
Beira-Mar: a paixão aurinegra não esmorece
Craques|O clube que já foi primodivisionário e que todos recordam vive, hoje, momentos delicados nas divisões inferiores. Desde 2015 que o Beira-Mar teve de arrancar novamente das das distritais, devido a problemas administrativos mas o amor dos adeptos pelo clube continua a ser a principal alavanca para um futuro melhor. Beira-Mar: a paixão aurinegra não esmorece.
Atualmente, o histórico clube aurinegro milita no Campeonato de Portugal, o quarto escalão do futebol português. Apesar de competir num campeonato nacional, o Beira-Mar encontra-se ainda longe dos grandes palcos e, principalmente, dos feitos alcançados na década de 90 e no início do século.
O futebol começou a ser praticado em Aveiro depois do fim da I Guerra Mundial (1914-18). Mas já existia na região um clube que fora fundado pelo lendário Mário Duarte, reputado atleta natural de Aveiro e considerado, nos anos 20 do século passado, como o “Sportsman mais completo de Portugal”.
No dia de Natal de 1921, no Largo do Rossio, em Aveiro, o Club Mário Duarte defrontou um grupo de jovens que, seis dias depois, viriam a fundar o Sport Clube Beira-Mar. Com camisolas pretas e amarelas, de riscas verticais, o clube filiou-se na AF Aveiro e começou a competir no campeonato regional, conquistando o primeiro título em 1928/29. Dessa forma, quebrou a sequência hegemónica do Sporting de Espinho, que já ia com quatro títulos ganhos de forma consecutiva.

Pela marca eclética que deixou no desporto – praticou várias modalidades – Mário Duarte acabaria por tornar-se presidente honorário do Beira-Mar a partir de 1930. E, mais tarde, já depois da sua morte, em 1939, o seu nome haveria de batizar, então, o estádio do clube aurinegro para sempre.
O Beira-Mar cresceu como o embaixador do futebol aveirense, conquistando o Campeonato de Aveiro cinco vezes até ao fim dos anos 50. O salto para o panorama nacional só surgiu em 1958/59, com o título da III Divisão, seguido da conquista da II Divisão em 1960/61. Esta garantiu, então, a estreia no escalão máximo do futebol português.
Apesar das dificuldades iniciais, com descidas rápidas e pouca consistência, o clube mostrou resiliência, regressando ao topo nos anos 70. Manteve-se entre os grandes do futebol português durante três épocas consecutivas, tendo, numa delas, contado com a passagem fugaz, mas marcante, de Eusébio da Silva Ferreira em 1976/77.

Além do Pantera Negra, o Beira-Mar acolheu vários craques geracionais. No topo da lista destaca-se Magdi Abdelghani, o egípcio que esteve em Aveiro de 1988 a 1992. O médio-defensivo participou no Mundial ‘Itália 90’ enquanto futebolista aurinegro – nos três jogos que o Egipto fez, alinhou em todos e marcou um golo (frente à Holanda), o único da seleção nesse torneio.

Nesta lista contemplam-se outros grandes nomes, como António Sousa, recordista de jogos pelo Beira-Mar (206), que viria a saltar depois para o FC Porto; o internacional brasileiro Acácio, guarda-redes do Beira-Mar entre 1992 e 1995, que também esteve no ‘Itália 90’; o incontornável capitão Dinis, que liderou a defesa aurinegra de 1987 a 1995; o avançado brasileiro Dino ‘Furacão’, que vestiu amarelo e preto entre 1990 e 1994; ou Fary Faye, o senegalês matador que é o melhor marcador da história beiramarista na 1ª Divisão, com 54 golos.
Na década de 80 e 90, o Beira-Mar viveu, então, o seu auge. Após regressar à I Divisão em 1988, permaneceu sete épocas no escalão máximo, alcançando um impressionante 6º lugar em 1990/91, com o egípcio Abdelghani como estrela. Nesse ano, o clube chegou à final da Taça de Portugal, mas caiu frente ao FC Porto. A tão sonhada qualificação para as competições europeias ficou como um “quase” que ainda hoje é lembrado pelos adeptos.

Mas a época de 1998/99 é um marco eterno. Apesar da despromoção da I Liga, o Beira-Mar, treinado por António Sousa, chegou à final da Taça de Portugal. Com Ricardo Sousa, filho do treinador, a apontar o golo decisivo no Estádio do Jamor, o clube aveirense venceu o Campomaiorense por 1-0, conquistando a sua única Taça de Portugal.
Este triunfo colocou o Beira-Mar no restrito grupo de vencedores da prova e garantiu a estreia europeia na época seguinte. A eliminação na 1ª ronda da Taça UEFA, frente aos neerlandeses do Vitesse, não impediu, ainda assim, os aveirenses de mostrarem a sua qualidade (1-2 e 0-0). Nessa eliminatória, que terminou com o resultado agregado 2-1, o único marcador de um golo europeu do Beira-Mar foi Fary Faye. Um dos históricos do Beira-Mar que é, hoje, administrador da SAD do Boavista.
Hoje, o Beira-Mar luta para recuperar o seu lugar entre os grandes. Com uma Taça de Portugal, dois títulos da Segunda Liga, três da II Divisão B e um da III Divisão no palmarés, é o clube de Aveiro com mais títulos nacionais. No entanto, as crises financeiras e administrativas que se seguiram neste milénio dificultaram a manutenção e o crescimento do clube nas divisões mais altas.
Ainda assim, a paixão dos adeptos mantém viva a chama de um clube que já provou ser capaz de feitos extraordinários. Os Ultras AuriNegros são, ainda hoje, uma das grandes forças do clube.


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