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Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

Mais um verão de mudanças: milhões, estrelas e uma revolução no futebol português

Tiago CamposTiago Campos|

Os três grandes perderam algumas das suas maiores figuras, o Braga despediu-se de dois pilares e os reforços chegaram em força. De Alvalade à Luz e do Dragão ao Minho, o mercado de 2026 redesenhou alguns dos principais candidatos e deixou o futebol português com novas caras para descobrir.

O mercado de transferências de verão de 2026 dificilmente passará despercebido. Benfica, FC Porto e, sobretudo, Sporting sofreram alterações profundas nos respetivos plantéis, perderam jogadores de enorme influência e responderam com investimentos e apostas importantes. O SC Braga não escapou à tendência e viu partir dois dos grandes protagonistas da temporada passada, enquanto vários clubes fora do habitual quarteto da frente também aproveitaram a janela para encontrar reforços interessantes.

Mais do que uma sucessão de negócios milionários, este foi um mercado de mudança de referências. Jogadores que pareciam indissociáveis das respetivas equipas partiram, jovens talentos deram novos passos nas carreiras e os principais clubes portugueses chegam a 2026/27 obrigados a construir novas hierarquias.

Se existe um clube onde a palavra revolução se aplica sem exagero, é o Sporting.

Francisco Trincão, Geovany Quenda e Morten Hjulmand já representavam três perdas de enorme dimensão. Trincão oferecia criatividade, desequilíbrio e produção ofensiva; Quenda era uma das maiores pérolas produzidas recentemente em Alcochete; e Hjulmand tinha-se transformado numa referência competitiva no meio-campo leonino. Mas o mercado ainda guardava mais despedidas.

Pedro Gonçalves rumou à Fiorentina e Daniel Bragança ao Torino, aumentando significativamente a dimensão da transformação na equipa de Alvalade. Pote deixa para trás anos de golos, assistências e momentos decisivos, enquanto Bragança encerra, pelo menos por agora, uma ligação construída desde a formação e depois consolidada na equipa principal. O médio sai com 161 jogos pelo Sporting e três campeonatos nacionais conquistados.

Não se tratou, portanto, simplesmente de substituir jogadores. O Sporting perdeu uma parte importante da identidade da equipa que construiu nos últimos anos.

A resposta também passou pela maior transferência de sempre entre clubes portugueses. O internacional uruguaio Rodrigo Zalazar trocou o SC Braga pelo Sporting por 30 milhões de euros, depois de uma época em que somou 23 golos e oito assistências em 47 encontros. O uruguaio assinou até 2031 e chega para oferecer criatividade, intensidade, remate e chegada à área.

Rodrigo Salazar – Foto Sporting CP

O Sporting que inicia esta temporada é, inevitavelmente, muito diferente daquele a que nos habituámos. Perdeu talento, referências e vários jogadores identificados com o projeto, mas respondeu com uma remodelação ambiciosa. Nenhum dos candidatos ao título terá provavelmente um processo de reconstrução tão interessante para acompanhar.

Também na Luz houve uma despedida particularmente significativa. António Silva (transferido para os ingleses do Bournemouth), deixou o Benfica ao fim de 11 anos ao serviço do clube, encerrando um percurso iniciado na formação e que o levou a tornar-se titular da equipa principal e internacional português.

António Silva – Foto: Bournemouth

Nas entradas, porém, as últimas horas trouxeram duas novidades importantes,  e acabaram definitivamente com uma das incógnitas deste mercado encarnado.

Souffian El Karouani é jogador do Benfica. O lateral-esquerdo internacional marroquino, de 25 anos, chegou do Al-Qadisiyah por empréstimo até ao final da temporada, ficando os encarnados com opção de compra. É uma nova solução para um corredor onde o Benfica procurava aumentar a concorrência.

Souffian El Karouani – Foto: SL Benfica

Mas o nome que promete despertar maior curiosidade é Claudio Echeverri.

O médio-ofensivo argentino de 20 anos foi oficialmente apresentado como reforço nesta quarta-feira e chega cedido pelo Manchester City até ao final de 2026/27, também com opção de compra de 21 milhões de euros. 

Antiga jóia do River Plate, Echeverri passou ingloriamente na última temporada pelo Bayer Leverkusen e Girona e procura agora na Luz o espaço necessário para transformar enorme potencial em afirmação definitiva no futebol europeu.

Um argentino talentoso, criativo e formado no River Plate chegará sempre ao Benfica acompanhado por expectativas especiais. Echeverri sabe-o: na apresentação lembrou os compatriotas que tiveram sucesso na Luz e recebeu precisamente a camisola 30 anteriormente utilizada por Nicolás Otamendi.

Claudio Echeverri – Foto: SL Benfica

No Dragão, a saída com maior significado é inevitavelmente a de Rodrigo Mora para os italianos da Roma. Um dos melhores produtos da formação dos últimos anos do quadro azul e branco e um dos maiores talentos portugueses da sua geração, o médio ofensivo conquistou rapidamente protagonismo na equipa principal. A partida significa não apenas perder qualidade imediata, mas também abdicar de um jogador com enorme margem de progressão e valorização, que nunca encaixou na rigidez táctica do técnico italiano Francesco Farioli.

Rodrigo Mora – Foto: AS Roma

O FC Porto respondeu igualmente com uma remodelação que trouxe novas soluções para diferentes setores. João Souza chegou proveniente do Tottenham para o lado esquerdo da defesa, enquanto o ponta-de-lança internacional mexicano Santi Giménez representa uma nova referência para o ataque portista, tentando voltar aos níveis de confiança e rendimento que outrora fizeram com que tivesse estado na agenda de clubes como o Real Madrid.

João Souza – Foto: FC Porto
Santiago Giménez – Foto: FC Porto

Há ainda o regresso de Fofana (elemento essencial na conquista do campeonato na época transacta), aumentando as alternativas à disposição da equipa técnica.

E às movimentações já conhecidas juntou-se Gabriel Mec. O jovem talento brasileiro de 18 anos deixa o Grêmio para reforçar os dragões por 11 milhões de euros, numa aposta que olha claramente também para o futuro. 

Mec enquadra-se num perfil que o FC Porto conhece bem: talento sul-americano ainda numa fase precoce da carreira, contratado não apenas pelo que já oferece, mas sobretudo pelo jogador em que poderá transformar-se. Veremos é se a sua imprevisibilidade e qualidade técnica serão entendidas e respeitadas por Farioli, que não deve voltar a cometer o erro de querer formatar jogadores.

Gabriel Mec – Foto: FC Porto

Entre a perda de Rodrigo Mora e a chegada de jogadores com características bastante diferentes, o FC Porto também entra fortemente exigido por voltar a disputar a Champions League na nova temporada, e com uma identidade ofensiva por descobrir.

Se os três grandes tiveram de lidar com despedidas importantes, o SC Braga perdeu dois protagonistas absolutos da excelente temporada anterior: Lukáš Horníček e Rodrigo Zalazar.

Horníček afirmou-se como uma das grandes figuras arsenalistas antes de partir para o Newcastle. O internacional checo assinou um contrato válido por cinco temporadas com o clube da Premier League, depois de se valorizar de forma extraordinária em Braga.

Zalazar representava outra dimensão do jogo arsenalista. Os 23 golos e oito assistências em 47 partidas ajudam a explicar aquilo que Carlos Vicens perdeu com a transferência do uruguaio para Alvalade.

Perder guarda-redes e médio ofensivo no mesmo verão seria sempre um desafio, sobretudo quando ambos estavam perfeitamente estabelecidos como referências.

Ainda assim, o Braga tem mostrado capacidade para se reinventar. E jogadores como Diego Rodrigues, decisivo no dérbi minhoto, começam já a procurar o espaço deixado por quem partiu.

Diego Rodrigues – Foto: SC Braga

As movimentações interessantes não ficaram limitadas aos clubes de maior poder financeiro.

O Famalicão, por exemplo, voltou a procurar talento jovem no estrangeiro e contratou Georgios Koutsias. O avançado grego chegou do Lugano numa transferência avaliada em cerca de €2,5 milhões e acrescenta mais um nome interessante a um plantel famalicense habituado a apostar em jogadores com margem de valorização.

Georgios Koutsias – Foto: FC Famalicão

É precisamente esta capacidade de procurar talento em mercados diferentes que continua a tornar o campeonato português particularmente interessante. Para muitos destes jogadores, Portugal representa simultaneamente uma oportunidade competitiva e uma montra para os principais campeonatos europeus.

Todos os anos partem protagonistas. Todos os anos parece necessário encontrar os próximos. Portugal continua a perder estrelas, mas continua a encontrá-las Talvez seja esta a melhor conclusão possível depois de um verão tão agitado.

Trincão, Quenda, Hjulmand, Pote e Daniel Bragança deixaram o Sporting. António Silva saiu do Benfica. Rodrigo Mora despediu-se do FC Porto. Horníček e Zalazar abandonaram Braga.

São jogadores de perfis e momentos de carreira diferentes, mas todos tinham influência significativa nas respetivas equipas. E, no entanto, chegam outros. Tal como a vida, o futebol é feito de ciclos.

Zalazar muda para um candidato ao título e assume um novo desafio em Alvalade. Echeverri aterra na Luz carregado de talento e expectativa. El Karouani aumenta as opções encarnadas. Santi Giménez procura golos no Dragão e Gabriel Mec representa uma aposta portista no futuro. Koutsias tenta ser o próximo jovem estrangeiro a utilizar Portugal como palco de afirmação.

É um ciclo que o futebol português conhece demasiado bem. Vendê-los quando se tornam estrelas. Encontrar outros antes de o serem.

O verão de 2026 levou algumas das caras mais reconhecíveis do nosso campeonato e obrigou os principais clubes a mudar. Uns parecem ter encontrado substitutos imediatos; outros precisarão de tempo para reconstruir aquilo que perderam.

Os milhões já mudaram de mãos. Os contratos estão assinados e as fotografias com as novas camisolas já foram tiradas. Agora fala o relvado.

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