, pressionar alto e explorar a falta de clareza tática portuguesa, a questão vai colocar-se com toda a força: onde está o treinador?

O orgulho dos 21 jogadores utilizados

Depois do jogo com a Colômbia, mais um empate sem golos, Martinez saiu para a conferência de imprensa com um sorriso e um dado que queria que soasse a elogio.

Tinha utilizado 21 jogadores no Mundial.

Disse-o com ar de quem tinha acabado de resolver um problema complexo. Como se a gestão de plantel fosse uma virtude em si mesma, independentemente do produto que a equipa apresenta em campo.

Vinte e um jogadores utilizados. Uau. Em três jogos só ganhou um. Dois jogos péssimos.
Dois empates sofridos. Uma equipa que ainda não encontrou identidade nem coerência.

E o selecionador fala de rotatividade como se fosse um prémio?

Isso não é gestão de plantel. Isso não é comunicação capaz. Isso é falta de certezas.
É a incapacidade de olhar para o que teria efetivamente de dizer: “fomos maus!”.

Um treinador que orgulhosamente anuncia quantos jogadores utilizou, enquanto a equipa não convence, está a fugir da pergunta que realmente importa. Porquê?

Ancelotti e a diferença entre aparentar e ser

Carlo Ancelotti, agora selecionador do Brasil, passou o tempo todo sentado no banco durante a primeira parte do jogo com o Japão. Quieto. Aparentemente indiferente. E as redes sociais não perdoaram: “está a dormir”, “não está a ver o jogo”, “que treinador é este?”

Foto: William Volcov

Quem percebe de futebol viu outra coisa.

Viu um treinador a acumular informação. A registar padrões. A construir o discurso que ia proferir ao intervalo. A preparar as correções, as substituições, as palavras certas para as pessoas certas no momento certo. A ser estratéga.

E foi exatamente isso que aconteceu. No intervalo, Ancelotti mexeu. Mexeu na equipa, na estrutura, mas acima de tudo mexeu nas cabeças dos jogadores. O Brasil fez uma segunda parte estrondosa e venceu.

Ancelotti não é o treinador mais animado do banco. Não faz gesticulações dramáticas.
Mas quando é preciso dá um murro na mesa. Dá entrevistas inflamadas. E quando o jogo precisa dele como treinador, ele está lá. Sempre. Com as ferramentas certas, na hora certa.

É por isso que tem mais Champions League do que qualquer outro treinador da história.
É por isso que é chamado de raposa velha com todo o respeito que o termo merece.
É por isso que o Brasil o foi buscar.
É por isso que ele tem feito a diferença na seleção brasileira.

E é por isso que o Brasil para mim é um grande candidato a vencer a competição, quando muita gente no Mundo tem dúvidas relativamente à capacidade do Brasil.

Martinez fica aquém desta comparação por uma razão simples. Ancelotti sabe o que é uma equipa em dificuldade e sabe como a virar. Martinez sorri e diz que está tudo bem.

O talento salva. O treinador complica.

Portugal pode chegar a campeão do mundo neste torneio. Dito assim, sem ironia. O talento desta geração é real e não tem paralelo na história da seleção. Cristiano Ronaldo, Diogo Costa, João Cancelo, Ruben Dias, João Neves, Nuno Mendes, Bruno Fernandes, Vitinha, Bernardo Silva, João Félix, são nomes que jogariam em qualquer seleção e que fazem inveja a qualquer selecionador do mundo.

Mas se Portugal for campeão, mesmo com Martinez, não será por causa dele.

Porque um treinador verdadeiramente diferenciado pega num plantel de luxo e cria uma equipa que é maior do que a soma das suas partes. Martinez não foi capaz de o fazer na Bélgica e está a demonstrar que também não tem sido capaz de o fazer com Portugal.

Qualquer treinador competente, sabe gerir talento, quando o há, e pega em individualidades para construir um coletivo com alma, com princípios, com caráter reconhecível.

O que vemos até agora é o oposto. Individualidades à solta, com muito talento, à espera que alguém lhes dê uma direção clara.

Martinez tem o material para construir uma obra de arte.

Mas não é capaz. Ao invés de ser um treinador que ajuda a sua equipa, só complica a tarefa dos seus jogadores, e isso é terrível para alguém que ocupa um cargo de tamanha responsabilidade.

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