
Torreense
Não apenas pelo facto de ter derrotado o “gigante” Sporting num dos palcos mais emblemáticos do desporto nacional, mas sobretudo porque foi alcançada por uma equipa da II Liga, algo que parecia praticamente impossível numa era de profissionalização extrema e de diferenças orçamentais cada vez maiores entre os principais clubes e os restantes emblemas nacionais.
O golo decisivo de Stopira (veterano defesa-central cabo-verdiano de 38 anos) já dentro do prolongamento, transformou-se imediatamente numa das imagens da época. Um momento de glória para um jogador que ficará para sempre ligado ao maior feito da história do clube, e que liderará igualmente a sua seleção numa presença inédita numa fase final de um Mundial.

Quando o árbitro apitou para o final da partida, milhares de adeptos perceberam que estavam a assistir a algo verdadeiramente irrepetível: o Torreense tornava-se a primeira equipa da II Liga a conquistar a Taça de Portugal e garantia, simultaneamente, um lugar nas competições europeias da próxima temporada, arredando dessa possibilidade um sensacional Famalicão (com um inédito 5º lugar no campeonato), e condicionado a época de Benfica e Braga, que deverão começar as suas pré-temporadas em meados de Julho e que terão de disputar pelo menos seis jogos para poderem chegar às respetivas fases de grupos da Liga Europa e da Liga Conferência.
Um feito extraordinário. Mas também algo que deixa inevitavelmente um sabor agridoce. Porque poucos dias depois da festa do Jamor, a realidade bateu à porta da equipa de Luís Tralhão.
O calendário não permitiu grandes celebrações. O plantel teve de interromper rapidamente os festejos da conquista da Taça de Portugal para preparar a segunda mão do play-off de subida contra o Casa Pia.
Enquanto outras equipas teriam vários dias para saborear um dos maiores momentos das suas carreiras, os jogadores do Torreense tiveram de voltar imediatamente ao trabalho, algo que deve ser revisto no futuro. Num jogo desta magnitude, ambas as equipas têm de estar em igualdade de circunstâncias.
E talvez aí esteja uma das maiores injustiças desta história. Uma equipa que acabava de conquistar um troféu histórico, praticamente não teve tempo para o celebrar, e desfrutar do maior momento da história da equipa do Oeste.
A curta distância entre a final da Taça de Portugal e o decisivo encontro do play-off acabou por condicionar inevitavelmente a preparação física, emocional e mental do grupo. Não serve como desculpa para o desfecho final, mas é impossível ignorar o contexto extremamente exigente em que o Torreense teve de competir.
O sonho europeu foi concretizado. O sonho da subida ficou por cumprir. E é precisamente por isso que este Carnaval (Torres de Vedra é sobejamente conhecida pelo seu Carnaval tão único e peculiar com as habituais “matrafonas”) foi simultaneamente perfeito e imperfeito.

Perfeito, porque o clube alcançou algo que ficará para sempre na sua história. Imperfeito, porque faltou aquele que era provavelmente o objetivo prioritário da temporada: regressar à Primeira Liga.
Ainda assim, seria profundamente injusto analisar esta época sem destacar o trabalho extraordinário realizado por Luís Tralhão. O treinador conseguiu construir uma equipa competitiva, organizada, corajosa e com uma identidade muito própria. Durante largos períodos da temporada, o Torreense praticou um futebol de grande qualidade e demonstrou estar preparado para competir com qualquer adversário nacional. Se houve equipa que mereceu discutir até ao último segundo a subida de divisão, foi esta.
Do outro lado da história e no que diz respeito à final da Taça de Portugal, ficou um Sporting profundamente dececionante na final do Jamor. Os leões apresentaram uma exibição muito abaixo do esperado, marcada por falta de intensidade, pouca agressividade competitiva e uma estranha incapacidade para perceber a dimensão do momento que estavam a disputar.
As palavras do capitão Morten Hjulmand após o encontro, assumindo a insuficiente atitude da equipa, acabaram por confirmar aquilo que muitos adeptos sentiram durante os noventa minutos. Mais tarde, também Frederico Varandas surgiu a público para apontar responsabilidades, numa reação que muitos consideraram tardia perante uma época que termina sem títulos.
E essa ausência de conquistas acaba inevitavelmente por lançar novas dúvidas sobre o futuro de Rui Borges. Apesar da recente renovação contratual e de uma temporada em que o Sporting produziu, em muitos momentos, um futebol atrativo e de qualidade, a verdade é que os títulos continuam a ser a principal moeda de avaliação nos grandes clubes.
O contraste entre Sporting e Torreense no final da época é curioso. O Sporting termina sem troféus, apesar da qualidade exibicional demonstrada em muitos momentos da temporada. O Torreense termina sem subida de divisão, apesar da conquista do troféu mais importante da sua história. Mas enquanto em Alvalade predominam as dúvidas e as reflexões sobre o futuro, em Torres Vedras sobra orgulho e euforia.
Com um bom planeamento da direção do clube, a subida de divisão pode voltar a ser discutida já na próxima época. Já uma Taça de Portugal conquistada por uma equipa da II Liga continuará a ser um feito que atravessará gerações.
E talvez por isso, apesar da desilusão do play-off, esta continue a ser a época mais bonita que o Torreense alguma vez viveu.

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