
O que vale Anselmi?
Nuno Farinha|O FC Porto está a cumprir uma das temporadas mais modestas de que há memória. Venceu um troféu no primeiro jogo oficial (Supertaça), é verdade, mas daí para cá não há mais nada de positivo para recordar.
Na Liga, o melhor a que pode aspirar é ao 3.º lugar. Na Taça de Portugal foi afastado pelo Moreirense logo em novembro (derrota por 2-1). Tombou na meia-final da Taça da Liga (derrota por 1-0, com o Sporting) e ficou pelo caminho no playoff da Liga Europa, frente à Roma (1-1 no Dragão, derrota 3-2 em Itália). Tudo somado, são 23 vitórias, 8 empates e 11 derrotas. Ou seja, em 2024/25, o FC Porto venceu 23 jogos e não venceu 19.
Há muitas razões para a desilusão que está à vista. O claro empobrecimento de um plantel que tem hoje limitações em todos os setores; a falta de dinheiro nos cofres da SAD; a troca de treinador a meio da época; a perda de dois jogadores fulcrais no final de janeiro (Nico e Galeno); e, antes disso, como já se não bastasse, a saída de um líder carismático como Sérgio Conceição e, obviamente, as ondas de choque provocadas pelo fim do ciclo presidencial de Pinto da Costa.
Era (quase) impossível, com tudo isto, que a primeira temporada de André Villas-Boas pudesse ser melhor do que está a ser. O novo presidente foi corajoso nas escolhas que fez para o cargo mais decisivo que existe em qualquer clube: o treinador.
Foi corajoso, primeiro, em deixar a equipa nas mãos de um adjunto que estivera sete (!) anos nesse papel secundário. E voltou a ser corajoso quando, perante o falhanço de Vítor Bruno, recorreu a um jovem treinador, de 39 anos, praticamente desconhecido em Portugal.

Não ser um ‘nome grande’ do futebol não é, obviamente, um problema. Mas não ser um ‘nome grande’, não conhecer a realidade do futebol português, não ter um plantel capaz de competir ao mesmo nível com os dois rivais mais fortes, perder dois jogadores influentes no mercado de inverno e, ainda por cima, implementar um sistema de jogo exigente e que requer tempo para assimilar ideias e maturar processos, então, sim, tudo somado… pode ser um problema! E está a ser, de facto.
Entre a estreia à frente do FC Porto (frente ao Macabbi, a 30 de janeiro) e o último jogo realizado (no Estoril, a 30 de março) passaram exatamente dois meses. Os números de Anselmi são estes: 11 jogos, 5 vitórias, 4 empates e 2 derrotas.
O técnico argentino rompeu com a ideia instalada e adotou, sem hesitar, o sistema tático que trazia do México: 3-4-3. Ficou sempre a sensação, desde o início, que lhe faltavam ‘peças’ de qualidade para poder ‘jogar o jogo’ que tem na cabeça. A insistência (ou será persistência?) no sistema – mesmo sem resultados brilhantes – é a confirmação de que, para Anselmi, o processo está acima de tudo. Para já, é justo dar-lhe o benefício da dúvida.
Quando a época terminar para o FC Porto, depois do Mundial de Clubes, ninguém poderá responsabilizar o treinador se as coisas correrem mal em abril, maio e junho. As 11 derrotas acumuladas na temporada (até março!) são um desastre, sim, mas é preciso lembrar que apenas duas foram sob o comando do atual treinador: 8 pertencem a Vítor Bruno e 1 a José Tavares.
E mesmo sem o ter pedido, Martín Anselmi tem agora “o jogo do ano” pela frente. A parte boa, para ele, é que tem mais a ganhar do que a perder. Uma derrota frente ao Benfica será, convenhamos, o cenário mais esperado. Todas as casas de apostas atribuem o favoritismo à equipa de Bruno Lage – e isso não acontece por acaso.
Já a vitória do FC Porto, a acontecer, servirá para o treinador ver reforçada a sua posição, manter a invencibilidade (pessoal) em jogos no Estádio do Dragão e, no fundo, dar razão ao presidente que já garantiu Anselmi para a temporada 2025/26.

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