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No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

No adeus à Argentina, a certeza de sempre: Messi nunca deixou de ser argentino

Tiago CamposTiago Campos|

Sai de cena com 207 jogos, 125 golos e todos os grandes títulos conquistados. Mas o maior triunfo de Lionel Messi talvez tenha sido outro: transformar um país que questionou a sua identidade num país que acabou rendido aos seus pés.

Durante anos, Lionel Messi teve de responder a uma acusação particularmente cruel: não ser suficientemente argentino.

Diziam que era espanhol. Que não cantava o hino. Que não sentia a camisola como Maradona. Que aquilo que fazia pelo Barcelona nunca conseguia fazer pela Argentina. Saiu de Rosario aos 13 anos e, para alguns, essa distância geográfica transformou-se numa espécie de pecado original que nenhuma estelar exibição parecia conseguir apagar.

A ironia é extraordinária: Messi podia realmente ter representado a Espanha.

Quando começava a destacar-se nas camadas jovens do Barcelona, a possibilidade foi-lhe colocada. O próprio confirmou recentemente que existiram aproximações espanholas e que, pelas circunstâncias da sua formação, poderia ter acontecido. Mas havia uma coisa que nunca esteve verdadeiramente em discussão para Leo e sempre o transmitiu ao seu recém-falecido pai: «Papá, quero jogar pela Argentina.»

E escolheu a Argentina antes de ela o escolher verdadeiramente.

Messi passou os últimos anos da sua juventude em Barcelona, mas há coisas que a distância nunca conseguiu levar.

O miúdo argentino que chegou à Catalunha continuou a falar como um rosarino. O castelhano nunca perdeu aquela musicalidade tão peculiar da Argentina, nem os seus “vos”, os “tenés”, os “querés”.

Continuou ligado a Rosario, ao mate, aos churrascos, à família e aos amigos de infância. Uma reportagem da TIME já sublinhava, em 2012, algo particularmente simbólico: depois de tantos anos em Espanha, o sotaque de Messi praticamente não tinha mudado.

Foto: CHRISTOPHER MORRIS . VII FOR TIME

Mesmo assim, teve de passar anos a provar de onde era.

Talvez porque os argentinos nunca o tinham visto crescer diante deles. Maradona tinha sido Argentinos Juniors, Boca Juniors, rua, bairro, Buenos Aires. Messi cresceu futebolisticamente do outro lado do Atlântico. Quando a Argentina começou verdadeiramente a conhecê-lo, o Barcelona já começava a perceber que tinha encontrado algo extraordinário.

E isso criou uma distância que Messi demoraria anos a vencer.

Quanto melhor era em Barcelona, maior parecia tornar-se a dívida imaginária com a seleção.

Se fazia três golos em Espanha, perguntava-se por que não fazia o mesmo pela Argentina. Se sorria no Camp Nou e aparecia sério com a Albiceleste, dizia-se que não sentia o mesmo. Se não cantava o hino, questionava-se o patriotismo.

E havia sempre a comparação impossível com Diego Armando Maradona. Messi não tinha apenas de ser Messi. Para uma parte do país, tinha também de ser Diego.

AMAR ABDALLAH DALSH / REUTERS

A Argentina chegou à final do Mundial de 2014 e perdeu em detalhes para a Alemanha. Messi ficou a centímetros daquilo que lhe exigiam.

Depois perdeu a Copa América de 2015. E voltou a perdê-la em 2016, contra o mesmo adversário, e ambas após desempate por grandes penalidades.

Nessa noite, diante do Chile, falhou uma grande penalidade e desabou. As lágrimas de Messi talvez tenham sido a resposta mais evidente a todos aqueles que durante anos disseram que aquela camisola não lhe doía. Doía-lhe tanto que decidiu deixá-la.

Aos 29 anos anunciou a saída da seleção. Estava esgotado de perder, mas talvez também de ser permanentemente julgado por um país ao qual nunca conseguira demonstrar suficientemente que pertencia.

Regressou pouco depois. E essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes de toda a sua carreira.

A segunda metade da história seria completamente diferente. A própria dimensão da carreira internacional de Messi depois dos 30 anos é extraordinária: 95 internacionalizações, 70 golos e uma Argentina que passou das derrotas sucessivas para uma era de domínio sob o comando de Lionel Scaloni (que havia sido companheiro de Messi na selecção enquanto jogador), conquistando duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial.

A Copa América de 2021 mudou tudo.

Em 2021, Messi conquistou finalmente um grande título pela seleção principal, num Maracanã despido (devido à pandemia), e diante do arquirrival Brasil. Uma das imagens mais impactantes da sua carreira foi a dele a afastar os seus colegas que estavam a querer “picar” Neymar devido à rivalidade histórica que há entre argentinos e brasileiros, e fundir-se num sentido abraço com um dos seus melhores amigos no futebol e seu ex-companheiro no Barcelona.

Também por isso, foi severamente criticado na Argentina. Como se o futebol fosse uma guerra, uma ideia completamente estapafúrdia.

Seguiu-se a Finalíssima contra a campeã europeia Itália. Mas faltava a imagem que parecia perseguir toda a sua carreira: o troféu dourado de campeão do mundo.

No Qatar, em 2022, Messi fez aquilo que durante anos lhe disseram que precisava de fazer para poder sentar-se definitivamente à mesa dos imortais do futebol. Marcou sete golos, foi eleito o melhor jogador do torneio e levantou o Mundial depois de uma final irrepetível e icónica diante da França.

Campeonato do mundo – Foto: Reuters/Paul Childs

E Peter Drury encontrou as palavras certas para um momento que parecia impossível de traduzir:

“Lionel Messi conquistou o seu último cume. Lionel Messi apertou a mão ao paraíso. O menino de Rosario, Santa Fe, acaba de chegar ao céu e chegar a um patamar só dele: o de melhor de todos os tempos.”

Talvez o mais bonito seja que Messi já não precisava daquele Mundial para provar que era argentino. Mas a Argentina talvez precisasse daquele Mundial para perceber definitivamente que Messi sempre tinha sido seu.

Depois do Qatar desapareceram muitas das acusações. Já ninguém queria saber se cantava o hino (curiosamente depois de conquistar a taça mais desejada, Messi soltou-se e começou a ser dos mais sonoros ao entoá-lo). Barcelona deixou de ser utilizada contra ele. A comparação com Maradona deixou de funcionar como arma.

Messi não substituiu Diego. A Argentina simplesmente abriu espaço para os dois.

Agora os números ficam para a história. 207 jogos. 125 golos.

Nenhum argentino vestiu mais vezes aquela camisola. Nenhum marcou mais golos por ela. Javier Mascherano, segundo em internacionalizações, ficou pelos 147 jogos. Gabriel Batistuta, durante tanto tempo referência goleadora do país, terminou com 56 golos. Messi despede-se também como recordista sul-americano de jogos e golos por uma seleção.

Conquistou um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Campeonato do Mundo. Disputou seis Mundiais e três finais da maior competição de seleções.

Mas talvez haja um número ainda mais bonito. 21 anos. Duas décadas a representar um país que primeiro o questionou, depois o exigiu, por vezes o maltratou e, finalmente, o passou a idolatrar.

Lionel Messi despede-se aos 39 anos. E há uma espécie de justiça poética na forma como tudo termina.

O menino que podia ter escolhido Espanha, escolheu a Argentina. O homem acusado de não parecer argentino nunca perdeu a maneira argentina de falar.

O homem acusado de não sentir a camisola, chorou compulsivamente por ela. Deu tudo de si em todos os momentos, tal como ele mencionou na sua carta emocionante de despedida à selecção na rede social Instagram:

«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção.Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».

O homem que disseram não conseguir ganhar pela Argentina, ganhou tudo. Caiu várias vezes, levantou-se outras tantas. Uma história digna do melhor dos documentários ou filmes autobiográficos de Hollywood.

E aquele a quem durante tantos anos perguntaram se conseguiria ser como Maradona acabou por não precisar de ser ninguém além de Lionel Andrés Messi.

No Qatar, Peter Drury disse que o menino de Rosario tinha chegado ao céu.

Quatro anos depois, sabemos que não voltou de lá. A Argentina demorou a aceitá-lo como seu. Messi passou uma vida inteira a provar que nunca tinha sido de outro lugar.

https://www.instagram.com/reel/DctYV2qt6S5/?igsi=ZjQxY3JwYW56YnN6

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