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O futebol ganhou. E isso basta para explicar a final do Mundial 2026

Foto: AFP David Ramos

O futebol ganhou. E isso basta para explicar a final do Mundial 2026

Tiago CamposTiago Campos|

Ouvimos dizer que as finais não se jogam, ganham-se. A Espanha resolveu provar exatamente o contrário. Ganhou merecidamente a única equipa que quis jogar. Os ibéricos dominaram uma final de sentido único. Assumiu o jogo desde o primeiro minuto e conquistou a segunda estrela mundial da sua história.

Não foi apenas uma vitória sobre a Argentina. Foi uma vitória do futebol positivo sobre o medo, da coragem sobre a contenção, e da identidade coletiva sobre uma estratégia que nunca fez sentido.

É impossível retirar mérito à equipa de Luis de la Fuente. A campeã europeia cresceu ao longo do torneio e chegou à final na máxima força, depois de eliminar Portugal (curiosamente, havia derrotado igualmente Portugal nos oitavos-de-final em 2010 na caminhada para o seu primeiro título mundial), Bélgica e a ultra-favorita França, antes de derrotar inequivocamente a seleção campeã mundial em título.

A exibição contra a França foi uma ode ao futebol, sendo muitíssimo superior àqueles que a generalidade considerava uma seleção imbatível. Esse jogo demonstrou uma vez mais que o futebol será sempre um desporto colectivo, onde as individualidades sobressaem.

Nem o quarteto magnífico Barcola (depois foi lançado Doue a meio da segunda parte), Mbappé, Olise e Dembelé, conseguiram fazer face a uma equipa muito bem estruturada defensivamente, e que já descobriu o antídoto para esta equipa gaulesa, uma vez que lhes ganhou os últimos 3 encontros oficiais na mesma instância e em 3 competições distintas: Euro 2024, Nations League 2025 e Mundial 2026, privando esta geração de ouro de marcar presença na final dessas competições, e de aumentar o seu palmarés sob o comando de Didier Deschamps.

Contra a Argentina, a Espanha voltou a apresentar tudo aquilo que a caracterizou durante este Mundial: uma circulação de bola de enorme qualidade, uma organização defensiva irrepreensível, um coletivo onde ninguém está acima da equipa.

Pau Cubarsí confirmou porque foi eleito o melhor jovem da competição, Rodri voltou a demonstrar que é, provavelmente, o médio mais influente do futebol mundial, e Ferran Torres teve finalmente o palco que tantas vezes lhe foi negado pela crítica espanhola.

Este título tem muito do selecionador espanhol Luis de la Fuente, um treinador que foi corajoso quando quase todos lhe pediam o contrário.

Foto: X/seleção espanhola masculina de futebol

Manteve Unai Simón na baliza quando o voto popular e jornalístico tinha lançado uma campanha feroz para que Joan Garcia fosse o titular, insistiu em Rodri no onze titular mesmo quando o médio espanhol tinha começado muito longe do seu melhor e de um ritmo exigido num Mundial, soube gerir Pedri e foi corajoso na decisão de o relegar para o banco de suplentes e colocar Fabián Ruiz no seu lugar.

É inegável que Pedri é um dos melhores médios do mundo, e que se trata de um jogador fabuloso. Mas o futebol é o momento, e o médio do Barcelona não tinha apresentado um rendimento condizente com o seu talento, e de la Fuente provou mais uma vez que construiu uma seleção onde o coletivo prevalece sobre qualquer individualidade.

Mas se a Espanha merece todos os elogios, a Argentina merece muitas perguntas. Porque afinal… qual era o plano de jogo de Lionel Scaloni para esta final?

É legítimo perder uma final frente a uma seleção desta qualidade. O que não é aceitável é passar 120 minutos sem conseguir fazer um único remate até ao último suspiro da partida.

Estamos a falar daquela que era a campeã do mundo. Estamos a falar de uma seleção que tem Lionel Messi. Estamos a falar de uma equipa que, há apenas quatro anos, encantou o planeta com 75 minutos de um futebol total diante da França na melhor final da história dos Mundiais.

A Argentina chegou à final muito pelo seu espírito guerreiro e pela sua aversão à derrota, mas essencialmente porque voltou a ter um extraterrestre vestido de azul e branco. Messi, aos 39 anos, assinou um Mundial absolutamente extraordinário, com oito golos e quatro assistências, carregando uma equipa que revelou demasiadas limitações coletivas. Ainda assim, Scaloni pareceu acreditar exatamente nisso.

Basta recordar os dois prolongamentos disputados frente ao Egito e à Suíça para perceber o desgaste físico com que o astro argentino chegou à final. Esperar que fosse novamente ele a resolver tudo seria profundamente injusto. Se a sua exibição na final foi discreta e se apenas conseguiu ter bola nos últimos minutos do prolongamento, muito se deve a um planeamento covarde e impróprio para uma final de um Mundial por parte do selecionador argentino Lionel Scaloni.

O selecionador argentino caiu na mesma armadilha em que Vicente del Bosque caiu em 2014. Agarrou-se demasiado aos homens que lhe deram um Campeonato do Mundo. No futebol, a gratidão existe, mas não pode comandar as escolhas.

Gerir uma seleção não é gerir uma Santa Casa da Misericórdia. É preciso perceber quando um ciclo está a terminar e quando chegou o momento de dar espaço a quem bate à porta.

E é precisamente aqui que surgem perguntas difíceis de responder. Para que serviram jogadores como Barco, Nico Paz ou Flaco López neste Mundial? Porque viajaram se nunca foram verdadeiras opções? Quando uma equipa deixa de ter pernas, intensidade e criatividade, faz sentido morrer agarrado aos mesmos de sempre?

A entrada de Leandro Paredes na final, simbolizou tudo aquilo que a Argentina nunca devia querer representar. Nico González não estava a fazer uma primeira parte desastrosa.

Ainda assim, saiu para entrar um médio cuja principal missão parecia ser interromper o jogo e endurecer os duelos. Ser agressivo sobre o portador da bola faz parte do futebol. Confundir agressividade com jogo sujo é outra conversa completamente diferente. E Paredes voltou a mostrar precisamente o lado do futebol argentino que muitos adeptos (entre os quais me incluo), menos apreciam.

Nem por isso deixa de surpreender que, no final do encontro, Lionel Scaloni tenha afirmado sentir orgulho pela forma como o grupo soube perder. Independentemente do comportamento da maioria dos jogadores após o apito final, é impossível ignorar agressões perfeitamente evitáveis como as de Molina sobre Rodri ou de Paredes sobre Eric García. As imagens falam por si.

A expulsão de Enzo Fernández pouco antes do fim do tempo regulamentar, poderá ter evitado qualquer tentativa de reação ou de uma abordagem mais ofensiva no prolongamento. Também é verdade que a Argentina teve menos horas de descanso do que a Espanha. Mas nenhuma dessas circunstâncias explica uma final onde o primeiro remate (enquadrado ou desenquadrado), surge apenas aos 120 minutos. Não existe contexto capaz de justificar um dado destes. Depois da fantástica conquista em 2022, esta Argentina foi a pior finalista de sempre da história dos Mundiais.

A Argentina teve alma durante praticamente todo o Mundial. Futebol apenas na segunda parte contra a Inglaterra, e na final, teve apenas quando a bola passou pelos pés de Messi e quando a Espanha baixou logicamente as linhas depois de se ver em vantagem no marcador.

Quem me conhece sabe a admiração que tenho pelo futebol argentino. Acompanhei toda a carreira de Messi, sendo também eu de 1987.

Vi-o transformar o Barcelona no clube que me fez apaixonar pelo futebol e considero-o, sem qualquer dúvida, o melhor jogador que este desporto já viu. Talvez por isso me custe ainda mais olhar para as lágrimas de quem realizou um Mundial monumental e perceber que lhe foi pedido, uma vez mais, o impossível.

Mas amar Messi não me faz fechar os olhos, nem me tolhe o discernimento. Ontem, a Espanha foi infinitamente superior. E quando o futebol é recompensado, quem ama verdadeiramente este jogo só pode sorrir. Porque ontem ganhou a melhor equipa do Mundial. E, acima de tudo, ganhou o futebol.”

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