Miúdos sem medo derrubam o gigante: caiu a invencibilidade do Sporting
Tiago Campos|
O Sporting parecia intocável em Portugal. Durante 692 dias, nenhuma equipa tinha conseguido derrotar os leões numa competição nacional.
Foram quase dois anos de domínio, títulos e uma sequência que transformou a equipa de Ricardo Costa na grande referência do andebol português. Até aparecer um FC Porto jovem, irreverente e sem medo do gigante.
Foto: FC Porto
Os dragões venceram o Sporting por 34-32, no Dragão Arena, na 11.ª jornada do Campeonato Nacional, e colocaram um ponto final numa série que resistia desde 9 de dezembro de 2024.
Nessa altura, tinha sido o Benfica, com um triunfo por 38-34, a provocar a última derrota leonina em território nacional. Desde então, passaram-se 65 jogos consecutivos sem perder nas provas internas.
O clássico colocava frente a frente as duas únicas equipas que ainda só sabiam vencer no campeonato. Ambas chegaram ao Dragão Arena com 27 pontos e nove triunfos, mas foi o FC Porto que saiu do duelo isolado na liderança. E fê-lo numa tarde em que alguns dos protagonistas principais ainda estão nos primeiros anos das respetivas carreiras.
Diogo Rêma, Ricardo Brandão e Vasco Costa foram os rostos maiores da vitória portista. Três jogadores portugueses, todos com 22 anos ou menos, que não tremeram perante uma equipa habituada a vencer e recheada de internacionais.
Na baliza, Rêma voltou a mostrar por que razão é considerado uma das grandes promessas portuguesas da posição. O guarda-redes de 22 anos terminou a partida com 18 defesas e apareceu repetidamente quando o Sporting ameaçava recuperar o controlo do encontro.
Foto: FC Porto
A última intervenção foi também uma das mais simbólicas: já no minuto final, negou o golo a Kiko Costa e praticamente selou o triunfo azul e branco.
Mais à frente, Ricardo Brandão assinou uma exibição perfeita. O pivô de 22 anos marcou 10 golos em 10 remates, terminou como melhor marcador do encontro e causou enormes dificuldades à defesa leonina junto dos seis metros. Foi também dele o 34.º e último golo portista, aquele que colocou definitivamente a vitória a salvo.
Foto: FC Porto
Vasco Costa, com apenas 20 anos, completou o trio. O lateral marcou oito golos e também não desperdiçou qualquer remate, assumindo responsabilidades ofensivas num dos jogos de maior exigência do calendário nacional.
Foto: FC Porto
Brandão e Vasco terminaram, assim, com 18 golos em 18 remates, números que ajudam a explicar a dimensão da tarde vivida pelos jovens dragões.
O Sporting chegou a liderar por 3-2 nos primeiros minutos, mas o FC Porto rapidamente assumiu o controlo. A equipa de Carlos Martingo encontrou soluções junto da linha dos seis metros e, apoiada também pelas intervenções de Rêma, construiu uma vantagem que chegou aos quatro golos.
Os dragões chegaram ao 11-7 e mantiveram-se na frente até ao intervalo, apesar da reação leonina nos minutos finais da primeira parte. O Sporting conseguiu reduzir a diferença, mas recolheu aos balneários ainda em desvantagem por 16-14.
A segunda parte trouxe um Sporting mais próximo e um clássico cada vez mais apertado. Kiko Costa e Natán Suárez, ambos com sete golos, tentaram empurrar os leões para a recuperação e a igualdade chegou finalmente nos últimos dez minutos.
O Sporting fez o 26-26 e voltou a igualar a partida a 28 golos. Era o momento em que a experiência de uma equipa habituada a decidir títulos poderia fazer a diferença. A juventude portista, porém, não acusou a pressão.
O FC Porto voltou a colocar-se na frente e resistiu às sucessivas aproximações do adversário. Mesmo quando esteve em inferioridade numérica, Rêma apareceu na baliza.
No ataque, Brandão e Vasco Costa continuaram a responder. O Sporting ainda chegou ao 33-32 já no último minuto, mas Brandão assinou o 34-32 e Rêma tratou de fechar a porta no ataque seguinte.
A dimensão do resultado vai muito além dos três pontos. O Sporting não sofria uma derrota nas competições nacionais desde dezembro de 2024 e atravessou praticamente duas temporadas sem conhecer esse resultado em Portugal.
Pelo caminho, a equipa de Ricardo Costa consolidou o seu domínio interno e chegou ao Dragão Arena como tricampeã nacional. Nem o próprio FC Porto conseguia encontrar uma forma de derrubar o rival: os azuis e brancos estavam há mais de dois anos e meio sem vencer os leões e tinham passado 13 confrontos consecutivos sem conseguir fazê-lo.
A série terminou numa tarde em que o FC Porto não precisou que os seus jogadores mais experientes monopolizassem o protagonismo. Foram Rêma, Brandão e Vasco Costa, três representantes de uma nova geração do andebol português, a assumir grande parte da responsabilidade.
Foto: FC Porto
O 34-32 deixa ainda os dragões isolados no topo do campeonato e como a única equipa que continua sem derrotas na prova. Mas ficará sobretudo como o jogo que provou que o Sporting não era invencível. Depois de 692 dias, o gigante caiu. E foram os miúdos sem medo, que ajudaram a derrubá-lo.