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Os 10 pecados de Rui Costa

Os 10 pecados de Rui Costa. Foto: SL Benfica

Os 10 pecados de Rui Costa

Nuno FarinhaNuno Farinha|

O 10, o número fetiche do presidente do Benfica, é o número que também pode servir para elencar os maiores erros do mandato de Rui Costa, que está a cinco meses de chegar ao fim. A nação benfiquista divide-se hoje entre virtudes e defeitos de um líder que, na verdade, lidera pouco. O que terá sido decisivo, afinal, para levar ao cadeirão presidencial de um dos maiores clubes do Mundo um homem sem qualidades de gestão, sem carisma e sem capacidade de decisão?

O benfiquismo que se lhe reconhece e a carreira profissional que realizou (80% do tempo em Itália) serão justificação suficiente, por si só, para a confiança que os sócios lhe deram em 2021 para assumir a presidência do Sport Lisboa e Benfica? Que qualidades provou ter, enquanto dirigente, desde o dia em que foi empossado diretor desportivo, ainda em maio de 2008? Objetivamente, o que fez, nos 13 anos seguintes, que justificasse a chegada ao topo da pirâmide no clube e na SAD da Luz?

Rui Costa, que se prepara para enfrentar um alargado movimento de oposição (como há muito tempo não existia no Benfica), vai ter de provar, nos próximos meses, aquilo que nunca conseguiu mostrar no primeiro mandato: capacidade para liderar, transformar, recuperar, reestruturar e reinventar um clube e uma SAD à beira de um ataque de nervos.

E terá de fazê-lo no período em que o eterno rival, Sporting, ameaça tornar-se hegemónico no futebol português e em que acaba de ver Frederico Varandas tornar-se no presidente mais titulado da história dos leões. Tudo isto, imagine-se, no primeiro mandato de Rui Costa. Haverá segundo?

Erro 1: VIKTOR GYOKERES

O ponta-de-lança do Sporting, que é hoje um dos avançados mais desejados na Europa, esteve na lista de possíveis contratações do Benfica entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Identificado pelo scouting das águias (ver erro 7), o estado-maior responsável pela gestão do futebol profissional das águias entendeu que o avançado não justificava o que o Coventry pedia naquele inverno (cerca de 10 milhões de libras). O facto de Gyokeres competir no Championship… também não convenceu quem tinha de tomar a decisão. O sueco foi chumbado, mas Roger Schmidt continuou a reclamar por um ponta-de-lança. Acabou por ser contratado Tengsted. O resto é história.

Erro 2: BRUNO LAGE

Rui Costa foi um dos dirigentes do Benfica que promoveu o regresso de Jorge Jesus ao Benfica, no verão de 2020. Para Jesus regressar, Lage teria de sair. Tudo isso aconteceu com Rui Costa a acompanhar o processo de perto e a validar ambas as operações. Quatro anos depois, foi o mesmo Rui Costa a convidar Bruno Lage para regressar. Entre a saída e o regresso à Luz, Lage tinha apenas colecionado fracassos e despedimentos. Em Inglaterra e no Brasil. O que terá mudado, então, na cabeça do presidente? Se o técnico já não servia em 2020, e se apenas colecionou insucessos daí para cá, por que razão haveria, agora, o mesmo treinador ter êxito?

Erro 3: ROGER SCHMIDT

Mais do que a contratação do treinador, que até foi campeão, o desastre foi o timing da renovação. A meio da 2.ª volta do campeonato (2022/23), Rui Costa fechou um novo contrato milionário com o treinador alemão, que seguia na frente da Liga com 10 pontos de avanço e que estava a fazer uma excelente Liga dos Campeões. De repente, após a renovação, o Benfica entrou numa espiral de maus resultados e acabou por vencer à justa um campeonato que estava mais do que ganho. Se Schmidt tinha ainda dois anos de contrato, porquê a renovação naquela altura? Apenas para cavalgar a onda populista e anunciar que acabara de blindar o treinador por quem os adeptos estavam apaixonados. Ficou cara essa renovação ao Benfica. A época seguinte foi um desastre. O presidente, ainda assim, deixou Schmidt iniciar 2024/25, mas o treinador só resistiu quatro jornadas e a SAD encarnada teve, assim, de pagar a maior indemnização da história do futebol português.

Erro 4: JURASEK E COMPANHIA

O lateral checo não é um caso único de mau trabalho nas contratações das águias desde que Rui Costa é presidente. Mas é, de certeza, o caso mais bizarro. David Jurasek será, muito possivelmente, um dos jogadores mais limitados que algum dia vestiu a camisola do Benfica. Mesmo assim, a SAD das águias aceitou pagar 14 milhões (!!!) de euros por este jogador, que dificilmente seria titular em qualquer outra equipa do nosso campeonato. Uma contratação misteriosa – não há outro termo para a classificar. Podemos acrescentar à lista, entre muitos outros, nomes como Tengsted ou Arthur Cabral. Nestes três jogadores (Jurasek, Tengsted e Arthur), o Benfica investiu quase 50 milhões de euros. Dá para acreditar? E aqui, quem tem responsabilidade? Quem a assume? E de que forma?

Erro 5: HOSPITAL PSG

Em 2022/23, Draxler. Em 2023/24, Bernat. Em 2024/25, Renato Sanches. Em três épocas consecutivas, o Benfica recebeu três jogadores do Paris Saint-Germain por empréstimo. Todos eles grandes nomes, todos eles em mau estado físico. Draxler, Bernat e Renato passaram a maior parte do tempo na clínica e no departamento médico do Seixal – com o Benfica a suportar parte dos altíssimos salários dos jogadores do PSG. E enquanto os adeptos dos encarnados assistiam às recorrentes lesões destes ‘craques’, os adeptos parisienses, ao invés, deliciavam-se com os jogadores formados no Seixal que fizeram o percurso inverso: Gonçalo Ramos e João Neves. Entre as várias ‘anedotas’ que se poderiam ainda contar sobre a passagem daquelas estrelas pelo Benfica, há uma que vale a pena recordar: enquanto o departamento de comunicação insistia em esconder a lesão de Bernat, certo dia, talvez já cansado da situação, foi o próprio lateral espanhol que decidiu publicar nas suas redes sociais uma foto em que aparecia deitado na marquesa a anunciar o problema que o afetava. Diz muito sobre as lideranças (?) que existem hoje no Seixal.

Erro 6: DI MARÍA

A forma como a estrutura deixou cair Di María na parte final da sua passagem pelo Benfica é um caso que define na perfeição a ausência de liderança – e sentido de responsabilidade – que se vive no reino da águia. Um craque com a dimensão de Di María, campeão mundial, não pode ser recebido na varanda da porta 18 por milhares de adeptos em festa para, menos de dois anos, depois ser humilhado na hora da saída. O que permitiram a Bruno Lage fazer a Di María não tem classificação. Pessoalmente, nunca achei que a contratação do argentino fizesse sentido, à luz daquilo que deve ser um projeto desportivo sólido, incapaz de ceder a caprichos, movimentos emocionais ou, simplesmente, ações de propaganda. Mas, uma vez contratado, então Di María tem de ser respeitado na justa medida daquilo que o seu estatuto justifica. E não foi. Foi afastado da equipa nos jogos decisivos desta Liga, foi o 6.º suplente (!) a saltar do banco na final do Jamor e acabou em lágrimas no relvado, confortado apenas por colegas. Regressa à Argentina sem ter voltado a sagrar-se campeão nacional. Desastroso.

ERRO 7: SCOUTING

Em silêncio, quase sem se dar por isso, o Benfica deixou esvaziar o departamento de scouting, que chegou a ser elogiado por alguns dos maiores especialistas na matéria como um dos mais bem preparados no futebol europeu. Ou que, pelo menos, acompanhava as melhores práticas e tendências. O chief-scout, Pedro Ferreira, rumou ao Nottingham Forest. Mais três ou quatro elementos prefiram acompanhá-lo do que continuar no Seixal. Tomás Amaral, que fez parte desse departamento de alta performance, deixou também o Benfica para assumir o cargo de diretor desportivo do Spartak Moscovo. Ou seja, o scouting do Benfica ficou reduzido a quase nada e… quase nada se fez para recuperar o talento perdido.

Erro 8: FINANÇAS

Os relatórios e contas do Benfica são um susto, a cada seis meses, sempre que a SAD é obrigada a apresentar os resultados ao mercado. Mesmo um adepto pouco preparado para fazer análise financeira consegue perceber o problema que está instalado. O passivo cresce de forma galopante, a despesa dispara e já é impossível esconder que os valores pagos em FSEs (os famosos Fornecimentos e Serviços Externos) estão fora de controlo. Acumulam-se os empréstimos obrigacionistas e, desta vez, nem a presença na Liga dos Campeões está garantida para a época seguinte. As palavras – escutadas num áudio feito à socapa – em que Rui Costa aparece a dizer que “o clube está em risco” acabaram por ser desmentidas por fonte oficial do Benfica. O canal em causa (a CMTV) repetiu vezes sem conta esse áudio e, de facto, se o presidente não está ali a dizer que “o clube está em risco”, então está a dizer uma coisa muito parecida. A pergunta que os adeptos fazem é, pois, totalmente legítima: onde pára o dinheiro feito com Enzo Fernandez, Gonçalo Ramos, João Neves ou Marcos Leonardo?

Erro 9: LUÍS MENDES

Foi escolhido por Rui Costa para ser, quase, a sua sombra nos corredores da Luz e, em particular, na SAD. Amigo próximo há muitos anos, pessoa da inteira confiança do presidente, Luís Mendes nunca teve, ainda assim, vida fácil na Luz. Ficou com a pasta das Finanças e tentou, desde a primeira hora, eliminar ‘gorduras’ que, todas juntas, consumiam injustificadamente milhões de euros ao Benfica, ano após ano. Luís Mendes foi cortando até poder. Deixou de poder quando encontrou, por fim, as ‘vacas sagradas’ em que ninguém ousa tocar. Ele ousou. E não conseguiu ter sucesso. Só tinha uma solução: informar o presidente e obrigá-lo a tomar uma decisão – ou eles ou eu. Rui Costa, como em tantas outras vezes, ficou em cima do muro. Não decidiu e preferiu deixar o tempo correr, sem nada fazer. Luís Mendes não aceitou o jogo do “faz de conta” e bateu mesmo com a porta. Perdeu um amigo, mas ficou de consciência tranquila. Tentou, pelo menos, que houvesse um Benfica melhor.

Erro 10: MODALIDADES

O Benfica, no mandato de Rui Costa, aumentou em mais de 50% o custo com as cinco modalidades de pavilhão: futsal, hóquei em patins, basquetebol, andebol e voleibol. Para passar a ganhar mais títulos? Não, pelo contrário. Para passar a ganhar menos. O hóquei em patins, por exemplo, construiu um plantel luxuoso e, de longe, o mais caro que alguma vez existiu em Portugal. O hóquei do Benfica tem mesmo um dos maiores orçamentos da Europa. Há poucas semanas, perdeu consecutivamente nas meias-finais da Taça de Portugal e nas meias-finais da Liga dos Campeões. O voleibol, por exemplo, que era uma espécie de campeão crónico – sobretudo desde a chegada do treinador Marcel Matz – conseguiu falhar a conquista do campeonato, esta época, depois de ter estado a ganhar 2-0 ao Sporting na final. Viria, ainda, a perder (3-2). No basquetebol e no futsal está tudo em aberto, por enquanto, mas no andebol voltou a provar-se que o Sporting está muito por cima de qualquer rival. Conclusão: não era possível ter estes mesmos resultados gastando metade do que se gasta?

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