
Rui Gama – fazedor de campeões na natação de Síndrome de Down
Craques|No desporto, brilham os nomes dos grandes atletas. Aqueles que quebram barreiras, batem recordes e se tornam lendas e exemplos para quem os segue com paixão. Mas, diz a velha máxima, ninguém triunfa sozinho. Por detrás dos campeões, há os treinadores que os trabalham e os levam a superar, muitas vezes, obstáculos que seriam intransponíveis caso eles lutassem sozinhos. É o caso de Rui Gama – um fazedor de campeões na natação de Síndrome de Down. Que o diga Vicente Pereira, o super-campeão desta modalidade que continua a bater recordes atrás de recordes.
“Trabalho com o Vicente há 8 anos, ou seja, quando ele tinha 12. E com essa idade, o Vicente ainda não sabia nadar. Comecei a dar-lhe aulas individuais em 2017/18 e ele desenvolveu-se de uma forma incrível. A primeira competição em que ele participou foi no Festival de Natação em 2018 ou 2019, no Jamor. A partir daí, foi sempre a ganhar”, refere o treinador, que reconhece que Vicente podia hoje já estar noutro patamar. Assim as mais altas instâncias do governo interferissem.

Rui Gama começa logo por fazer uma analogia com um nadador espanhol. “Há um atleta espanhol, também com Trissomia 21, que é reconhecidíssimo em Espanha. O Guillermo Gracia é um grande campeão e vai a inúmeros programas de televisão e é entrevistado por vários meios espanhóis. Temos pena que em Portugal, os nossos atletas não sejam tão apoiados como outros são lá fora”, explica. Ainda assim, lembra, felizmente “há prémios desportivos e apoios estatais, programas criados para este rol de atletas com Síndrome de Down”. Tratam-se, então, de “bolsas e prémios monetários pelas medalhas que alcançam, o que lhes permite ter alguma independência financeira para gerir as suas carreiras e terem boas condições de treino.”
Vicente Pereira não tem o reconhecimento “que merece” por questões… políticas. “O Vicente pode competir em 20 competições internacionais e não ganha um cêntimo com isso. A modalidade de natação para pessoas com síndrome de Down não entra nos Jogos Paralímpicos porque nos dizem que, para tal acontecer, seria preciso que alguma outra saísse do lote de 4800 lugares nos Jogos. Só que continuam a entrar outras modalidades e esta fica sempre de fora”, confessa.

Rui Gama explicou ainda o que pode gerar confusão. Síndrome de Down e Trissomia 21 são a mesma coisa ou não? “Não. A Síndrome de Down divide-se em duas categorias. Na Trissomia 21, em que todas as células estão afetadas e têm o cromossoma 21 extra, e nos Mosaicos, em que só parte das células estão afetadas. O Vicente tem trissomia 21 mas já ganhou provas a atletas mosaicos”, explica.
E se por um lado o espanhol Guillermo Gracia só compete na Virtus Sports, entidade reconhecida pelo Comité Paralímpico Internacional, já Vicente Pereira é obrigado a competir na DSISO, uma vez que a Federação Portuguesa de Natação colabora com esta entidade. Mas só mudando para a Virtus Sports é que tudo mudaria. “Dessa forma, ficaríamos um pouco mais perto do Comité Paralímpico Internacional”, reconhece o treinador e osteopata.

Mas Vicente Pereira até já venceu Guillermo Gracia. Quando? “Só uma vez. Porque foi na única vez em que competimos na Virtus Sports, num Europeu, em França, mas com meios próprios. E o Vicente mostrou que é um grande campeão. Para nós não foi uma surpresa, mas ali ficou bem claro para todos os que assistiram”, explica.
E para Rui Gama, “é sensível gerir a expetativa do maior nadador do Mundo.” “Para os Jogos Olímpicos de Los Angeles [2028], a categoria deles não foi incluída. E, muito provavelmente, o Vicente vai passar toda a geração dele à porta dos Olímpicos. O sonho dele é ir aos Jogos Olímpicos e continuamos a acreditar que é possível. Mas, para já, não passa disso. É esperança só…”

Rui Gama não treina só Vicente Pereira. “Como treinador, tenho três atletas no Top 10 Mundial. Projeta-me como melhor treinador do Mundo, mas, neste caso, premeia-me apenas pelo meu trabalho. Ganho uns trocos para pagar a gasolina e, neste campo, trabalho a recibos verdes desde 2007”, explica quem não pode fazer vista disto.
“Tenho uma família para cuidar. Se eles fossem aceites pelo Comité Paralímpico Internacional, recebia uma bolsa por cada um. Assim, dedico-me à carreira de osteopata. Já trabalhei em ambiente clínico e na CUF. Agora tenho a minha clínica, a OsteoGama, situada na Margem Sul do Tejo, mais precisamente em Almada”, refere.

A finalizar, Rui Gama lamenta o facto de os feitos de Vicente Pereira não terem o digno reconhecimento. “Tenho a certeza de que estaríamos hoje noutro patamar completamente indiscutível”, diz. Afinal, estamos a falar de um atleta que já conquistou 17 títulos de Campeão do Mundo, 27 títulos de Campeão da Europa, e estabeleceu 10 recordes mundiais e 17 recordes nacionais na natação S21.

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