
FOTO: REPRODUÇÃO
Wilson Teixeira|Há debates que fazem o futebol crescer.
E depois há discussões que o arrastam para um nível quase primitivo.
A eterna comparação entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi é, hoje, uma dessas discussões vazias. Não acrescenta conhecimento, não eleva a análise, não aprofunda a compreensão do jogo. Pelo contrário, reduz o futebol a uma lógica simplista, quase infantil, onde tudo se resume a escolher “o melhor”, como se estivéssemos a falar de um ranking de popularidade nas redes sociais.
E isso, para quem verdadeiramente entende e respeita o futebol, é simplesmente inaceitável.
Há dias constatei algo curioso, e até fiz um vídeo sobre isso. O meu perfil de treinador, num dos websites mais visitados de Portugal, está no top 50 dos mais populares do mundo. As opiniões do mundo valem sempre o que valem. Mas muitas vezes ferem e podem ser injustas. E isso não significa, de forma alguma, que sou mais ou menos competente.
Significa apenas que sou mais ou menos popular. E depois, na avaliação individual de cada pessoa, posso ser considerado bom, mau, melhor ou pior do que outros.
Quem insiste nesta comparação não tem capacidade para ver o jogo. Está apenas à procura de polémica. Consome narrativas. Procura validação emocional, barulho, e não compreensão.
Porque qualquer pessoa com sensibilidade futebolística percebe coisas básicas.
Messi e Ronaldo não são comparáveis. São únicos. São absolutamente insubstituíveis na história do futebol.
Cristiano Ronaldo é o produto máximo da exigência, da ambição desmedida, da capacidade de superação levada ao limite. É a resposta constante à crítica fácil, com resultados, com “chapadas de luva branca” que alimentam o motor da sua própria exigência. É a prova viva de que o talento pode nascer connosco, mas tem de ser construído, moldado e elevado através de uma ética de trabalho brutal e de uma mentalidade competitiva quase obsessiva.

Cristiano nunca teve uma imprensa totalmente do seu lado, nem uma popularidade consensual. É controverso, porque é diferente. E tudo o que é diferente gera impacto.
O carisma mexe com o mundo.
CR7 é daqueles que ou é admirado ou provoca inveja. E uso este termo de forma consciente.
Lionel Messi, por outro lado, é a arte do futebol em estado puro. É a sensação de que já jogava antes mesmo de nascer. É criatividade sem esforço aparente, uma relação quase inexplicável com a bola, uma capacidade de decidir jogos com uma naturalidade que desafia qualquer lógica.

São opostos. E é precisamente por isso que são extraordinários.
E é também por isso que todos aqueles que dizem gostar de futebol têm a obrigação de ser agradecidos por terem vivido esta era.
Compará-los é não perceber a essência do jogo. É ignorar contextos, modelos de jogo, culturas competitivas e dinâmicas coletivas. É esquecer que o futebol é um fenómeno complexo, onde o rendimento individual não pode ser analisado de forma isolada e simplista.
Mais grave do que isso, é uma falta de respeito.
Falta de respeito pelo jogo. Falta de respeito pela história. Falta de respeito por dois jogadores que parecem ter vindo de outro planeta e que redefiniram padrões de excelência durante mais de uma década.
É por isso que estou a viver estes dias de início de Campeonato do Mundo com alguma nostalgia. Porque este poderá ser o último Mundial em que veremos os dois em campo.
E isso pesa.
A Seleção Nacional entrou em competição. E entrou mal.
O primeiro jogo foi fraco. Muito fraco. Ficou na cabeça de muitos, inevitavelmente, marcada a imagem da ida dos jogadores à praia quando chegaram aos Estados Unidos.
Se me perguntarem, enquanto treinador, se vejo isso como um erro absoluto, digo que não. Não é a praia em si o problema. O problema é o timing e o contexto.
A sensação com que fiquei foi a de que o “chip” competitivo não estava totalmente ligado. E, nesse sentido, esse pequeno momento pode não ter ajudado. Porque pode ter arrastado os jogadores para um climax perigoso.
Há duas coisas perigosas numa equipa que quer ser competitiva. A inércia e o relaxamento. São contagiosas. E, no jogo com a RD Congo, foi exatamente isso que a equipa transmitiu.
A isso juntaram-se decisões discutíveis do ponto de vista tático e estratégico por parte do selecionador. O resultado foi um jogo pobre, com pouca agressividade, pouca objetividade, circulação lenta, apenas um remate à baliza adversária e um empate com sabor a derrota, num dia em que, pelo que se passou no jogo, perder não seria surpreendente.
Como era previsível, o mundo caiu em cima da Seleção.
E, acima de tudo, em cima de Cristiano Ronaldo.
“Está acabado”, “tem de ir para o banco”, “já não faz a diferença” foram algumas das frases que invadiram o espaço público, muitas delas completamente desprovidas de noção.
Depois vieram os fãs de Ronaldo. Os comentários nas páginas dos jogadores da seleção a exigirem que a bola fosse passada a Cristiano. A pressão sobre os colegas. O ruído. Os egos, sempre difíceis de gerir dentro de uma equipa.
Confesso que fiquei com dúvidas sobre a forma como o grupo iria reagir a tudo isto.
Entretanto, e para piorar as coisas, Messi estreia-se com um hat-trick. E, como se fosse inevitável, regressa o ruído. A comparação. A discussão. A narrativa vazia.
Mas a resposta de Portugal e de Cristiano foi clara.
Resposta de equipa. De caráter. De competitividade.
E, mais uma vez, com Cristiano Ronaldo a assumir.
Sim, foi contra o Uzbequistão. E não, não é uma potência mundial. Mas isso não invalida o essencial.
A equipa mostrou união. Mostrou compromisso. E mostrou algo ainda mais importante, vontade coletiva de competir e de valorizar o momento.

Os dois golos de Cristiano marcaram o jogo. Mas houve um momento que, para mim, disse ainda mais.
No lance do golo de Nuno Mendes, com tudo preparado para que Ronaldo finalizasse, a decisão de deixar que fosse o colega a chutar aquela bola para dentro da baliza, foi um detalhe que desmonta muitas das narrativas construídas à volta do seu ego.
São estes pormenores que fazem a diferença. E que obrigam quem opina e fala mal de Cristiano, a pensar duas vezes antes de repetir clichés.
Mais do que a vitória, este jogo pode ter sido um ponto de viragem. E, também nisso, percebe-se o peso de um jogador como Cristiano dentro de uma equipa.
O que entristece é que, no meio disto tudo, o debate continue a ser desviado.
Em vez de se falar de dinâmicas, decisões, comportamentos coletivos e evolução da equipa, insiste-se no mesmo ruído de sempre. Quem é o melhor?
Isto diz muito sobre a forma como o futebol é consumido hoje.
Consome-se rápido. Consome-se de forma superficial. Com necessidade constante de conflito.
Falta profundidade. Falta cultura de jogo. Falta capacidade de observar, interpretar e respeitar.
Porque quem respeita o futebol não precisa de escolher entre Messi e Ronaldo.
Reconhece-os. Valoriza-os.
E percebe o privilégio que foi viver nesta era.
Estamos, muito provavelmente, a assistir aos últimos capítulos destas duas carreiras irrepetíveis. E quando terminarem, não haverá debate que substitua aquilo que tivemos diante dos olhos durante anos.
A verdadeira pergunta nunca foi quem é o melhor.
A verdadeira pergunta é outra. Fomos capazes de perceber o que estávamos a ver?
Ou estivemos demasiado ocupados a discutir o irrelevante?
Uma coisa é certa. Quando tudo isto acabar, vamos sentir falta.
E muita.

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