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A queda de Félix

A queda de Félix. Foto: SL Benfica

A queda de Félix

Nuno FarinhaNuno Farinha|

O futebol nunca poderá ser visto apenas à luz dos números, mas, em 2025, também é impossível ignorá-los e viver sem eles. Os decisores – presidentes, diretores desportivos, agentes e, até, treinadores – há muito que passaram a incluir no processo de decisão a informação estatística que é tratada pelos especialistas que se foram tornando indispensáveis nas estruturas do futebol profissional.

Tudo – literalmente tudo – o que um jogador de futebol faz hoje em treino e jogo é “radiografado”, dissecado, analisado e comparado. O lado mensurável da atividade de um profissional é, nos dias de hoje, precioso material de informação que suporta a tomada de decisão. Seja para comprar ou não ‘aquele’ médio. Seja para decidir se joga este ou o outro guarda-redes. Seja para saber que avançado tem mais capacidade – e que capacidade é essa – para se deslocar a alta intensidade no momento de recuperação de bola.

Há, depois, aquilo que nunca será possível ‘ler’ com objetividade e que estará sempre sujeito à interpretação dos mesmos decisores. Como se lê, por exemplo, a mente de um jogador? Como se explica que um médio que corra 12 quilómetros num jogo tenha dificuldades em ocupar os espaços certos e que outro, que corra apenas 8, esteja sempre onde deve estar? Que máquina existe para ‘medir’ a capacidade técnica, o nível de criatividade ou a inteligência na mais simples tomada de decisão?

É por isso que o jogo, por mais rápido que continue a evoluir, será sempre uma luta entre factualidade e sensação. A competência é, na maior parte dos casos, objetiva. O talento também pode ser, mas muito menos. E, por fim, a complexidade em perceber o quanto um jogador – apenas um – pode impactar no coletivo em qualquer dos sentidos. Seja para elevar o nível do grupo através da sua ação individual ou, pelo contrário, dinamitar o objetivo do grupo se estiver ‘ausente’ ou não for capaz de entender, interpretar e executar o papel que lhe foi destinado.

Poucos adeptos, espectadores e amantes do jogo se deram alguma vez ao trabalho de tentar saber quanto tempo tem um jogador a bola em seu poder durante os 90 minutos. A média – segurem-se – são apenas… 2 minutos! A pergunta seguinte deve ser: então e o que está a fazer nos outros 88? É mais importante, assim, o que um jogador faz com bola (durante 2 minutos) ou sem bola (em 88)?

É, provavelmente, nesta resposta que está a chave para aquilo que tem sido a carreira de João Félix desde que saiu do Benfica, em 2019. Para além dos dados mais complexos e específicos, há depois aquela informação básica, que se resume a questões mais simples e diretas, que permitem conclusões também mais óbvias: jogos, golos e assistências. Olhemos, então, para o que Félix fez nas últimas sete temporadas:

2018/19: 43J 20G 8A (Benfica)
2019/20: 36J 9G 3A (At. Madrid)
2020/21:40J 10G 5A (At. Madrid)
2021/22: 35J 10G 5A (At. Madrid)
2022/23: 40J 9G 3A (At. Madrid/Chelsea)
2023/24: 44J 10G 6A (Barcelona)
2024/25: 41J 10G 2A (Chelsea/AC Milan)

Total: 279J 78G 32A

0,27 golos por jogo
0,11 assistências por jogo

Na Seleção Nacional, os números estão em linha com a atividade nos clubes. Fez 45 jogos na equipa principal, marcou 9 golos. Ou seja, 0,2 por jogo. No fundo, João Félix precisa de 5 jogos para fazer um golo na Seleção.

Ao dia de hoje, a carreira de João Félix, entre clubes (Benfica, Atlético de Madrid, Barcelona, Chelsea e AC Milan) e Seleção Nacional perfaz um total de 324 jogos e 87 golos. É pouco. Muito pouco, aliás, para tanto talento e para quem tem a missão de criar/desequilibrar e passa entre 60 a 70% do tempo de jogo no último terço do adversário.

Só houve uma temporada em que marcou mais do que 10 golos (foram 20, no Benfica, em 2018/19) e, já agora, a época em que fez mais assistências (8) foi a mesma, também na Luz.

No fundo, a frieza dos números apresentados confirma o terrível dilema de Félix: é ‘curto’ para Espanha, Inglaterra e Itália, mas é ‘gigante’ para Portugal. Ainda estará a tempo de provar que estamos enganados?

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