
Paulo Catarino despede-se dos relvados: "O futebol moderno virou um jogo de computador"
Craques|Aos 53 anos, Paulo Catarino colocou um ponto final numa longa carreira que o levou a representar, então, mais de 30 clubes. A estreia deu-se aos 17 anos, no escalão sénior, ainda no futebol amador, em 1990, ao serviço do Quintajense, clube da região de Palmela, que disputava a 2.ª distrital de Setúbal. Apesar dos tempos difíceis, onde Paulo teve que conciliar o sonho com a vida profissional na Tipografia onde trabalhava, o convívio com atletas mais experientes acabou por ser uma grande aprendizagem para o jovem Catarino. Após mais de 30 anos no futebol sénior, o globetrotter avaliou o seu percurso numa entrevista ao Craques e diz não estar identificado com o futebol dos dias de hoje. Paulo Catarino despede-se dos relvados: “O futebol moderno virou um jogo de computador.”
O arranque não foi, naturalmente fácil mas as recordações são, ainda assim, muito positivas. “Obviamente não ganhava dinheiro para viver. Mas foi um ano muito bom, numa altura muito difícil onde o futebol distrital era jogado por pessoas mais velhas. O que acabou por ser uma grande aprendizagem”, refere. A ambição sempre o guiou, mas ao contrário de muitos, mais pela alegria de jogar. “Não quero que se lembrem de mim apenas como bom jogador ou goleador, mas como um bom amigo e uma pessoa honesta”, explica.

Um dos momentos mais emotivos da sua trajetória no mundo do futebol, foi quando a sua mãe o viu jogar pela primeira vez,. “Fiz três golos e festejei todos abraçado a ela. Acho que daí nasceu o sonho de virar profissional para a poder orgulhar”, admite.
Apesar de ter passado por mais de 30 clubes, Catarino valorizou muito mais os laços criados e as amizades que construiu no futebol do que propriamente os troféus. Ou, até, as conquistas individuais. “Os meus verdadeiros troféus são os amigos que deixei em cada clube”, confessa, acrescentando: “Orgulha-me chegar ao fim da carreira e ter tanta gente, desde roupeiros, a dirigentes ou antigos colegas de equipa a ligar-me e a mandar mensagens de carinho e apoio”, confessou Paulo Catarino.

A época 1998/99, no Imortal, é considerada “determinante” por Paulo Catarino. Na anterior, ao serviço do Nacional da Madeira, Paulo sofrera uma lesão grave na coluna que o afastou, então, dos relvados por quatro meses. E, após o regresso à competição, o avançado teve de enfrentar uma dura realidade: a perda do seu irmão mais velho.
Ricardo Formosinho, na altura treinador do Imortal, e atual adjunto de José Mourinho no SL Benfica, foi essencial para o ponto de viragem na história de Paulo Catarino. “Ele disse-me: ‘Vais comigo para o Algarve. Vais recuar uma divisão, mas eu confio em ti’. E assim foi. Depois dessa época, abriram-se várias portas em Portugal e no estrangeiro”, explica Paulo Catarino.

No entanto, o melhor ainda estava por vir. Em 1999, surge uma proposta do clube do seu coração, o Vitória FC. Que, na época, vivia então os seus tempos áureos na Primeira Liga portuguesa. “Era o meu sonho de menino e da minha família, dos meus irmãos e de toda a gente que gosta de mim. E não hesitei. Realizei o meu grande sonho de defender o clube do meu coração na Primeira Liga.”

Apesar do amor ao desporto rei, Paulo Catarino não poupou nas críticas ao estado do futebol moderno, “O futebol hoje é muito tático, parece um jogo de computador. Os jogadores perderam alegria e liberdade. E os treinos são autênticas aulas táticas”, refere. Já sobre o VAR e a intervenção tecnológica no desporto, Catarino não escondeu o seu desagrado. “Não faz sentido anularem golos por 2 ou 3 centímetros. O futebol é controlado por câmaras e os jogadores são controlados por fora”, considera.
Este descontentamento é o motivo da sua recusa em apostar numa carreira como treinador. “Não me identifico com o estado atual do futebol. Por isso, a menos que surja um clube onde possa ser feliz, o futebol não fará mais parte da equação”, confessou. Numa espécie de balanço final, Catarino lamenta ter pago um preço demasiado alto pela sua carreira. “Arrependo-me de ter jogado fora muitos anos. Perdi anos de convívio com a minha mãe. Além de ter estado longe do meu filho durante vários anos. Se fosse hoje teria ficado mais perto da família”, admite o globetrotter Paulo Catarino.


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